Gabriela Biló/Estadão - 7/1/2020
Fabio Abrahão sobre mudanças no finaciamento de projetos: 'efeito colateral é atrair o investidor que é de fora do Brasil'. Gabriela Biló/Estadão - 7/1/2020

BNDES quer consolidar novo tipo de financiamento para diversificar disputa em leilões

Ideia do banco é que as garantias dos empréstimos sejam sustentadas pelo próprio projeto, em vez de estarem atreladas aos balanços das empresas, como acontece atualmente

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 05h00

BRASÍLIA - O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quer consolidar em 2022 um tipo de financiamento que busca migrar o status do mercado de infraestrutura do Brasil de local para global. Como mostrou o Estadão/Broadcast, um dos desafios do governo federal neste ano é diversificar o número de investidores que disputarão as concessões, especialmente de rodovias, que exigirão investimentos de mais de R$ 80 bilhões. O salto planejado pelo BNDES tem como um dos pilares o avanço do chamado 'project finance', financiamento que pode ser acionado quando as garantias do empréstimo são sustentadas pelo próprio projeto.

A diferença é que hoje, geralmente, as garantias estão atreladas ao balanço das companhias, o que limita a capacidade de tomada de empréstimo pelas empresas, principalmente para quem é de fora. A virada de chave, portanto, está amparada na consolidação de projetos de infraestrutura refinados, que suportam as próprias dívidas, com foco na prestação de serviços de infraestrutura. "O efeito colateral disso é atrair o investidor que é de fora do Brasil. Que tem balanço robusto lá fora, mas não tem aqui dentro", afirmou o diretor de infraestrutura, concessões e PPPs do BNDES, Fabio Abrahão.

Além de atrair empresas estrangeiras, esse tipo de projeto também abre espaço para fundos de investimento e companhias nacionais de menor porte disputarem os ativos brasileiros, avaliou o diretor. "Nós conseguimos fazer isso em saneamento. E achamos que conseguiremos fazer a mesma coisa com rodovias", disse Abrahão.

Na área de transportes, o BNDES deu um passo importante com o ‘project finance’ a partir da operação da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo. A instituição concedeu em dezembro um empréstimo de R$ 7 bilhões ao projeto. “Foi a primeira operação relevante [de project finance]. Esses movimentos combinados colocam o Brasil numa outra esfera de capacidade de atração de operadores de outros mercados”, afirmou o diretor do banco.

Para que esse tipo de financiamento “pare em pé”, são necessários três ingredientes principais, explica o banco. Um projeto de ótima qualidade, um bom pacote de garantias e bons acionistas responsáveis pelo empreendimento. A redução de riscos é crucial para quem irá conceder o financiamento.

"O que a gente quer é, nos cenários de desvio, estar salvaguardado. A qualidade do projeto diminui esses riscos. Aí você consegue ter um pacote de garantias que dê conforto para o sistema financeiro e o mercado de capitais", afirmou ao Estadão/Broadcast o superintendente de Saneamento, Transporte e Logística da Diretoria de Crédito à Infraestrutura do BNDES, Leonardo Pereira. "O projeto é estruturado para ter estresses e aguentar".  

O 'project finance' é uma das apostas do governo para diversificar a concorrência nos leilões de rodovias neste ano. Isso porque, à medida que as disputas vão ocorrendo e as empresas comprometem seus balanços com os novos ativos, fica mais difícil haver disputa forte nos próximos certames, apontou a secretária de Planejamento, Desenvolvimento e Parcerias do Ministério da Infraestrutura, Natália Marcassa. “Então no que precisamos avançar agora é a estruturação do financiamento", disse Marcassa.

No BNDES, a avaliação é de que os projetos que estão sendo colocados na praça, com o auxílio da estruturação do banco, comportam esse tipo de financiamento. "Acoplamos essa ferramenta, que foi desenhada ao longo do último ano e meio. Isso tudo é um fluxo. Começamos a ver que o filme está mudando com operadores de médio porte bidando [dando lance em leilões] para algumas rodovias. Isso já mostra o início da mudança", afirmou Abrahão.

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Governo busca investidor estrangeiro para leilão de 14 rodovias em 2022

Meta do Ministério da Infraestrutura, que espera ultrapassar os R$ 80 bilhões de investimentos, é ameaçada pela alta concentração do mercado nacional, o que pode gerar pouca concorrência

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 05h00

BRASÍLIA - A meta do Ministério da Infraestrutura de realizar o leilão de 14 rodovias em 2022, ano eleitoral, enfrentará um desafio proporcional ao montante de investimentos que o governo quer contratar, que ultrapassa R$ 80 bilhões. A cifra expressiva coloca dúvidas sobre a capacidade de a pasta promover leilões concorridos, já que o mercado nacional é concentrado em poucos grupos. Entre eles, boa parte arrematou rodovias com alta necessidade de investimento nos últimos anos, o que limita um avanço agressivo nos próximos leilões.

Entre os leilões programados pelo Ministério da Infraestrutura estão projetos de grande porte, como a administração da BR-381/262, entre Minas e Espírito Santo, conhecida como “Rodovia da Morte”, que vai cobrar um investimento de mais de R$ 7 bilhões. No Paraná, a concessão de seis lotes de rodovias é outro empreendimento que chama atenção no setor, com exigência de desembolso na casa de R$ 44 bilhões.

“O risco que corre é ter pouca concorrência. Não acho que exista risco de leilões darem deserto, mas o que vai acontecer é menos concorrência do que deveria”, avaliou o sócio-diretor da UNA Partners, Daniel Keller, que lembra ainda dos projetos de concessão de rodovias estaduais previstos para ir a leilão neste ano.

O desafio é reconhecido também dentro do governo, que trabalha para atrair novas companhias e fundos de investimento estrangeiros a partir da mitigação de riscos nos projetos e financiamentos mais modernos. “Não vamos ver todo mundo entrando em todos os leilões", afirmou a secretária de Planejamento, Desenvolvimento e Parcerias do Ministério da Infraestrutura, Natália Marcassa.

A pasta pôde entender melhor as demandas e temores de investidores estrangeiros durante dois roadshows realizados no fim do ano passado, que cobriram Estados Unidos, países da Europa e Oriente Médio. Segundo Marcassa, grande parte das inovações pontuadas já foram implantadas pelo governo. Para reduzir a alta no preço dos insumos, por exemplo, o ministério estabeleceu uma cesta de índice de reajuste de contrato que reflete mais a inflação do setor, conforme antecipou o Estadão/Broadcast.

Outro ponto bastante relevante, de acordo com a secretária, é o financiamento dos projetos. Segundo ela, o diálogo com os bancos tem avançado para que as instituições ofereçam mais empréstimos nos quais as garantias estão no próprio projeto financiado, e não no balanço da empresa. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quer consolidar esse tipo de financiamento em 2022.

Sem foco na arrecadação

O que permite que o governo avance com confiança no cronograma é a escolha por um programa de concessões não arrecadatório, avaliou Marcassa. Quando há forte disputa por um ativo, os leilões revertem em mais recursos para o caixa da União por meio de outorgas altas, usadas para definir o resultado do certame. Apesar de ser um efeito positivo, não é o que a pasta persegue com esses leilões.

“Nosso objetivo é adicionar investimento, não arrecadar. Acreditamos que, por mais que não venhamos a ter grandes concorrências, estamos cumprindo nosso objetivo de aumentar investimento e qualidade de serviço”, disse a secretária. Pelas rodovias do Paraná, por exemplo, Marcassa acredita na entrada de algum grupo estrangeiro na disputa, já que a demanda dos trechos é conhecida. “Para quem vai entrar pela primeira vez no Brasil, é um lote mais atrativo”.

O presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, também é otimista com os leilões de rodovias marcados para 2022. Para ele, é natural que os certames de grandes ativos, com alto valor de investimento, não contem com a participação de várias empresas, o que não impede, na avaliação de Tadini, que haja competição no leilão. "Se você tem duas grandes empresas participando de um leilão, basta. Porque ai será uma guerra de cachorro grande", afirmou.

Entenda o que está em jogo no leilão de rodovias:

  • 14 é o total de rodovias federais que o governo pretende privatizar ainda neste ano
  • R$ 80 bi é o valor que o governo espera que as empresas ganhadoras invistam nos projetos
  • R$ 44 bi é o valor de seis lotes de rodovias no Paraná 
  • R$ 7 bi é o valor que deve ser investido somente na BR-381/262, entre Minas e Espírito Santo

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