Boeing e Airbus copiam Embraer para reduzir custos

Terceirização, por meio de parcerias de risco, está sendo adotada na Europa e nos EUA

Mariana Barbosa, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2008 | 00h00

Para driblar a forte competição do mercado e reduzir custos, Boeing e Airbus estão seguindo o caminho da Embraer e terceirizando parte significativa de sua produção dentro de um modelo de parceria de riscos. A fabricante nacional foi pioneira em utilizar a chamada gestão de parceria de riscos, na década de 90. Na época, a Embraer teve de reinventar a indústria aeronáutica para garantir a sobrevivência e tornar-se atraente para investidores interessados em sua privatização. Com um projeto - o jato regional EMB 145 -, mas sem capital para tirá-lo do papel, a Embraer decidiu compartilhar os custos e os riscos com fornecedores. Com isso, transformou-se numa "montadora"."O sistema de parcerias foi uma grande inovação", diz a pesquisadora Zil Miranda, autora de O Vôo da Embraer, a competitividade brasileira na indústria de alta tecnologia. "A capacidade de gerenciar uma cadeia complexa de fornecedores é hoje um dos maiores ativos da Embraer."O modelo de parcerias foi também crucial para o sucesso comercial da Embraer, já que as companhias aéreas preferiam adquirir um avião com, por exemplo, um trem de pouso de marca conhecida. "Existem países, regiões ou empresas que se especializaram em determinado tipo de atividade e adquiriram maior competitividade. Nesse caso, agregá-los ao nosso projeto aumenta a nossa competitividade também", diz o vice-presidente de Planejamento Estratégico e Desenvolvimento Tecnológico da Embraer, Satoshi Yokota.DESCONFIANÇA Hoje difundido em diversas indústrias, da automobilística à eletrônica, na época o conceito de "montadora" era visto com uma certa desconfiança, ainda mais em se tratando da indústria de aviação, tão intensiva em capital como em tecnologia. A trajetória da Embraer - uma empresa de um país em desenvolvimento que resolveu se aventurar numa indústria estratégica para as nações desenvolvidas e deu certo - começou então a ser estudada de perto pela européia Airbus e pela americana Boeing. Em busca de eficiência e economia de custos, as duas fabricantes partiram para um modelo agressivo de parcerias de risco na fabricação de seus mais novos modelos de avião. Mas o resultado, segundo alguns críticos, tem sido questionável. Não necessariamente pelo modelo de terceirização em si, tido como inevitável, mas pela forma como está sendo adotado. "No Boeing 787, a fabricante levou esse modelo de negócios para um novo patamar, com a terceirização de 90% da produção, sendo 70% do conteúdo produzido fora dos Estados Unidos", explica o professor da Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, David Pritchard. Na Embraer, 60% é produzido por terceiros.Inicialmente, diz Pritchard, o modelo gerou uma economia de US$ 8 bilhões para a Boeing. Entretanto, os atrasos no projeto, atribuídos a problemas enfrentados por fornecedores terceirizados, já teriam consumido algo como US$ 3 bilhões em multas pagos a clientes por causa do atraso. Diante de uma série de problemas, a Boeing começou a rever contratos e vai exigir que fornecedores construam fábricas ao lado da sua linha de montagem - como faz a Embraer em muitos casos -, em vez de ter de transportar partes gigantescas pelo mundo.A Airbus, que sofre ainda com a valorização do euro, está se desfazendo de subsidiárias espalhadas pela Europa e transferindo produção para países mais competitivos. Com isso, serão extintos 10 mil postos de trabalho. Atualmente, 76% da produção vem da Europa. A meta é que até 2013, 70% do jato A350, por exemplo, venha de fora do continente. Mas o plano de desnacionalização vem enfrentando resistências, sobretudo na Alemanha. "A vantagem é de curto prazo, com a redução de custos. Mas, no longo prazo, a Boeing está transferindo tecnologias cruciais para parceiros de risco e perdendo o controle do processo de design e de produção", afirma Pritchard. E, enquanto as gigantes do setor enfrentam dificuldades para se adaptar a um novo modelo de produção, a Embraer dá um passo além. "A Embraer está mudando o modelo de parcerias de risco e melhorando o controle e os custos dos programas", explica Pritchard. "O esforço da Embraer em tomar para si a produção da asa do jato 190/195, antes feita pela Kawasaki, é um exemplo."PARCERIAS DE RISCOBoeing: Com o programa do Boeing 787 Dreamliner, a fabricante americana terceirizou 90% da produção; 70% do conteúdo do avião está sendo produzido fora dos Estados Unidos. A redução de custos é estimada em US$ 8 bilhões Airbus: Atualmente, 76% da produção vem da própria Europa. A meta é que até 2013, 70% do jato A350, por exemplo, venha de fora do continente. Para isso, a fabricante está se desfazendo de subsidiárias espalhadas pelo continente europeu e transferindo produção para países mais competitivos. A previsão é de que 10 mil postos de trabalho serão extintos Embraer: Atualmente, 60% da produção da Embraer é terceirizada. A asa dos jatos 190/195, antes produzida de forma terceirizada pela empresa japonesa Kawasaki, hoje é feita pela própria fabricante brasileira

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