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BNDES está sob ataque, diz Luciano Coutinho

Segundo o presidente do banco, instituição vem sofrendo pressão de grupos 'conservadores' para 'fechar a torneira'

Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h11

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, disse ontem em São Paulo que a instituição que dirige é hoje o único sistema de financiamento de longo prazo no País, e afirmou que "o BNDES está sob ataque para fechar a torneira".

Ele evitou se referir diretamente aos cortes previstos dos repasses do Tesouro para o banco, mas admitiu que, "com situação de dificuldade fiscal, a crítica conservadora recrudesceu". No entanto, indagado sobre quem seriam os autores desses ataques, o presidente do banco minimizou. "É o setor conservador que gostaria de pensar num ajuste radical (do BNDES). E entendo que esse ajuste pode ser contraproducente para o País", disse. "Não estava me referindo ao governo sobre os setores conservadores."

Coutinho reafirmou que não há outra forma de financiamento de longo prazo além do BNDES, diante da necessidade de liquidez diária de bancos. "O sistema bancário privado mundial é avesso a dar crédito de longo prazo, e no caso brasileiro há um descasamento das poupanças de curto prazo e a capacidade de emprestar", disse.

"A saída para financiamentos de longo prazo seria mudança no sistema de poupança para longo prazo", completou. O presidente do BNDES lembrou que não é possível fazer intervenção na poupança como foi feito no Plano Collor, e defendeu que essa mudança seja feita de forma "não agressiva" e em um cenário de queda nos juros, o que deve demorar.

"No curto prazo, portanto, atrair financiamento de longo prazo se dá com debêntures, mas elas têm potencial limitado de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões", disse.

Coutinho finalizou lembrando que os desembolsos do BNDES devem chegar ao recorde de R$ 190 bilhões em 2013, um recorde histórico, para voltar a rebater os críticos. "A agenda de desmontar o financiamento do BNDES é mortalmente contrária aos interesses do País", disse o executivo, que participou de uma conferência do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Reservas cambiais. Na avaliação de Coutinho, as reservas externas brasileiras, de quase US$ 400 bilhões, dão proteção ao País, mas não são "garantia absoluta" diante do cenário externo volátil. Ele lembrou que, após a crise financeira, houve "um processo escandaloso de socorro aos bancos no exterior", com a injeção de recursos públicos em bancos e empresas, como a General Motors, nos Estados Unidos.

"O sistema financeiro desregulado é perigoso à sociedade, pois socializa efeitos da crise. E a crise aponta que é preciso regulação preventiva e disciplinar para defender a sociedade", completou.

O presidente do BNDES afirmou também que a instituição de fomento está "empenhada em ajudar a política fiscal" e que trabalhará "firmemente para reduzir a pressão fiscal que empréstimos do banco causam sobre a dívida publica federal". Coutinho considerou que esse ajuste será feito sem que os investimentos sejam prejudicados.

Para Coutinho, a indústria brasileira perdeu competitividade após longos ciclos de apreciação cambial. Ele lembrou que a participação da indústria no PIB caiu de 25% a 26%, no final do século passado, para 13% a 14% atualmente.

"Após dois períodos longos de apreciação cambial, o primeiro de 1994 a 2000, provocado pela política de paridade e com juro lá em cima, e depois de 2005 a 2011, com a melhora extraordinária dos preços de commodities, com uma política também de valorização do real e com economia crescendo, a percepção não foi clara dos impactos na indústria", explicou.

Indústria. Durante a conferência, o presidente do BNDES afirmou que é preciso lutar para recuperar a capacidade competitiva da indústria e disse ser necessária uma política industrial de longo prazo, independente de problemas conjunturais, como a variação cambial.

Coutinho pediu que o trabalhador defenda uma melhora competitiva da indústria com preservação de emprego e admitiu: "Sem fazer qualquer juízo de valor, é da natureza do capitalista sacrificar empregos em busca da rentabilidade".

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