Boicote à LAN partiu da Aerolíneas

Chilena pode ter de sair de terminal de Buenos Aires; em crise, estatal pediu ajuda ao governo para melhorar resultados

MARINA GUIMARÃES , CORRESPONDENTE/ BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h15

O presidente da Aerolíneas Argentinas, Mariano Recalde, reconheceu em público que pediu à presidente Cristina Kirchner para suprimir itinerários da LAN a fim de beneficiar as operações da estatal. Um vídeo divulgado ontem pela imprensa argentina - gravado no dia 5 de abril de 2010 - mostra Recalde em um discurso com militantes do grupo kirchnerista Oesterheld no qual ele atribui adjetivos ofensivos a políticos da oposição e relata os pedidos feitos à presidente para melhorar as margens de lucro da empresa.

Recalde disse que a presidente não considerou adequado tirar voos da LAN. "Pareceu-lhe muito", disse ele. O vídeo veio à tona às vésperas do fim do prazo imposto pelo governo à LAN para desocupar seu hangar no aeroporto metropolitano Jorge Newberry (conhecido como Aeroparque). No dia 19, o Organismo Regulador do Sistema Nacional de Aeroportos (Orsna) entregou à LAN uma notificação para deixar o hangar em dez dias úteis. O contrato de uso expiraria apenas em 2023.

Sem o hangar, a empresa alega que não poderá mais operar voos domésticos. A LAN possui 14 voos no país e, desde dezembro, vem sofrendo uma série de boicotes de organismos estatais. No vídeo, Recalde disse que a Aerolíneas Argentinas tem dificuldade em enfrentar a concorrência da LAN e de empresas brasileiras.

O executivo também criticou o governo chileno de Sebastián Piñera. "Levaram a direita à presidência do Chile. Estamos competindo com a direita pinochista (referência ao ex-ditador Pinochet) instalada na Argentina; com empresas brasileiras; com interesses nacionais que querem mudar o modelo do país". Ele mencionou ainda a compra dos 20 aviões Embraer para renovar a frota, com "financiamento do Brasil a taxa de juros de 7,3% anuais em 15 anos, um empréstimo esplêndido".

Recalde aproveitou para criticar o "poder da mídia que transformou o contrato em escândalo envolvendo Ricardo Jaime", ex-secretário de Transportes, que responde processo judicial por suspeitas de enriquecimento ilícito. O contrato entre a Argentina e a Embraer, com financiamento do BNDES, ficou sob a lupa da justiça local por suposto superfaturamento.

O presidente do Orsna, Gustavo Lipovich, afirmou que, se a LAN não desocupar o hangar até amanhã, o organismo vai recorrer à Justiça para obter uma ordem de despejo. Na segunda-feira, a LAN apresentou uma medida de amparo legal para tentar reverter a decisão oficial. Lipovich argumentou que há uma cláusula no contrato entre a LAN e a Aeropuertos Argentina 2000, operadora dos aeroportos no país, que prevê o despejo em caso de necessidade do Estado. Em entrevista a uma rádio portenha, ele argumentou que a retomada do hangar "não é para prejudicar a LAN, mas para dar continuidade a obras projetadas". Os sindicatos aeronáuticos marcaram greve de todas as companhias para amanhã para defender os 1,5 mil postos de trabalho que seriam fechados pela LAN. Em Montevidéu, Cristina Kirchner referiu-se indiretamente ao conflito. "As empresas privadas viajam somente para os destinos rentáveis, mas quando a gente forma parte de um país tem que conectar todos os argentinos". A presidente disse que a Aerolíneas representa 80% dos voos domésticos e "recuperou a conexão com todo o país".

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