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Bolha de crédito. Será?

O aumento das concessões líquidas de 2016 a 2019, por si só, não é prenúncio de crise de inadimplência

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 04h00

O expressivo crescimento recente das concessões de crédito para famílias e empresas tem levado muitos economistas a alertar para o risco de se estar formando uma bolha de crédito, principalmente no segmento de pessoas físicas, dado que o endividamento está crescendo antes de recuperação mais firme do emprego. Não concordo com essas preocupações, pelo menos por ora.

Em primeiro lugar, é preciso entender a dinâmica da atual situação cíclica da economia brasileira. A grande recessão do período 2015-2017 foi um caso clássico de escassez de demanda agregada, provocada pelo fim do ciclo de boom das commodities, por choques externos (por exemplo, recessão na Argentina) e pelos inacreditáveis erros de condução da política econômica nos governos Lula/Dilma.

A recuperação iniciada em 2017 tem sido lenta porque a demanda agregada não consegue absorver o potencial de produção da economia, o chamado PIB potencial. Nas minhas estimativas, coerentes com as elaboradas por outras instituições de sólida reputação, a economia brasileira ainda trabalha 5% abaixo do seu nível potencial. Em linguagem técnica, o hiato do produto é negativo em aproximadamente 5%.

Como se rompe o ciclo de baixa demanda, fraco crescimento e pífia geração de emprego? Só há duas alternativas: expansão fiscal e política monetária estimulativa. O crescimento do crédito é consequência direta do afrouxamento monetário. Dado o alto nível de endividamento público brasileiro e o receio de não sustentabilidade da dívida, o primeiro caminho não pode ser utilizado. Pelo contrário, a consolidação fiscal, embora retire demanda no curto prazo, pode se tornar expansionista a médio prazo, pela redução das incertezas e impactos positivos sobre as expectativas. Assim, só restou a opção monetária.

Dado o comportamento benigno da inflação, o Banco Central (BC) corretamente utilizou com força o estímulo monetário, não só pela expressiva queda da taxa básica de juro, como também por medidas microeconômicas para baratear e expandir o crédito privado. É assim que funciona. O crescimento do crédito e a queda do custo para o tomador precedem a retomada do emprego e o aumento da renda das famílias, não o contrário, como acreditam alguns colegas economistas.

Por vezes, são citadas as expressivas taxas de crescimento das concessões líquidas de crédito (total concedido menos dívidas pagas), no segmento livre, como prova do risco de se estar criando a tal bolha. Não faz sentido, pois se deixa de levar em conta a base de comparação.

Segundo dados divulgados pelo BC, as concessões líquidas de crédito para famílias e empresas saltaram do valor negativo de R$ 176 bilhões, em 2016, para R$ 268 bilhões positivos, nos primeiros 11 meses de 2019. Sim, é um crescimento significativo, mas isso, por si só, não é prenúncio de crise de inadimplência.

Primeiro, porque o custo do crédito novo vem caindo expressivamente. Segundo, porque não se trata de incentivos para setores escolhidos, como ocorreu na tal nova matriz macroeconômica, que gerou excesso de capacidade instalada em vários segmentos, como o automotivo, por exemplo. Terceiro, porque os indicadores de endividamento estão em níveis confortáveis.

O principal deles é o desvio dos saldos de crédito total, para famílias e empresas, incluído o mercado de capitais, em relação à sua tendência de longo prazo (hiato do crédito). Esse hiato, atualmente, é de -3,9% do PIB, indicando nível ainda baixo de crédito. A literatura internacional sugere que é motivo de preocupação apenas quando tal indicador alcança valor positivo de 2% do PIB. Uma medida mais simples, que corrobora esse diagnóstico, é o comprometimento da renda mensal das famílias com o pagamento de dívidas, que se encontra em 20,8%, bem aquém do pico histórico de 23%, observado em 2011.

Em resumo: não há qualquer indício de bolha de crédito.

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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