Boa largada ou queimada?

A ousadia do BC pode cumprir o propósito de começar a reanimar a economia?

Marco Antonio Rocha, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2017 | 05h00

Um grande número de comentários explicavam pela conjunção de três fatores, ao menos, a “surpresa” do 0,75% de corte na Selic, mais do que o 0,50% vaticinado por quase todo o mercado e uma espécie de presente de ano novo do Copom para as empresas, principalmente, já que na ponta do consumo as taxas de juros dos financiamentos raramente acompanham as quedas da Selic – embora sempre acompanhem bem de perto as altas da taxa básica.

O principal daqueles fatores parece ser mesmo a recessão, aliada ao desemprego, que dificulta a remarcação de preços de mercadorias e serviços e força, em parte, o recuo dos índices de inflação. Esse fator explica, em boa medida, o fechamento em 6,29% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2016, a menor taxa desde 2013 e menor do que os 6,34% previstos por muitos analistas ainda recentemente.

Quanto aos serviços, cujo papel na alta da inflação em períodos anteriores não foi nada desprezível, a queda foi de 8,19%, em 2015, para 6,47%, em 2016.

Finalmente, os alimentos, com alta de apenas 0,08% em dezembro, pouca pressão exerceram sobre o IPCA, o que pode ser o comportamento médio em futuro próximo, dadas as previsões de boas safras.

É possível que esses fatores tenham gerado entre os membros do Copom certo grau de ousadia comedida para atender um pouco à ansiedade do mercado por uma política mais agressiva de queda dos juros – decisão que também pode ter sido estimulada pelos indicadores sobre a marcha do PIB, mais frustrante do que se estimava há alguns meses e cuja curva se quer mais ancorada na direção dos 2% positivos no ano do que na do 1%.

O fato é que o mercado realmente festejou tanto a decisão do Copom quanto os indicadores da inflação, como prenúncios de um possível desengavetamento de projetos e de futura retomada de investimentos. Isso é imprescindível para que o horizonte da economia brasileira se torne menos desanimador do que tem sido – e todo mundo sabe que o desânimo derruba mais os negócios do que juros e taxa de câmbio.

Uma atitude realista sugere indagar se a ousadia comedida do Banco Central (BC) pode cumprir o propósito que lhe deu origem, ou seja, começar a reanimar a economia. Para isso, a meu ver, é preciso que ela seja confirmada, ou reafirmada, nas próximas reuniões do Copom. É necessário, pois, antes de mais nada, que os fatores que permitiram a ousadia do BC continuem presentes, ou, melhor ainda, se acentuem. Mais difícil do que reduzir a taxa Selic é manter a curva descendente, e mais difícil ainda, do ponto de vista político, é ter de elevá-la. O BC sabe disso, então podemos presumir que, além de olhar para os fatores que permitiram a significativa redução da Selic, os membros do Copom devem ter meditado sobre a sua sustentabilidade, pois nada poderia ser pior para a saúde das expectativas do que ter de aumentar a Selic na próxima reunião ou na pós próxima. No máximo, seria admissível, como atitude precavida, a manutenção da mesma Selic. Sua alta no curto prazo seria considerada a condenação da análise feita na última reunião e uma comprovação da precipitação com que os membros do Copom agiram nesta semana.

A recessão e o desemprego já esgotaram toda sua capacidade de refrear a marcha da inflação? Uma retomada dos investimentos a curto prazo, propiciada pela relativa queda dos juros, pode acarretar melhorias no poder aquisitivo que sancionem novas pressões inflacionárias? Os preços dos alimentos manterão comportamento favorável nas próximas semanas ou meses? Passados os dias ou semanas de gastos imperativos com taxas, impostos e despesas escolares, o consumidor terá fôlego para ir ao varejo com vontade? Das expectativas que essas perguntas suscitam dependerão o comportamento da inflação até, digamos, meados do ano e, portanto, a resposta à pergunta do título deste artigo: se o BC disparou ou queimou a largada da economia.

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