Bolívia não tem gás para suprir demanda interna

País reduziu volume enviado à Argentina para não deixar de cumprir contrato com Brasil.

Marcia Carmo, BBC

07 de novembro de 2007 | 07h25

A Bolívia não tem hoje produção de gás suficiente para suprir seu mercado interno e reduziu o envio do produto à Argentina para não deixar de cumprir o atual contrato com o Brasil, disseram assessores do governo do presidente Evo Morales, especialistas da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos e o ex-ministro e consultor de energia Maurício Medina Celi."O cobertor de gás boliviano está curto para os três países", disse Medina Celi à BBC Brasil, por telefone, a partir de La Paz. "Para atender a esta demanda externa e não deixar faltar gás aqui na Bolívia, o país deveria aumentar sua produção, em dois ou três anos, em 20 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Mas hoje não existe perspectiva e nem clima de investimentos para alcançar esta meta", afirmou. No ano passado, segundo dados oficiais preliminares citados por Medina Celi, a Bolívia produziu 36 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Desse total, 25,9% foram - e são - destinados ao mercado brasileiro, 5,6% à Argentina e 4,6% ao mercado boliviano. Como disse um negociador do governo brasileiro, a Bolívia "está fazendo ginástica" para não deixar faltar gás ao Brasil. "Ou pagará multa em dinheiro correspondente ao volume do gás não fornecido", afirmou. Como o contrato com a Argentina é mais "flexível", não vem sendo respeitado, segundo fontes do governo boliviano, da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos e Medina Celi. Argentina e Bolívia assinaram no ano passado um novo contrato que estipulava o envio de cerca de 7 milhões de metros cúbicos de gás por dia neste ano, até chegar a 27 milhões de metros cúbicos de gás por dia num período de três ou quatro anos. Em maio deste ano, por exemplo, a Argentina recebeu 6,88 milhões de metros cúbicos de gás boliviano por dia. Três meses depois, em agosto, esse volume caiu quase à metade, chegando a 4,82 milhões de metros cúbicos diários. A queda nos investimentos registrada nos últimos anos estancou a exploração de gás, num momento em que um número cada vez maior de bolivianos (cerca de 35% ao ano) também está convertendo seus carros ao combustível a gás. De acordo com a Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos, com sede em Santa Cruz de la Sierra, o governo Morales tem dado prioridade a abastecer o setor industrial, num ano de expansão econômica. Mas muitas indústrias, conforme Medina Celi, já estão buscando fontes alternativas de energia, temendo maior escassez de gás. Em 2004, segundo dados oficiais preliminares citados pelo consultor, a Bolívia registrou US$ 442 milhões de investimentos na exploração de gás. Em 2005, o volume foi de cerca de US$ 200 milhões - semelhante ao registrado no ano passado. "A estimativa é de que este ano os investimentos não passem de US$ 100 milhões, e num momento em que a demanda não pára de crescer", afirmou Medina Celi."O problema é que depois da nacionalização do setor, no ano passado, as 12 empresas petroleiras instaladas na Bolívia limitam-se a produzir e a entregar essa produção à estatal YPFB. Não há ambiente para novos investimentos", disse um assessor da Câmara de Hidrocarbonetos, que reúne as petroleiras instaladas no país. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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