ANDRE DUSEK/ESTADÃO
ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Bolivianos cobram da Petrobrás posição sobre compra de gás

Segundo fontes, há sinais nos bastidores que, com o fim do atual contrato em 2019, a Petrobras pretende reduzir suas compras de gás boliviano pela metade

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 19h11

BRASÍLIA - A indefinição da Petrobras sobre a compra do gás foi um dos temas da reunião desta terça-feira, 5, do presidente Michel Temer com o presidente da Bolívia, Evo Morales. Durante a conversa, o ministro boliviano de Hidrocarbonetos, Luis Alberto Sánchez, deixou claro que gostaria de maior previsibilidade de consumo por parte da estatal brasileira, segundo fontes presentes ao encontro.

O Brasil é o principal consumidor do gás boliviano e a Petrobras é hoje sua única compradora no País. O atual contrato de fornecimento acaba em 2019. Embora seja um contrato entre a estatal brasileira e a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), esse é o principal item de relacionamento econômico entre os dois países atualmente.

Segundo fontes, há sinais nos bastidores que, com o fim do atual contrato, a Petrobras pretende reduzir suas compras de gás pela metade. Os bolivianos esperam informações mais firmes sobre isso para decidir se abrem a venda de gás para outros compradores no Brasil.

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Mato Grosso do Sul é um dos interessados, segundo informou ao Estado o governador, Reinaldo Azambuja. "Temos um duto em Corumbá que só precisa ser conectado ao sistema boliviano", disse.

O governo estadual quer comprar gás direto da Bolívia para, entre outras coisas, viabilizar a implantação de uma usina termoelétrica na fronteira, um investimento privado de R$ 1,5 bilhão. "Queremos ser um corredor do gás", afirmou o governador. Ele mencionou que outras empresas poderiam comprar diretamente da empresa estadual, a MSGÁS.

Com isso, provavelmente, conseguiriam um preço melhor do que o cobrado pela Petrobras, por causa do custo de transporte, que é igual para todos os consumidores, independentemente de onde eles estejam. Azambuja quer vender diretamente e oferecer como vantagens a proximidade em relação ao fornecedor e a existência de um sistema de dutos próprio.

A compra direta de gás interessa também ao Mato Grosso, informou Azambuja. Numa reunião entre Evo Morales e quatro governadores de Estado, ocorrida antes da reunião com Temer, ficou acertada uma reunião em Cuiabá, no próximo dia 20, para tratar do assunto.

O Estado questionou a Petrobras e aguarda resposta.

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Mudança. Evo veio ao Brasil um ano e quatro meses após protestar, nas redes sociais, contra o "golpe parlamentar" que afastou a presidente Dilma Rousseff. Hoje, questionado pelo Estado se ainda pensava assim, ele não respondeu. Mas, no discurso que fez durante almoço no Palácio do Itamaraty, o boliviano chamou Temer de "irmão presidente". Para a diplomacia brasileira, a visita é a manifestação mais forte da normalização das relações entre os dois países.

No mesmo discurso, Evo disse que seu país precisa do Brasil para entrar na era da industrialização. Uma aposta nessa direção é a concretização de um projeto chamado Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração, que foi objeto de um memorando de entendimentos assinado hoje.

A ideia é interligar a malha ferroviária que hoje vai até Corumbá (MS), atualmente sob concessão da Rumo, com linhas do lado boliviano até o porto de Ilo, no Peru e Antofagasta, no Chile. Do outro lado da fronteira, a ferrovia está em construção. Deste lado, é questão de melhorar as condições das linhas já existentes. Concretizada, essa ferrovia dará à Bolívia acesso ao porto de Santos, do lado do Atlântico, e aos portos no Pacífico.

"Será um projeto importante no médio prazo", disse Azambuja. Ele vislumbra na ferrovia a oportunidade de escoar a produção de grãos de seu Estado pelos portos do Pacífico, encurtando o tempo de trânsito até a Ásia, que hoje é destino de mais de 50% de suas exportações. 

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