BNDES vê com ''ceticismo'' fusão entre varejistas

Banco estatal aponta desgaste demonstrado pela reação do sócio francês do Pão de Açúcar à proposta

Irany Tereza e Alexandre Rodrigues / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2011 | 00h00

A polêmica envolvendo os empresários Jean-Charles Naouri, do grupo francês Casino, e Abilio Diniz, da rede Pão de Açúcar, resultou num desgaste que leva a direção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a ver com mais ceticismo a possibilidade de um acordo em torno da proposta de fusão da varejista brasileira com o Carrefour no Brasil.

O Casino divide com Diniz o capital da controladora do Pão de Açúcar e tem o direito de assumir o controle da empresa em 2012. O entendimento entre os sócios é condição primordial para a participação do BNDES na operação, com aporte de até R$ 4,5 bilhões.

De acordo com uma fonte que acompanha o processo, a decisão do BNDES é esperar que, num prazo curto, haja uma solução entre as partes. O documento elaborado pelo BTG Pactual propondo a fusão tem validade de 60 dias a contar da apresentação da proposta, o que ocorreu em 26 de julho.

Como a apresentação feita por Naouri na segunda-feira ao presidente do banco, Luciano Coutinho, não trouxe qualquer novidade, nada mudou na disposição do banco de participar da operação. Mas ficou mais claro para o banco que o entendimento é difícil.

O executivo francês limitou-se a frisar que não é um especulador, mas investidor de longo prazo. E disse a Coutinho que pretende manter o compromisso de ter um brasileiro no cargo de CEO (principal executivo) do grupo Pão de Açúcar a partir do momento em que o Casino assumir o controle do grupo.

"Ele insistiu na listagem de seus direitos", disse a fonte, revelando que houve certa frustração em relação a propostas para o futuro da empresa, principalmente em relação à manutenção da política de apoio à cadeia de fornecedores nacionais por meio de linhas de produtos próprios do Pão de Açúcar, como a Qualitá.

"Para os fornecedores, para a indústria brasileira e para a economia, em última instância, é ruim a mudança de controle. Mas isso é uma disputa legal e o banco não tomará partido", diz a fonte. O principal temor do BNDES, neste caso, é que, sob o controle do Casino, o Grupo Pão de Açúcar se transforme pura e simplesmente num centro de custos e vendas do grupo francês, uma espécie de plataforma de importação. O Pão de Açúcar já vem aumentando a venda de produtos Casino.

Ouvinte. O fato é que, desde que ingressou nessa empreitada, o banco enxergou com ceticismo a possibilidade de concretizar a operação. Agora, essa alternativa parece ainda mais distante. Na conversa com Naouri, Coutinho limitou-se à condição de ouvinte.

Quando falou, repetiu apenas o mesmo teor dos comunicados que o banco já havia divulgado, condicionando a participação a um entendimento prévio entre os sócios. Havia muitas dúvidas técnicas, mas os representantes do banco preferiram não expô-las para não caracterizar participação do governo em uma disputa societária.

Talvez pelo mesmo motivo Naouri não tenha sido recebido por nenhum representante dos ministérios da Fazenda ou do Desenvolvimento em sua ida a Brasília. Como as recentes declarações de Guido Mantega (Fazenda) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento) deixaram claro, o assunto Pão de Açúcar/Casino está agora absolutamente restrito a Diniz e Naouri.

O BNDES já via o grupo francês com desconfiança, já que, prestes a assumir a maior varejista do País, Naouri nunca havia mandado emissários para uma aproximação com o governo para expor seus planos.

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