Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

BNDES pretende captar R$ 15 bilhões em 2015 nos mercados doméstico e externo

Banco de fomento pedirá à auditoria para retirar ressalva em balanço sobre perdas acarretadas pela desvalorização da Petrobrás, que dificulta e encarece a captação de recursos

Irany Tereza, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2015 | 14h22

BRASÍLIA - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) planeja captar R$ 15 bilhões este ano, no mercado doméstico e no exterior, apurou o Broadcast, serviço da Agência Estado. Para isso, vai reivindicar à KPMG a retirada da ressalva que a auditoria incluiu no balanço do banco no ano passado, devido às perdas acarretadas pela desvalorização da Petrobrás. O BNDES é detentor de 17,3% do capital social da petroleira, por meio de uma participação direta do banco e também de sua empresa de participações, a BNDESPar.

No ano passado, o BNDES registrou lucro líquido de R$ 8,59 bilhões, mas a KPMG fez a ressalva de que o valor está inflado em R$ 1,6 bilhão, remetendo o cálculo a perdas de R$ 2,6 bilhões estimadas com a desvalorização da Petrobrás e deduzindo deste o provisionamento que já havia sido feito pelo banco, de R$ 1 bilhão. 


Em relatório publicado no Diário Oficial em março, quando divulgou o balanço, o BNDES comentou sobre o investimento na Petrobrás: "em 31 de dezembro de 2014, seu valor de mercado, apurado com base na cotação das ações em bolsa de valores, apresentava desvalorização em relação ao respectivo custo de aquisição".

A Petrobrás tentou convencer os auditores de que o total provisionado seria suficiente para anular eventuais prejuízos com a queda na cotação das ações. Mas, alegando não ter acesso também aos números detalhados do balanço da Petrobrás, a KPMG decidiu manter a ressalva. Com a divulgação do balanço dos terceiro e quarto trimestres pela petroleira, o BNDES voltará à carga para buscar o referendo da auditoria aos cálculos de seus técnicos.

A ressalva dificulta e encarece a captação de recursos pelo banco de fomento, que este ano, pela primeira vez desde 2008, não receberá reforço de caixa do Tesouro, seu único acionista. A partir de 2008 - numa iniciativa que, à época, buscou reduzir os efeitos da crise internacional na indústria brasileira - o governo injeta recursos no banco que somaram, até 2014, R$ 416,05 bilhões.

Um dos primeiros anúncios do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi o de suspender os expedientes adotados para essa política anticíclica. De imediato, determinou que não haveria mais aportes do Tesouro. Somente no ano de 2014 foram R$ 60 bilhões. Além desse reforço, o banco foi ao mercado internacional duas vezes no ano passado e captou em dólares (US$ 1 bilhão) e em euros (650 milhões), em títulos com prazo de vencimento em 2019.

Este ano, o BNDES fez um contrato de financiamento externo, em abril, no valor de US$ 150 milhões com o Japan Bank for International Cooperation (JBIC) e o Mizuho Bank, Ltd. A operação foi realizada no âmbito da Linha GREEN (Global Action for Reconciling Economic Growth and Environmental Preservation), que tem como objetivo o apoio a projetos que favoreçam a preservação do meio ambiente global.

Internamente não houve emissão de debêntures, mas o BNDES informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "vem fazendo esforços para diversificar sua fonte de recursos". Captou este ano em LCA (letras de crédito agrícola) e realizou operações de renda variável. O banco não informou valores, que só estarão disponíveis na divulgação do balanço do primeiro trimestre. O Broadcast apurou, porém, que estas captações já alcançam uma cifra em torno de R$ 4 bilhões.

O banco trabalha com a meta de reduzir em ao menos 30% o patamar de desembolsos, mantido, nos últimos dois anos, em torno de R$ 190 bilhões. A estratégia vai de encontro à determinação da equipe econômica, para que o BNDES reduza o tamanho que alcançou na economia, em grande parte devido às injeções de recursos do Tesouro. 

O ritmo de aumento da taxa de referência usada para os empréstimos da instituição, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), o principal instrumento para manutenção de investimentos privados no País, está mais acelerado do que o previsto no início do ano, quando o governo projetava chegar ao fim de 2015 com 6,5% ao ano. 

A taxa, que é revista trimestralmente e que passou os últimos dois anos estacionada em 5%, já sofreu duas altas consecutivas em 2015 e está em 6% aa. Em junho será novamente revista. A ideia da equipe econômica é reduzir a grande diferença entre a TJLP e a Selic, que ontem foi elevada para 13,25%, o maior patamar desde 2008.

As captações externas do BNDES este ano dependem não apenas da solução das pendências de seu próprio balanço, mas também do destravamento do mercado, que está à espera de uma captação soberana do Tesouro Nacional. A última emissão do Tesouro ocorreu em setembro do ano passado e somou US$ 1,050 bilhão em bônus de 10 anos.

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