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Boi - o custo dos equívocos

Como resultado da gestão equivocada, para não usar a palavra irresponsável, na implantação de um sistema de rastreabilidade individual de bovinos, exigência exagerada da União Europeia (UE), porém prometida pelo Brasil e, portanto, de cumprimento obrigatório, começamos a perder a exportação de carne bovina para aquele mercado em 2007.Era o principal mercado do Brasil, absorvendo, em 2006, exportações de US$ 1,16 bilhão, 37% do total embarcado em receita, ou 23% em volume, com 314,35 mil toneladas. Em 2008, o Brasil exportou para a União Europeia só US$ 270 milhões, uma retração certamente significativa.Não se perde o principal cliente impunemente. O custo desta enorme perda começa a chegar. O fechamento de unidades industriais de abate de bovinos e, agora, a inadimplência financeira das empresas causam grande preocupação a todos. A queda de preços dos bovinos volta a desestimular a produção.A UE era compradora de cortes bovinos de alto valor. Filé, contrafilé e alcatra eram vendidos a preço elevado, garantindo cotação média de US$ 3.690 a tonelada, 58% superior ao preço médio pago pela Rússia, segundo maior cliente, com US$ 2.335 por tonelada de cortes basicamente do dianteiro do boi, menos valorizados.A receita vinda da UE, que comprava parte pequena da carcaça bovina, porém, muito valorizada, era essencial na formação de valor de toda a cadeia produtiva. O volume de 23% embarcado em 2006 para a UE é de grande significado, mas, quando se sabe que essa quantidade era obtida de parte pequena da carcaça, a importância daquele mercado precisa ser destacada.A perda do mercado europeu não teve efeito imediato no produtor, pois ocorreu em momento de pouca oferta de animais, resultado de anos de preços baixos para o pecuarista. A pecuária de corte é uma atividade de ciclo longo e os ajustes na produção demoram para repercutir nos mercados.Os cortes valorizados, que não foram exportados, encontraram, em 2008, o consumidor interno com boa renda e ávido para aproveitar ofertas no varejo. O pecuarista viu os preços se sustentarem. A queda na receita total certamente afetou o resultado dos frigoríficos.O incidente, em 2007, encontrou a indústria frigorífica em euforia. Anos de crescimento nas exportações tinham ocorrido, pois saímos de exportações de US$ 776 milhões, em 2002, para US$ 4 bilhões, em 2008. O período de crescimento das exportações encontrou grande oferta de bovinos, resultado de significativos aumentos de produtividade zootécnica em anos passados. O aumento da oferta reduziu os preços recebidos pelos pecuaristas.Paralelamente, vivíamos o boom global, em que a excessiva liquidez de mercados financeiros internacionais priorizava ações de captação de recursos e abertura de capital. A prioridade da indústria frigorífica era crescer e se consolidar. A preocupação com os mercados, interno e externo, e com a estabilidade de suprimentos de bovinos inexistia.O Ministério da Agricultura reagiu lentamente ao descredenciamento europeu, que levou à perda de mercado e de credibilidade. O sistema de rastreabilidade foi sendo reconstruído, atendendo exigências agora ainda maiores da UE. A auditoria, ocorrida no fim de 2008, teria encontrado poucos problemas.As exportações para a UE continuam, mas em volumes menores por falta de animais que atendam às exigências da rastreabilidade. Exportamos hoje o mesmo que há 10 anos. O sistema de rastreabilidade atual parece ter conquistado certa credibilidade externa. Porém, o rebanho credenciado a ter sua carne exportada é ainda muito pequeno, por causa da dificuldade de inserção de bovinos no sistema. Os procedimentos introduzidos pelo Ministério da Agricultura criaram uma brutal lentidão burocrática que dissemina somente descrença e desânimo entre os pecuaristas.A crise global chegou com os efeitos de redução de liquidez financeira e ajustes nos mercados consumidores. Certamente é preciso reforçar linhas de crédito e maior apoio do governo.Não podemos, porém, continuar ignorando que a perda do nosso maior cliente, a União Europeia, tem efeitos igualmente importantes e que o sistema de rastreabilidade individual de bovinos pode, hoje, não ser a vergonha que era em 2007, porém, não tem a eficiência que atenda às necessidades do mercado, situação inaceitável neste momento de crise. *Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), foi secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de 2001 a 2002

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