Boi Gordo: mais imóveis do que bois

O balanço patrimonial da empresa Fazendas Reunidas Boi Gordo - que comercializa Contratos de Investimento Coletivo (CIC) - revela que a maior parte dos recursos da empresa está alocada no setor imobiliário, e não na criação de bovinos, como era de se esperar.Segundo análise do professor de finanças da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração), Alberto Borges Matias, do total de R$ 622,25 milhões que fazem parte dos ativos da empresa, R$ 358,57 milhões estão alocados em imóveis, sendo R$ 146,28 milhões em imóveis destinados à venda e R$ 212,28 milhões em imobilizado (imóveis em caráter permanente). Em animais, a alocação é de R$ 209,30 milhões. A empresa ainda tem R$ 54,38 milhões em outros ativos.O problema de concentrar quase 58% dos ativos em imóveis é que isso cria um descasamento entre o ativo da Boi Gordo - composto principalmente por imóveis - e o passivo, que é formado por títulos que prometem a rentabilidade obtida na criação de bovino. Para se ter uma idéia do nível de compromisso, a Boi Gordo promete engorda mínima de 42% em 18 meses, sobre o total de arrobas adquiridas. Este tipo de descasamento é um risco para o investidor, explica o professor Alberto Matias."O valor do passivo da Boi Gordo em contratos de engorda, de R$ 561,91 milhões, está muito próximo ao valor alocado em imóveis e animais, de R$ 567,87 milhões, o que garante praticamente apenas o valor investido, sem contar o rendimento. Além disso, os imóveis têm menor facilidade de negociação e tendem a apresentar rendimento inferior ao do ganho com a criação dos bovinos", alerta Matias.Problemas financeirosPara o professor Alberto Matias, outro risco para o investidor da Boi Gordo, evidenciado pelo balanço contábil, é o prejuízo que a empresa vem contabilizando. O resultado trimestral revela que a receita da Boi Gordo no período foi de R$ 18,47 milhões. Descontando-se o custo dos animais, o lucro bruto operacional da empresa foi de R$ 234 mil.Para constatar o prejuízo da Boi Gordo, Matias descontou, do lucro bruto, R$ 2,37 milhões como despesas operacionais e R$ 20,91 milhões como resultado financeiro, ou seja, juros. O cálculo leva a um prejuízo de R$ 23,04 milhões no trimestre. "Essa não é uma situação confortável para a Boi Gordo, pois ela vai sendo descapitalizada, ou seja, é o dinheiro do investidor que é corroído", explica. Atuação da CVMApesar de ser uma situação pontual, já que o balanço refere-se a um trimestre, Alberto Matias alerta que a atuação de órgãos fiscalizadores, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), deveria ser mais intensa. "A empresa tem R$ 561,91 milhões captados junto a investidores e, por isso, deveria ter uma fiscalização mais ativa", avalia.Carlos Alberto Rebello, superintendente de registros da CVM, explica que o mercado de capitais não tem fiscalização da administração prudencial, ou seja, não há um controle de risco do sistema. "Pode haver empresas alavancadas. Não há um limite padrão", justifica. Ou seja: não cabe à CVM garantir o retorno do investimento nem a segurança da empresa. O investidor deve ser informar com analistas, ou nos meios de comunicação, ou avaliando diretamente o balanço da empresa, para decidir seu investimento. Da mesma forma, a CVM não garante que uma empresa com ações em bolsas não vá falir.Porém, Rebello cita algumas medidas que o investidor deve tomar para tentar diminuir esse risco: "O investidor deve ler o prospecto, avaliar o risco do investimento e da empresa e, por fim, ler as condições de contrato. Em caso de dúvidas, a CVM pode ser consultada, através do telefone 0800-241616, ou pelo site da autarquia". A consulta à CVM permite saber se o título emitido é legal, mas não garante a qualidade do investimento. Esta avaliação precisa ser feita pelo próprio investidor, ou por alguém de sua confiança.A empresa Fazendas Reunidas Boi Gordo foi consultada sobre sua decisão de investir em imóveis mais do que na criação de bovinos, e sobre os riscos desta operação, mas não se manifestou até as 17h30, fechamento desta matéria.Além desta questão do balanço, a empresa também está com problemas junto à CVM por ter vendido contratos sem registro formal. A Boi Gordo vai pedir este registro, mas a autorização pode demorar até quatro meses. A empresa ainda não esclareceu como fica a situação dos investidores que compraram os títulos sem registro, se vai devolver o dinheiro ou aguardar a emissão formal dos títulos para aplicar os recursos. Veja mais informações sobre o problema dos títulos sem registro da Fazendas Reunidas Boi Gordo nos links abaixo.Além disso, confira as características e riscos do investimento em engorda de animais na Cartilha de Investimentos.

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