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Boa governança

Grandes mudanças nas instituições frequentemente resultam em autoritarismo

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 05h00

Este é um momento dramático, tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil. Ambos precisam de uma liderança eficaz. Ambos estão se debatendo com executivos inadequados e, portanto, deixando em evidência a incapacidade de reagir a um mundo em conflito constante.

O presidente Trump retirou suas tropas da fronteira turca, sinalizando a Erdogan uma oportunidade de ocupar a região militarmente e desalojar os curdos hostis. Agora, mediado pelos EUA, os curdos conseguiram uma trégua para que possam se retirar para uma nova área, alguns passando para o Iraque. Putin, da Rússia, emergiu como o verdadeiro vencedor, junto com Irã e Turquia.

Mas Trump assumiu todo o crédito pelo acordo, dizendo que é preciso deixá-los “lutar como dois filhos. Depois você os separa”. Os curdos se uniram à Síria, pondo fim ao apoio que davam aos EUA.

Os republicanos inicialmente foram contra, mas agora parecem apoiar Trump, como antes. Pelo menos, isso rapidamente desviou a atenção do esforço democrata para conseguir o impeachment de Trump e das audiências em andamento perante os comitês da Câmara. É aí que há um progresso real. Testemunhas do Departamento de Estado, algumas aposentadas recentemente, depuseram afirmando que a política externa se tornou um capricho do secretário de Estado e do presidente. Trump faz o que quer, com todos os outros marginalizados. E, frequentemente, na busca de lucro privado. Ele agendou a próxima reunião do G-7 em seu resort Doral em Miami, que precisa de receita e publicidade adicionais.

A questão da Ucrânia tornou-se central por duas razões. Primeiro, porque seu amigo e advogado pessoal, Rudy Giuliani, demonstrou ter uma rede regular de “amigos” – alguns agora impedidos de fugir – que apoiaram sua investigação. No decorrer desse esforço, ele atuou como um segundo secretário de Estado na busca de evidências sobre a Ucrânia – e não a Rússia – sendo o centro da tentativa de intervenção nas eleições de 2016. Ele também queria encontrar informações negativas sobre os Bidens.

Em segundo lugar, o telefonema de Trump ao novo presidente da Ucrânia, Zelensky, tornou-se a peça central da discussão sobre o impeachment. O acordo fechado nessa ocasião foi a liberação de recursos, votados anteriormente pelo Congresso, em troca de ajuda para tentar provar que a Rússia não interveio em 2016, mas a Ucrânia sim. Encontrou os e-mails de Hilary Clinton e seguiu as pistas dos Bidens.

O chefe interino de gabinete Mulvaney declarou que tudo isso era verdade – o que a Casa Branca continua negando. Depois que Mulvaney comentou publicamente que todas essas decisões são políticas, e essa não foi exceção, ele foi forçado a dizer mais tarde que “mais uma vez, os meios de comunicação decidiram interpretar mal seus comentários para promover uma caçada política e parcial contra o presidente Trump”. No fim do mesmo dia, o secretário de Energia, Rick Perry, renunciou, depois de também ter-se envolvido no esforço.

Enquanto a Câmara continua seus esforços, Trump não cede, desesperado para mudar a discussão para outros assuntos – como a economia – e marcar os democratas “como tentando derrubar os resultados de uma grande eleição – talvez, a maior eleição na história do país”. O público de Trump ficou encantado, vendo suas observações como um incentivo para apoiá-lo mais fortemente contra uma tomada socialista do poder.

O que tudo isso tem a ver com o Brasil? E com outras nações?

Torna evidente a necessidade de um centro coerente interno. O que conta é a capacidade de ser inclusivo e de promover uma transição progressiva para o bem-estar econômico. Grandes mudanças nas instituições e nas regras são um problema e frequentemente resultam em crescente autoritarismo. É necessário um compromisso com a globalização, econômica e politicamente. Existem possibilidades para todos se beneficiarem de uma estrutura em que as economias atrasadas possam se expandir mais rapidamente do que aquelas com renda mais alta. O comércio internacional expandido e o investimento estrangeiro levam a benefícios mútuos. Politicamente, isso se traduz em decisões aceitáveis entre grupos de países, em vez de estreitos interesses nacionalistas.

Torna clara a importância de amplos direitos humanos e a insistência no acesso de todos a uma educação melhor e mais igualitária, saúde, saneamento, habitação e outros serviços sociais. Somente dessa maneira, a pobreza pode ser enfrentada frontalmente.

Tudo isso resulta em boa governança e melhores oportunidades para todos. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE 

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