Paulo Whitaker/Reuters-9/9/2005
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BNDES troca dívida por ações e passa a deter 31% de participação no JBS

Com operação anunciada ontem, os R$ 3,48 bilhões que o banco detinha em debêntures se transformam em ações e sua participação no grupo cresce; ao mesmo tempo, a família Batista, controladora do grupo, e os minoritários passam a ter fatia menor

Raquel Landim e Suzanha Inhesta, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2011 | 00h00

O JBS informou ontem aos investidores que vai realizar um aumento de capital de até R$ 3,479 bilhões para acomodar a conversão das debêntures que pertencem ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em ações. A operação começa a esclarecer as dúvidas que pairam sobre o envolvimento da empresa com o banco estatal.

Com o negócio, a participação da FB Participações, que pertence à família Batista, será diluída, mas a holding não perderá o controle da companhia. O porcentual da FB passará de 54,32% para 47%. A BNDESPar, braço de participação em empresas do BNDES, aumentará sua fatia de 17% para 31%. Os minoritários passam de 25,2% para 21,7%.

A conversão das debêntures do BNDES em ações será feita com o preço de R$ 7,04 por ação, que é o valor médio ponderado dos últimos cem pregões antes de 31 de dezembro de 2010. A previsão é concluir o processo até cinco de julho.

Essa operação é necessária por conta de um polêmico empréstimo de R$ 3,5 bilhões que o BNDES concedeu ao JBS para a compra da americana Pilgrim"s em setembro de 2009. Com a aquisição, o JBS se tornou o maior frigorífico do mundo. O empréstimo foi feito via compra de debêntures (dívida) conversíveis em ações.

O plano original previa que a JBS USA abrisse o capital no mercado americano no prazo de um ano, concedendo ao BNDES 20% a 25% dessa empresa. Se isso não ocorresse, o BNDES teria direito a converter os papéis em ações do JBS no Brasil.

Com o mercado americano retraído, a empresa não abriu capital nos EUA, pagou multa de R$ 521 milhões ao BNDES no final de 2010 e ganhou o direito de esperar mais um ano. Ontem, surpreendeu o mercado convertendo as debêntures antes do prazo.

As ações foram castigadas com uma queda de 5% ontem, para R$ 5,48. Foi uma das maiores perdas do Ibovespa. Os investidores tinham duas dúvidas: o tamanho da perda para os minoritários, que serão diluídos, e se isso significa um comprometimento menor do BNDES com o JBS.

Apesar de ter elevado sua participação imediata na empresa, o banco estatal agora está "líquido". Ao contrário das debêntures, que quase não têm mercado, o BNDES pode vender as ações. Os sinais, no entanto, são de que o banco não fará movimentos bruscos que prejudiquem o valor do seu investimento.

"Esse aumento de capital é importante. Tira as incertezas que o mercado tinha sobre uma possível abertura de capital da JBS USA e nos permite rebalancear e reestruturar nossa estrutura de capital", disse Wesley Batista, presidente da empresa, em teleconferência com analistas.

Riscos. Segundo fontes ouvidas pelo Estado, o BNDES mitigou seus riscos com a operação de ontem. O banco poderia perder dinheiro com uma abertura de capital mal sucedida do JBS nos EUA. Além disso, havia uma chance as ações subirem até o fim do ano (como indicam os relatórios dos bancos), o que significaria menos participação na empresa para o BNDES.

Pelo contrato, o BNDES poderia converter suas debêntures entre R$ 6,50 e R$ 12,50 por ação. O valor escolhido - R$ 7,04 - está mais próximo do limite inferior, embora acima dos R$ 5,48 do fechamento de ontem.

Para o JBS, o negócio faria sentido para promover um rebalanceamento da dívida e esclarecer as dúvidas do mercado. "As ações estavam sendo penalizadas por todas as incertezas que rondavam a empresa. Hoje, eliminamos dúvidas em relações às debêntures", disse Batista.

Sem o BNDES como potencial "sócio" da JBS USA, a empresa poderá transferir parte de suas dívidas no Brasil para a filial americana, gerando economias de impostos e despesas financeiras que não foram reveladas. A companhia já começou esse processo e pretende emitir US$ 2,2 bilhões em dívidas no exterior.

No final de 2010, o JBS anunciou que estava negociando com o BNDES uma segunda emissão de debêntures de R$ 4 bilhões por cinco anos - o que deixaria o banco estatal "preso" ao grupo nesse período. Essa alternativa foi abandonada. A justificativa do JBS é que geraria R$ 340 milhões em despesas financeiras.

PARA LEMBRAR

Banco foi crucial no avanço do JBS

O apoio financeiro do BNDES foi fundamental para que o JBS se tornasse o maior grupo do setor de carnes do mundo. Essa parceria começou em 2005, com um financiamento de US$ 80 milhões para a compra do frigorífico argentino Swift Armour. Em 2006, um aporte de R$ 1,46 bilhão viabilizou a compra da americana Swift &Co, à época a maior empresa de carne bovina dos EUA e da Austrália. Em 2007, o banco investiu R$ 2,5 bilhões no Bertin, que seria, em 2009, incorporado pelo JBS. Em 2009, o BNDES subscreveu a emissão de debêntures de R$ 3,48 bilhões, gerando os recursos necessários para que o JBS comprasse a americana Pilgrim"s Pride.

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