Fabio Motta/Estadão - 10/03/2010
Mudas de árvores usadas no reflorestamento.  Fabio Motta/Estadão - 10/03/2010

Boas práticas ambientais começam a se consolidar

Cultura ESG ganha força com investimento privado; País começa a entrar de vez em uma era de sustentabilidade

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

A questão não é mais se o Brasil e o mundo precisam ou não entrar em uma era de sustentabilidade. O debate agora é como fazer isso da melhor forma possível e sem perda de tempo.

A chamada cultura ESG, em que as empresas devem se responsabilizar pelos desdobramentos dos seus negócios no campo ambiental, social e da governança, cada vez mais se concretiza no dia a dia. O que significa a necessidade de que investimentos, principalmente via iniciativa privada, entrem também no jogo para que esses temas não fiquem em segundo plano.

 

As discussões realizadas durante a Conferência Brasil Verde, realizada pelo Estadão entre os dias 25 e 27 de agosto, apontaram tendências interessantes. Uma delas indica que os chamados planos ESG corporativos não podem ser apresentados com um simples passe de mágica, sob pena de naufragarem. A questão é que todos precisam se envolver e assimilar essa nova cultura para que ela realmente se consolide dentro do cotidiano das corporações.

A transformação, como pode ser visto acessando as outras matérias listadas no conteúdo completo, também implica em inovações tecnológicas que tenham como objetivo ajudar a diminuir o uso de recursos naturais. Mulheres que colocam suas concepções pessoais no universo dos negócios na busca de um mundo mais equilibrado também ajudam a refletir sobre o novo momento. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Sustentabilidade só é possível com investimento

Financiamento misto é uma das formas de viabilizar projetos sem depender somente dos governos, das empresas e da sociedade civil

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

  

Mesmo com a crescente conscientização sobre a necessidade de combater a escalada da crise ambiental, inúmeros projetos que poderiam contribuir com esse objetivo ainda esbarram na falta de recursos financeiros. O problema tem sido gradualmente amenizado pela ampliação das possibilidades de financiamento, a exemplo de fundos especiais, premiações e outros modelos de apoio à economia verde.

O chamado blended finance, o financiamento misto, é uma das formas de viabilizar projetos que seriam difíceis de serem colocados em pé se dependessem apenas do governo, da sociedade civil ou da iniciativa privada. A modalidade parte do princípio de que, quando a conta é dividida, os riscos também são diluídos – algo especialmente justo quando falamos de projetos que trarão benefícios para o conjunto da sociedade. 

Um exemplo dessa união de forças é o trabalho do Global Environment Facility (GEF), organização criada há 30 anos, às vésperas da Rio-92. Desde então, o GEF já viabilizou mais de 5 mil projetos e programas em todo mundo, totalizando US$ 21,5 bilhões em subsídios e outros US$ 117 bilhões em cofinanciamento. “O Brasil já recebeu US$ 700 milhões diretos e outros US$ 3 bilhões foram mobilizados a partir disso. É o segundo país mais beneficiado, atrás apenas da China”, descreveu o diretor de programas do GEF, Gustavo Fonseca, na palestra de abertura da Conferência Brasil Verde.

Adaptação climática

Fonseca lembrou que foi a estratégia de blended finance, praticada nos projetos do GEF, que viabilizou o desenvolvimento das novas fontes de energias renováveis, como a solar e a eólica

“Hoje esses mercados já estão maduros e não precisam mais de financiamento misto, mas contar com esse apoio no começo foi essencial”, descreveu o diretor do GEF. “Várias outras questões ligadas à sustentabilidade ainda precisam de impulso semelhante para se tornarem autossustentáveis.”

Entre as estratégias mais recentes apoiadas pelo GEF está o Fundo de Resiliência da Paisagem (LRF, na sigla em inglês), parceria com o World Wide Fund for Nature (WWF), uma das mais respeitadas organizações conservacionistas do mundo, e a Polo Sul, empresa social que foi pioneira em ações de descarbonização. Lançado em junho, o fundo nasceu com um portfólio de 20 pequenos e médios negócios voltados à agricultura e silvicultura sustentáveis na África Subsaariana, Sudeste Asiático e América Latina.

A Chanel, conhecida fabricante de perfumes, é a investidora-âncora do fundo, com o compromisso de aportar US$ 25 milhões nos projetos – demonstração do interesse das grandes corporações globais em participar diretamente da causa ambiental. “Nunca houve um momento mais crítico para o setor privado intensificar sua contribuição e ajudar a fechar a lacuna de investimento necessária para uma adaptação climática eficaz”, disse Andrea d’Avacko, diretor de sustentabilidade da marca, na solenidade de lançamento do fundo.

O fundo tem como meta viabilizar investimentos de pelo menos US$ 100 milhões, até 2025, com foco na chamada “adaptação climática” – ou seja, ajudar as populações mais vulneráveis do planeta a lidar com as mudanças que já estão interferindo em suas vidas. Mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam drasticamente reduzidas hoje, as consequências do passivo acumulado continuarão sendo sentidas nas próximas décadas, incluindo tragédias naturais mais frequentes e intensas. “A liderança do setor privado vai ser fundamental no processo de adaptação. Sem essa participação ativa, nossas perspectivas são muito negativas”, ressalta Fonseca.

Pacto Global 

Como indicou o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em agosto, a temperatura média do planeta aumentou 1,07 ºC em comparação a 1900 – e os últimos anos têm sido os mais quentes já registrados. Além das perdas humanas, as 30 mil ocorrências meteorológicas de alto impacto ocorridas na última década causaram um prejuízo estimado de US$ 168 bilhões. É consenso que enfrentar adequadamente a realidade das mudanças climáticas depende, em grande parte, da participação imediata da iniciativa privada.

“Os compromissos para 2050 são importantes, mas precisamos agir agora. Não adianta prometer zerar emissões lá na frente, mas não mostrar o plano para chegar lá, com marcos expressivos ao longo desse período”, ressalta Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global.

Foi no Pacto Global, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), que nasceram os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), metas ambientais e sociais para 2030 que se tornaram referência em todo o planeta. E foi também no Pacto Global que surgiu o conceito de ESG, a visão de sustentabilidade baseada no tripé Ambiental, Social e Governança, que vem ganhando muito espaço no Brasil nos últimos dois anos.

O crescimento da rede brasileira do Pacto Global é um indício forte do interesse da iniciativa privada local nos temas de sustentabilidade. Foi a rede que mais cresceu em 2020 – ganhou 520 novos integrantes desde o início da pandemia, chegando à marca de 1,3 mil membros. Com isso, tornou-se a terceira maior rede nacional, atrás apenas da França e da Espanha. Ao todo, a rede já tem 18 mil empresas signatárias no planeta. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cooperativas alavancam os negócios na floresta

Iniciativas com boa estrutura de produção recebem ajuda em divulgação da marca, venda e logística

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

A união de forças tem se mostrado um caminho promissor em diversas iniciativas brasileiras de organização e incentivo a negócios sustentáveis. Muitos empreendimentos que não teriam condições de crescer sozinhos encontram, nas associações, cooperativas e marketplaces, o apoio essencial para superar dificuldades típicas dos primeiros passos – desde a formalização do negócio até o acesso aos consumidores. 

Um exemplo é o trabalho realizado pelo Instituto Peabiru, sediado em Belém, que criou um projeto para apoiar a comercialização de produtos tradicionais do Pará. “São negócios que já estavam até bem estruturados em termos de produção, mas precisavam de apoio nas etapas posteriores, como embalagem, marketing, venda e logística”, descreve Hermógenes José de Oliveira, diretor executivo do Peabiru.

O Peabiru Produtos, marketplace lançado na internet, conquistou a parceria do Mercado Livre para viabilizar a distribuição para todo o Brasil. “Com isso, solucionamos de forma coletiva problemas que eram comuns a todos. E o consumidor de qualquer parte do País também sai ganhando com a possibilidade de ter acesso facilitado a esses produtos”, afirma Oliveira.

 

A Tucum Brasil, loja de artesanato que nasceu física no Rio de Janeiro e também se tornou virtual, representa o projeto de vida da fundadora, Amanda Santana: valorizar a tradição cultural indígena. “Quando pensei em abrir a loja, eu tinha consciência de que não bastaria comprar e vender. Seria preciso trabalhar na ponta, na estruturação da cadeia produtiva, para que o negócio realmente cumprisse o seu propósito”, ela lembra.

Hoje, a Tucum tem parcerias com 86 povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica – sem exigir exclusividade. “Ao contrário, a ideia é que essas artesãs e esses artesãos se estruturem para atingir outros públicos e não dependa apenas da nossa parceria”, diz a fundadora. Ela ressalta que ajudar a gerar renda para esses povos e comunidades significa contribuir para a manutenção de mais de 32 milhões de hectares conservados nesses biomas. “Somos um pequeno negócio, mas nosso impacto certamente é grande.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tecnologia e ecologia rimam e dão frutos

Startups criam formas de unir personagens da cadeia de produção e gerar ganho ambiental

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

Criado para mapear organizações que trabalham na reversão dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil, o movimento Onda Verde identificou mais de 700 startups que buscam inovar no combate dos problemas ambientais. 

“O que estamos vendo no País, cada vez mais, são empreendedores e investidores transformando o risco ambiental em oportunidades de negócios. É o alvorecer de uma nova economia”, diz Daniel Contrucci, um dos líderes do movimento e diretor da Climate Ventures, plataforma de inovação que tem como propósito acelerar a economia regenerativa e de baixo carbono.

Contrucci observa que essas startups enfrentam a escassez de opções de financiamento na fase pré-escala – ou seja, no período inicial, que costuma durar pelo menos dois anos, até que ela consiga transformar uma boa ideia em faturamento.

“Depois desse ponto, o negócio tende a ser absorvido pelo mercado, mas muitos ficam pelo caminho”, avalia. Para tentar melhorar as condições no ambiente de negócios, a Climate Ventures está lançando uma plataforma dedicada ao chamado “capital paciente”, modalidade em que os investidores não têm pressa para recuperar o capital ou sequer alimentam essa expectativa. Esse tipo de aporte permite aos empreendedores encontrar condições bem melhores de crédito do que as oferecidas pelos empréstimos bancários convencionais. 

Vantagens

As soluções trazidas pelas startups com causas ambientais chamam a atenção pela criatividade. Nem por isso deixam de oferecer serviços que contribuem efetivamente para a conservação do meio ambiente e, ao mesmo tempo, geram lucro. É o caso do LandApp, aplicativo que facilita o recolhimento de resíduos da construção civil. De um lado, há o cadastro de motoristas autônomos de caminhões basculantes; de outro, construtoras interessadas em utilizar o serviço. O aplicativo faz o “match” entre as duas partes, com vantagens para ambas.

Além da praticidade de usar um aplicativo, as construtoras têm acesso a preços abaixo da média do mercado e contam com a garantia de destino correto para os resíduos, decorrente do monitoramento realizado pelo aplicativo. “Clientes nos relataram que, antes, precisavam contratar motoboys para seguir os caminhões e conferir se o combinado estava sendo cumprido”, lembra o fundador, Matheus Protti, que se inspirou na profissão do avô, caminhoneiro, para desenvolver a ideia.

Para os 350 profissionais cadastrados na região de São Paulo, uma das vantagens é a racionalização das viagens – ao encerrar uma tarefa, o aplicativo indica um novo frete o mais próximo possível, seguindo a mesma lógica do Uber. Assim, com mais viagens e menos quilômetros percorridos ao longo do mês, a renda aumenta. “O aplicativo oferece [benefícios], como desconto em lojas de autopeças”, ressalta Protti.

Complementação

A LivUp é uma foodtech de alimentação saudável, que comercializa desde refeições prontas até frutas, legumes e verduras frescas – já são 2,5 mil entregas sendo feitas por dia. A parceria com 40 produtores orgânicos envolve garantia de compra, assessoria técnica de agrônomos e concessão de microcrédito para investimentos. “Essa relação direta, sem intermediários, permitiu a redução de custos que torna a parceria benéfica para todas as partes envolvidas”, conta Henrique Castellani, cofundador e COO (diretor de operações).

Uma das grandes preocupações da LivUp, desde o início, foi desenvolver embalagens ambientalmente adequadas. Ainda assim, a empresa não poderia assegurar que todas as embalagens que produz seriam efetivamente encaminhadas para a reciclagem, pois não há como controlar todo o processo.

 

A solução para esse problema veio da parceria com outra startup com pegada ambiental, a Eureciclo. Essa plataforma assegura o encaminhamento à reciclagem de uma certa quantidade de determinado material, conforme especificações definidas pelo cliente. O processo envolve apenas cooperativas certificadas e totalmente regularizadas, com a emissão de comprovante demonstrando a efetivação da operação. A Eureciclo nasceu da ideia de que é possível assegurar a reciclagem de embalagens produzidas com o mesmo material por outras empresas.

“O que a lei exige hoje, no Brasil, é que a empresa se responsabilize pela reciclagem de pelo menos 22% do que produz, mas muitas das nossas clientes já decidiram chegar a 100% e algumas a 200%, como no caso da LivUp”, diz Marcos Matos, diretor de Marketing e Vendas da Eureciclo. Cada uma dessas modalidades gera um selo de certificação. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Setor de cosméticos aposta no conceito da ‘beleza limpa’

Produtos que eliminam matéria-prima que pode ser prejudicial à saúde e ao ambiente ganham mais força

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

Dois exemplos do mercado de cosméticos que estiveram entre os cases destacados na Conferência Brasil Verde demonstram que os negócios sustentáveis podem ter características extremamente desejáveis no mundo dos negócios, como rápida expansão e perenidade.

Criada há apenas quatro anos, a Single Organic Beauty trabalha em torno do conceito de “beleza limpa” – ou seja, utiliza fórmulas que eliminam matérias-primas que podem ser prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. “É possível conciliar a sustentabilidade com as tendências de consumo, pois a natureza oferece alternativas incríveis”, diz a fundadora, Patrícia Lima. 

Em sintonia com os princípios da marca, a empresa vem apoiando o desenvolvimento da infraestrutura de saneamento e Tecnologia da Informação na comunidade Anajás, na Ilha do Marajó, Pará, de onde vem boa parte dos óleos essenciais utilizados em suas fórmulas. 

O perfil do negócio, visto como promissor por muitos investidores, passou a atrair uma série de parceiros em potencial. No final do ano passado, a Hypera Pharma, maior empresa farmacêutica do Brasil em receita líquida, anunciou a aquisição de participação majoritária na startup, que continuará tendo a fundadora à frente dos negócios, garantia de que a ideia não perderá sua identidade. “Ao contrário, o que tenho agora é condições de viabilizar meus sonhos”, diz a empreendedora.

A Weleda atua em linha semelhante de valorização de ingredientes naturais, só que já faz isso há exatos 100 anos – foi fundada em 1921, na Suíça, inspirada em princípios da antroposofia, filosofia baseada na ideia de que a natureza oferece tudo o que é necessário para uma vida equilibrada.

 

“Nossos produtos só utilizam matéria-prima proveniente da natureza, em processos que respeitam os ciclos naturais”, diz Maria Claudia Villaboim Pontes, CEO da Weleda no Brasil e diretora regional na América Latina.

Apesar de ter uma fazenda própria em São Roque (SP), a Weleda precisa de parcerias complementares, estabelecidas com produtores que recebem todo o apoio e orientação para que não precisem utilizar químicos. “Há produtos que demoram até três anos para ficar prontos”, conta a CEO. Para dar segurança aos parceiros, a empresa garante a remuneração mesmo que haja problemas no processo, como intempéries climáticas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bons negócios são sustentáveis

Setores da economia, da moda até a alimentação, criam processos ambientalmente corretos para obter impacto social

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

Vários setores de economia começam a acumular exemplos de projetos que buscam unir os negócios à preservação ambiental e impactos sociais positivos.

No segmento da moda, por exemplo, um dos resultados dessa cultura fomentada dentro das Lojas Renner, é o Selo Re, que destaca as peças que contemplam algum atributo de sustentabilidade. Na linha de calças jeans, 95% dos produtos já receberam o distintivo, por conta da redução do consumo de água no processo de fabricação ou por iniciativas de upcycling, reutilização de materiais – no caso, sobras de tecidos nos fornecedores da Renner ou roupas usadas trazidas às lojas pelos consumidores dentro do programa de logística reversa EcoEstilo. 

Segundo Eduardo Ferlauto, gerente-geral de sustentabilidade da Lojas Renner, uma das principais metas da empresa para este ano é chegar a 80% dos produtos com pelo menos um atributo de redução de impactos ambientais nos processos ou nas matérias-primas. Marca que hoje está em 56%.

“A sustentabilidade está presente em todos os nossos processos, como um valor integrado à estratégia do negócio”, afirma Ferlauto.

Rastreamento

A Minerva Foods, uma das líderes na América do Sul na produção e comercialização de carne in natura e exportação de gado vivo – além de atuar no processamento de carnes –, anunciou investimentos de R$ 1,5 bilhão até 2035 para alcançar a neutralidade de carbono, meta destrinchada em vários outros objetivos ao longo do caminho.

 

“São novos passos em um processo que vem amadurecendo dentro da empresa desde 2009, quando anunciamos nossa política sobre desmatamento”, afirma Taciano Custódio, diretor de sustentabilidade.

A empresa tem se empenhado em superar uma dificuldade de todo o setor da pecuária, que é o monitoramento dos fornecedores indiretos – aqueles que estão nas fases iniciais da cadeia, entregando os bezerros aos fornecedores diretos. Por se tratar de uma cadeia extremamente diluída e difícil de fiscalizar – são 5 milhões de propriedades produzindo gado no País –, é nesses pequenos produtores que estão os maiores riscos de ilegalidades ambientais.

Uma das soluções sob teste, neste caso, é o Visipec, um software que utiliza recursos de inteligência artificial e big data para mapear os riscos de que um animal tenha sido criado, em algum momento, por áreas desmatadas ilegalmente, embargadas por órgãos ambientais ou que empreguem trabalho análogo à escravidão.

O desafio do rastreamento dos fornecedores indiretos tem suscitado o surgimento de startups dedicadas a buscar soluções. É o caso da Ecotrace, fundada em 2018 com a missão de “digitalizar a rastreabilidade e tornar a informação acessível a toda a cadeia”, a partir da utilização da tecnologia de blockchain – também conhecida como “protocolo de confiança”.

“Toda a vida de um frango, desde o ovo até a gôndola do supermercado, já pode ser acompanhada sem dificuldade”, comenta Flávio Redi, fundador da Ecotrace. O caso da pecuária é mais complexo, pois o bezerro tem vários donos ao longo da vida, dentro da estrutura produtiva que se consolidou no País. 

Fazenda mais sustentável 

A Fazenda Recreio, em São Sebastião da Grama (SP), dedica-se ao cultivo de café desde 1890, há cinco gerações sob o comando da mesma família. A partir de 2009, após parceria com a Nespresso, os cuidados com a sustentabilidade se intensificaram.

Uma das ações foi o reflorestamento das nascentes. “A Recreio tornou-se um laboratório de iniciativas sustentáveis sempre com muita disposição dos proprietários para experimentar novidades”, diz Guilherme Amado, líder do programa de qualidade sustentável da Nespresso.

A empresa também avançou em outras parcerias, como a feita com a AgroBee e o seu “Uber das abelhas”. A startup oferece polinização assistida por meio de um aplicativo que facilita o encontro entre quem quer o serviço e produtores de abelhas que têm disponibilidade para oferecê-lo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Conceitos ESG não nascem da noite para o dia

Plano para tornar empresa mais sustentável precisa ter metas claras e passar a mensagem de que proposta não é oportunismo

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

Os conceitos de sustentabilidade e da sigla ESG – amparada nos pilares ambiental, social e de governança – ganham mais espaço dentro das corporações e no mercado financeiro e, com isso, muita gente tem a impressão de que o tema é novo e que há oportunismo no debate. No entanto, a percepção acaba sendo injusta com muitas empresas, que há tempos desenvolvem trabalhos sólidos de sustentabilidade e se adaptam em meio a um movimento que, às vezes, é classificado como modismo.

“Não existe mágica. A empresa não dorme fazendo tudo errado e acorda fazendo tudo certo. É preciso um plano sério e consistente para obter resultados a médio e longo prazos”, diz Ricardo Assumpção, CEO da consultoria Grape ESG. “Se a organização não estiver realmente convicta do que quer e precisa, acabará abandonando a estratégia ao longo de um caminho que não é fácil nem simples.”

Para Assumpção, o momento na jornada ESG é de separar o joio do trigo. Valorizar as empresas que realmente têm propostas consistentes e identificar aquelas que misturam sustentabilidade com marketing e, assim, estão praticando o chamado greenwashing – a adesão falsa ou imprecisa aos conceitos de sustentabilidade. E como essa credibilidade pode ser construída? Basicamente, com duas estratégias: seguir critérios científicos aceitos globalmente e submeter esses dados à auditoria de instituições externas respeitadas e reconhecidas.

Foi a demanda por ética nesse processo que fez surgir o movimento global Race to Zero, capitaneado pela Organização das Nações Unidas (ONU), uma grande coalizão para incentivar que a busca pela meta de emissão zero de carbono, tão divulgada nos últimos tempos, seja feita com indicadores transparentes. A mensagem é clara: não basta dizer que vai zerar a emissão de carbono em determinado ano. É preciso mostrar como isso será feito, detalhadamente, passo a passo, ao longo do período.

 

Critérios científicos

A experiência de quem atua na área de sustentabilidade no Brasil é a de que somente o discurso pode se desmanchar quando confrontado com exigências de exatidão e clareza.

O diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Carlo Pereira, lembra que, em junho de 2019, com o lançamento global da campanha Business Ambition for 1,5 ºC, associada à iniciativa Science Based Targets (Metas Baseadas em Ciência, em tradução livre), houve um grande esforço do Pacto Global para que o setor empresarial brasileiro aderisse ao movimento, mas só duas empresas se comprometeram inicialmente.

Hoje, são 23 empresas nacionais que assumiram o compromisso, além de dezenas de companhias internacionais com operação no Brasil. Dentre as brasileiras, quatro já tiveram sua meta aprovada pela iniciativa. “Vemos com bons olhos esse avanço, pois compromissos com o clima normalmente demandam investimentos, mudanças de processo ou novas tecnologias. Mas precisamos que a curva de adesão pelas empresas seja exponencial para atingirmos os resultados que queremos”, diz Pereira.

Ele menciona uma pesquisa do NewClimate Institute que concluiu que apenas 8% das empresas que anunciaram o objetivo Net Zero até 2050 apresentam metas internas consistentes – o Net Zero é um programa que visa desafiar e apoiar empresas integrantes do Pacto Global para que estabeleçam metas climáticas ambiciosas.

“Promessas de longo prazo só têm credibilidade quando associadas a planos de curto e médio prazos”, enfatiza o líder do Pacto Global no Brasil. “É por isso que recomendamos às empresas que submetam seus compromissos ao Science Based Targets, para garantirmos uma ação condizente com o nível de ambição e urgência que a ciência climática hoje nos impõe.”

Desenvolvida pelo próprio Pacto Global em parceria com três outras instituições, a iniciativa Science Based Targets defende a adoção de parâmetros estabelecidos pelas mais recentes pesquisas da ciência climática. A motivação é aumentar as chances de que o principal objetivo do Acordo de Paris, firmado em 2015, seja alcançado: limitar o aquecimento global neste século a muito abaixo dos 2 °C em comparação aos níveis pré-industriais, com o máximo de esforço para limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C.

Augusto Corrêa, secretário executivo da Parceiros pela Amazônia (PPA), lembra que as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa e desenvolvimento na área de sustentabilidade. “As conversas sobre ESG não costumam passar por esse tema tão fundamental. Muitas vezes o empresário diz que quer medir, ver os resultados, mas não concorda em colocar dinheiro no processo de desenvolver métricas.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Relatórios têm de traduzir resultados das iniciativas

Para ter credibilidade, empresas precisam contratar instituições reconhecidas para fazer auditorias independentes

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

 

Fora seguir os critérios científicos, outra providência importante para as empresas que querem ganhar credibilidade na área de sustentabilidade é contratar instituições reconhecidas para a realização de auditorias independentes.

O sócio de Governança Corporativa e ESG da KPMG, Sebastian Soares, observa que os relatórios de sustentabilidade publicados pelas empresas terão, cada vez mais, de traduzir em números – e em cifras – os efeitos e impactos das ações de ESG. “Esses relatórios ainda não são obrigatórios e nem precisam estar integrados aos resultados financeiros, mas isso está mudando rapidamente”, afirma.

Leonardo Dutra, líder de consultoria na área de mudanças climáticas e sustentabilidade da EY para o Brasil, lembra que os temas de sustentabilidade podem ser vistos por uma empresa tanto pelo prisma dos riscos quanto das oportunidades. “A visão que vai predominar depende, em grande parte, da consistência das ações para mitigar os riscos”, diz.

A EY mantém um hub de conteúdo com análises de como as empresas estão tratando o risco climático, incluindo uma edição recente da pesquisa Climate Risk Disclosure Barometer (barômetro de divulgação de risco climático, em tradução livre).

 

Para Luciane Moessa, sócia-fundadora da Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) – consultoria especializada em mediação de conflitos que envolvam questões de sustentabilidade –, a imagem atual do Brasil no mercado global está muito mais associada a riscos do que a oportunidades, por conta das ações do governo federal. Para ela, cabe à iniciativa privada um esforço para reverter o quadro e levar o País a exercer o protagonismo que pode ter na economia verde. “Enquanto isso, o País continuará perdendo negócios”, resume.

Outras instâncias de governo também podem se mobilizar para fazer um contrabalanço à má imagem deixada pelo governo federal. É o caso do recém-criado consórcio Brasil Verde, ação do Fórum de Governadores para que os Estados possam agir mais efetivamente nas causas ambientais. “Vamos buscar recursos para projetos nessa área. Certamente fica mais fácil conseguir financiamento para temas amplos, como biomas e energias renováveis, quando atuamos em conjunto”, diz o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, idealizador da iniciativa.

O consórcio já começou a ocupar um espaço de relacionamento internacional – esteve em contato, por exemplo, com John Kerry, ocupante de um novo cargo criado pelo governo dos Estados Unidos, de enviado Presidencial Especial para o Clima. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Carreira e vida devem ser uma coisa só

Profissionais de diferentes áreas levam para o trabalho visões de sustentabilidade

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

   

Em 2018, durante as celebrações do aniversário de 25 anos da Fama Investimentos, o fundador Fábio Alperowitch passou a refletir mais profundamente sobre o papel que poderia exercer no Brasil marcado pela eleição de Jair Bolsonaro e por tragédias ambientais como a de Brumadinho. Ele decidiu que se manifestaria com mais frequência nas redes sociais. “Eu me dei conta de que, hoje, todo mundo se posiciona. O silêncio também é um posicionamento e eu não queria me posicionar assim”, diz Alperowitch.

Foi assim que ele iniciou um trabalho de “evangelização” do mercado financeiro sobre pautas de direitos humanos e sustentabilidade. “Percebia que era um público que estava muito distante desses temas e queria promover essas discussões”, lembra o executivo, que concentra a atuação como influencer no Twitter e no LinkedIn.

À frente da Fama, ele tornou-se um defensor do chamado “investimento responsável”. Procura demonstrar aos investidores que empresas com cultura ESG pensam a longo prazo – o que, geralmente, é indicativo de boa gestão. E alerta que empresas com rentabilidade anormalmente elevada devem ser analisadas com cuidado, em vez de simplesmente enaltecidas, pois isso pode ser indício de algum tipo de desequilíbrio que levará a consequências negativas a longo prazo.

Déficit de natureza

Antes da pandemia, a atriz Laila Zaid havia desenvolvido um projeto de educação ambiental voltado a crianças de escolas públicas do Rio de Janeiro. “Eu notava uma ausência de afeto e empatia das crianças em relação à natureza. Queria contribuir para mudar isso.”

 

Quando chegou a covid-19, Laila mudou-se com a família e um grupo de amigos para a Serra Fluminense. “E aí ficou muito claro que, até certa idade, não existe melhor aprendizado do que o oferecido pela natureza. As crianças fazem cálculos incríveis ao pular de uma pedra para a outra e aprendem sobre o ciclo da vida ao ver os bichos nascerem e as folhas caírem”, descreve. Com essa experiência, a causa da educação ambiental ganhou ainda mais força dentro da atriz.

“O contato com a natureza é um direito da criança, mas infelizmente se tornou um privilégio. Isso provoca grande prejuízo no desenvolvimento da saúde, tanto física quanto emocional. Nossas crianças estão sofrendo de transtorno do déficit de natureza.”

Caminho de volta

A Guaraci Agropastoril, localizada em Itirapina (SP), lançou em junho o NoCarbon, primeiro leite carbono neutro do país. À frente do empreendimento está Luis Fernando Laranja, sócio-fundador de outras empresas batizadas com palavras em tupi-guarani: a Kaeté Investimentos e a Caaporã Agrosilvopastoril. Tudo em sintonia com sua trajetória de vida – ex-professor de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP), Laranja abandonou a carreira acadêmica para empreender na Amazônia.

Ficou seis anos envolvido em um negócio de processamento de castanha do Pará, projeto que o aproximou de comunidades indígenas. “Pude então perceber com muita clareza a dívida absolutamente impagável que temos com os povos originários. São mais de 500 anos de destruição do componente arbóreo e das comunidades originais do Brasil. O trabalho que faço hoje é uma contribuição para que isso finalmente comece a ser revertido.” 

Faculdade deve fomentar reflexões 

Para a professora Raquel Rogoschewski, coordenadora do Laboratório de Inovação Social (LIS) do Centro Universitário Facens, em Sorocaba (SP), o ambiente acadêmico, que tradicionalmente dá ênfase aos conhecimentos formais, precisa também impulsionar o desenvolvimento de qualidades comportamentais.

Formada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), ela trabalhou na área de investimento social privado e sustentabilidade – e se apaixonou. “Eu me sinto como uma embaixadora desses temas dentro da faculdade, não apenas perante os alunos, mas também com os colaboradores e professores.” 

Nova geração nasce sob o conceito de sustentabilidade 

Na adolescência, Cassia Moraes, hoje com 31 anos, começou a se interessar pela causa ambiental. Quando estudou Relações Internacionais, a questão climática foi o tema escolhido para o Trabalho de Conclusão de Curso.

Em 2018, justamente para facilitar o início da carreira de jovens interessados em sustentabilidade que ela criou o Youth ClimateLeaders, voltado ao público entre 18 e 30 anos. “Buscamos canalizar a energia de uma geração que já foi conscientizada sobre sustentabilidade.” Hoje já são 500 jovens integrados à rede, e a meta é ousada: chegar a um milhão até 2030. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mulheres se engajam pelo ambiente

Combater as dificuldades enfrentadas por elas deve ser uma das prioridades da pauta ESG; exemplos são cada vez mais comuns

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

  

“Não há como mudar a sociedade sem mudar a situação da mulher”, disse Ana Fortes, fundadora e líder da Rede Mulher Empreendedora, durante o painel de encerramento da Conferência Brasil Verde, realizada pelo Estadão entre 25 e 27 de agosto. A causa feminina envolve uma série de temas, desde a busca por equidade no mercado de trabalho até o combate à violência doméstica.

Ana criou a organização há 11 anos, a partir de um blog onde compartilhava os percalços como empreendedora. Hoje, mais de um milhão de mulheres fazem parte da rede, que já impactou diretamente mais de 6 milhões de mulheres com ações, eventos e programas criados com o propósito de ajudá-las a conquistar autonomia financeira.

A rede só conseguiu crescer e obter financiamentos para seus projetos depois de um período inicial em que tudo foi feito “na raça”. “Tivemos que apresentar resultados sólidos antes de atrair parcerias”, lembra. Um turning point foi a doação, em 2018, de US$ 1 milhão pela Fundação Google para financiar o projeto Ela Pode, que transmite habilidades socioeconômicas a mulheres – trabalho que, antes da pandemia, estava sendo realizado presencialmente em mais de 150 municípios. Um dos projetos realizados durante a crise da covid-19, apoiado pelos três maiores bancos do País, foi a produção de 11 milhões de máscaras, com a participação de 6,5 mil costureiras remuneradas.

Por mais que as mulheres enfrentem questões específicas nos diferentes países, alguns problemas se repetem em todo o mundo, como o medo da violência. Por conta disso, há ideias desenvolvidas em determinado país que certamente podem servir a outros países. Construir essas pontes é uma das formas de atuação da Fundação Womanity, baseada na Suíça, que criou um processo seletivo – o Womanity Award – para apoiar esse tipo de parceria. “Já existem muitos bons projetos pelo mundo. Nossa missão é identificar alguns deles para apoiá-los”, diz a diretora do Programa Womanity Award, a brasileira Laura Somoggi.

 

Criar grupos de apoio para as mulheres é uma das formas de atuação do Mulheres do Brasil, criado em 2013 por iniciativa de Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza. O principal objetivo é contribuir para o protagonismo feminino, empoderando mulheres para atuar na esfera privada e pública, inclusive na política. A instituição também trabalha para influenciar causas de interesse das mulheres.

O Mulheres do Brasil já chegou a 95 mil participantes, divididas em 160 núcleos regionais – 39 dos quais estão fora do País. “Tínhamos 36 mil mulheres participantes quando começou a pandemia. Em um ano e meio, chegamos a 95 mil. Essa procura intensa é uma evidência de que os problemas femininos se agravaram nesse período”, conta a CEO, Marisa Cesar. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.