BNDES mexe com juros de mercado

BC atribui elevação dos juros médios cobrados pelos bancos à migração dos melhores clientes para financiamento mais barato do BNDES

Fernando Nakagawa, Fabio Graner BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

A oferta agressiva de empréstimos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contribui para elevar a média dos juros cobrada pelo resto do sistema financeiro. Essa é a mais nova explicação do Banco Central para justificar o forte aumento em julho do custo dos financiamentos para empresas no crédito livre - segmento em que bancos aplicam o dinheiro livremente.

Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a migração das grandes companhias para o crédito barato do BNDES teve como resultado o aumento do juro medido pelo Banco Central. Com a saída das companhias grandes e sadias, que pagavam taxas menores que o restante do mercado, o juro médio verificado em todas as operações subiu pela maior influência das empresas de menor porte, que pagam juros mais elevados. Para esse grupo, a taxa é maior porque o risco de calote é mais elevado, justamente por isso tais clientes não conseguem facilmente acesso ao BNDES.

Dados divulgados ontem pelo BC mostraram que a taxa média nos empréstimos corporativos nas instituições tradicionais aumentou de 27,3% em junho para 28,7% anuais em julho, na maior elevação proporcional desde outubro de 2008, no estouro da crise. Segundo o BC, o encarecimento do crédito ocorreu especialmente porque, sem os grandes, a margem de lucro média nos empréstimos realizados, o chamado spread bancário, subiu.

Dados preliminares de agosto até o dia 12 mostram que o aumento continua, ainda que em ritmo menor.

Altamir Lopes explica que, com menos empresas de baixo risco nos bancos, naturalmente a carteira de crédito que remanesce nessas instituições teria maior potencial de calote. Por isso, o spread bancário aumenta. Além disso, pode ter havido alguma tentativa de recomposição da margem de lucro para compensar a perda de alguns clientes que liquidaram empréstimos e migraram para o BNDES.

Capital de giro. O analista da Tendências Consultoria Alexandre Andrade destaca que, ao contrário do que acontecia antes da crise, o BNDES tem maior presença em linhas de crédito corriqueiras, como o capital de giro, competindo com os bancos comerciais também nesse mercado.

Na instituição, vale lembrar, o discurso sempre foi que o investimento é o foco principal. Algumas operações de capital de giro do banco de fomento têm juro mínimo que se aproxima de 10% ao ano, muito inferior à média de 29,9% nos bancos comerciais. Essa diferença, somada à ação mais agressiva no investimento, explica o crescimento de 45% das operações de crédito do BNDES nos últimos 12 meses.

Além da saída dos grandes, Andrade explica que a inadimplência impede qualquer mudança dos juros no curto prazo. No desconto de promissórias, por exemplo, 5,8% das operações têm atraso superior a 90 dias, o maior nível da série.

"Isso aumenta o risco da operação e corrobora com o aumento do juro praticado nos bancos", diz ele. Enquanto algumas empresas ainda têm dificuldade com o crédito, a taxa para os financiamentos às famílias tem oscilado muito pouco.

Em julho, o juro médio subiu 0,1 ponto na comparação com junho, para 40,5% ao ano. Em 12 de agosto, porém, a ligeira alta já havia sido anulada e a taxa retornou ao mesmo nível de junho, em 40,4% anuais. Para Altamir Lopes, a realidade do crédito às pessoas físicas é completamente diferente da vista no mundo corporativo.

Cenário

ALEXANDRE ANDRADE

ANALISTA DA TENDÊNCIAS

"A migração começou em 2009, quando o BNDES passou a oferecer grandes linhas de capital de giro para ajudar empresas em crise.

O movimento se acentuou."

"Diminui (a maior oferta de crédito pelo BNDES para amenizar os feitos da crise) a eficácia do aumento de juros e cria distorções no mercado de crédito, como esse aumento de taxas em julho."

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