BNDES faz correção e lucro trimestral cai R$ 386 milhões

Três horas depois de anunciar o que teria sido o maior lucro trimestral da história do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de R$ 1,410 bilhão, a direção do banco foi obrigada a suprimir R$ 386 milhões do resultado financeiro de janeiro a março, o que baixou o valor a R$ 1,024 bilhão. A retificação foi imposta pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que discordou da contabilização feita pelo banco do valor de ações que a BNDESPar (empresa de participações do banco) detém na CSN. Esta valoração poderia ter "inflado" o balanço, segundo informou um técnico da CVM. A confusão em torno do resultado do primeiro trimestre do ano ocorreu oito dias depois das acusações do ex-presidente BNDES, Carlos Lessa, feitas ao Estado de que o balanço financeiro do ano passado teria sofrido alterações para reduzir o lucro e, em conseqüência, os dividendos pagos ao Tesouro. Na ocasião, o atual presidente do banco, Guido Mantega, desconsiderou as denúncias dizendo que as contas do banco foram auditadas e aprovadas. "Quem faz maquiagem é empresa de cosméticos, como a Natura", afirmou, então. Nesta sexta-feira, ao divulgar o lucro de R$ 1,410 bilhão no trimestre, Mantega atribuiu o resultado (que seria apenas cerca de R$ 70 milhões inferior ao de todo o ano de 2004) ao bom desempenho da economia brasileira no ano passado, já que o lucro era reflexo dos dividendos recebidos pelo banco das empresas em que tem participação acionária. Com o este reforço financeiro, explicou Mantega, o BNDES já estaria estudando novas reduções no custo do financiamento de novos projetos. No início da noite, o banco afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que vai recorrer da decisão da CVM. E explicou que a BNDESPar tinha em carteira debêntures da Vicunha Siderurgia no valor de R$ 408 milhões. Quando a família Rabinovich vendeu sua participação na empresa à família Steinbruch, dona da CSN, as debêntures do BNDES foram convertidas em ações da siderúrgica, como estava previsto em contrato. Em vez de lançar no balanço o valor histórico de aquisição dos papéis, o banco contabilizou o valor de mercado das ações, de R$ 993 milhões, uma diferença de R$ 585 milhões. Descontados Imposto de Renda e contribuição social, o valor líquido da diferença foi de R$ 386 milhões. Antes de fechar o balanço, o BNDES fez uma consulta à CVM, mas resolveu divulgar os resultados antes do parecer do órgão regulador, que chegou poucas horas depois da entrevista concedida por Mantega. A autarquia tem como norma geral que a empresas sigam o princípio do conservadorismo: quando compram ações contabilizem o valor histórico de compra e somente ao venderem registrem o valor de mercado, que oscila muito e, com as ações em carteira, podem distorcer o balanço. O lucro do primeiro trimestre de 2005 foi equivalente aos R$ 1,099 bilhão obtidos no mesmo período em 2004 e não 28% superior, como havia sustentado a direção do banco. A BNDESPar, de onde vem a maior parte do resultado, tem ações de 186 companhias brasileiras, dentre elas gigantes como Petrobrás, Companhia Vale do Rio Doce e Banco do Brasil. "São investimentos feitos no passado, apostas do banco em empresas que estavam começando, e agora estão rendendo dividendos", avaliou o presidente do BNDES, Guido Mantega. O bom desempenho da carteira de ações, disse Mantega, vem permitindo ao banco reduzir os spreads cobrados sobre os empréstimos que concede, disse o executivo. Este ano, o BNDES já reduziu os spreads de diversos setores, como bens de capital e exportações. Agora, planeja reduzir os custos de financiamento de projetos em regiões menos desenvolvidas - Norte, Nordeste e Centro-Oeste. "Nossa política é ter o menor lucro possível na carteira de renda fixa (ganhos com financiamento de projetos), ofertando juros mais reduzidos", informou. A estratégia já tem reflexo no balanço do banco: no primeiro trimestre de 2005, por exemplo, a renda fixa contribuiu com apenas R$ 278 milhões para o lucro apurado no período. O spread médio cobrado pela instituição, atualmente, é de 2,5%. É esse valor, em média, que o tomador do empréstimo paga por ano, além da TJLP, hoje em 9,75% ao ano. O banco luta para conseguir diminuir ainda mais a TJLP, mas enquanto não obtém resultados, reduz o custo dos financiamentos para setores específicos alterando o spread.

Agencia Estado,

13 Maio 2005 | 20h13

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.