Renato S.Cerqueira/Futura Press
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Bolsa atinge nível recorde com avanço da reforma da Previdência

Aprovação do texto-base da reforma na Comissão Especial da Câmara levou o Ibovespa a fechar aos 103,6 mil pontos e o dólar a terminar abaixo de R$ 3,80 pela primeira vez desde março

Antonio Perez e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 11h03
Atualizado 04 de julho de 2019 | 18h30

O Ibovespa atingiu novo pico histórico nesta quinta-feira, 4, com investidores celebrando o avanço da reforma da Previdência no Congresso. Em sintonia com o tom positivo dos demais ativos domésticos, o Ibovespa começou sua escalada ainda pela manhã e se firmou na casa dos 103 mil pontos com o início dos trabalhos da Comissão Especial da Câmara.

Pela tarde, minutos antes da aprovação do relatório do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), o índice tocou momentaneamente os 104 mil pontos, para depois experimentar um arrefecimento moderado e fechar em alta de 1,56%, no nível recorde de 103.636,17 mil pontos.

A aprovação do texto-base da reforma levou o dólar a fechar abaixo de R$ 3,80 pela primeira vez desde 20 de março, quando terminou cotado em R$ 3,76. Com o feriado nos Estados Unidos, por causa do Dia da Independência, o volume de negócios no mercado de câmbio foi menor e os investidores passaram o dia antenados com os eventos em Brasília. No final do dia, o dólar à vista terminou em baixa de 0,70%, a R$ 3,7994.

Bolsa

Depois de avançar 4,06% no mês passado, o principal índice da B3 já acumula valorização de 2,64% nos quatro primeiros pregões de julho. Das 66 ações que compõem o índice, apenas três encerraram o pregão em queda. A liquidez foi de R$ 13,51 bilhões, com volume negociado próximo da média, apesar de as bolsas americanas estarem fechadas por conta do feriado do Dia da Independência nos Estados Unidos. Isso sugere que a alta do mercado acionário doméstico é consistente e, mesmo em caso de vendas para realização de lucros no último dia, o índice deve se manter acima dos 100 mil pontos.

Há certo otimismo com a possibilidade de que seja possível aprovar a reforma da previdência no plenário da Câmara, mesmo que apenas em 1.º turno, antes do recesso parlamentar, em 18 de julho. Sinais de que esse prazo pode não ser cumprido e ameaça de diluição da proposta podem provocar solavancos mais fortes no mercado, dizem operadores.

Para Felipe Oliveira, analista de investimentos da Coinvalores, a tendência para o Ibovespa em julho permanece positiva. Apesar de o índice, nos níveis atuais, já refletir em parte a crença no avanço da reforma na Câmara antes do recesso, há espaço para uma nova rodada de valorização se houver nos próximos dias sinais claros de que a votação realmente ocorrerá em julho. "Ainda existe um nível de incerteza, mesmo que cada vez menor, e isso dá espaço para esperar alguma alta", diz Oliveira.

A aprovação do parecer de Moreira na Comissão foi por 36 votos a favor e 13 contrários, sem nenhuma abstenção. Os parlamentares apreciam destaques dos partidos, que pode mexer com o texto final. Com a versão aprovada pela comissão, a economia fiscal em dez anos será de R$ 1,071 trilhão. Em evento em São Paulo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, elogiou o Congresso e disse que a economia fiscal robusta abre espaço para retomada da ideia de lançamento do regime de capitalização. 

O analista-chefe da Necton Investimentos, Glauco Legat, diz ver a trajetória da bolsa no curto prazo com um "otimismo moderado", muito por conta do nível atual do Ibovespa. Ele salienta que o prazo para aprovação antes do recesso é apertado e pode haver muito ruído nas próximas semanas. "Pensando numa questão de 'timing', a grande questão é a votação na Câmara. Nossa cautela é uma questão de preço. Comprar o Ibovespa aos 103 mil pontos não é mesmo do que entrar aos 90 mil", diz Legat, ressaltando que, do lado corporativo, as empresas ainda não vão apresentar resultados exuberantes, dada a estagnação da economia.

Ao avanço da reforma da previdência no Congresso soma-se um quadro externo potencialmente positivo para ativos de risco. Além da trégua na guerra comercial entre China e Estados Unidos, há sinais de afrouxamento monetário por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Banco Central Europeu (BCE), o que pode carrear recursos para emergentes. 

Por aqui, também há perspectiva de que corte da Selic ainda em julho, caso a proposta da reforma da previdência seja aprovada antes do recesso parlamentar. E isso também contribui para elevar o interesse pela renda variável, diz Oliveira, da Coinvalores. "Se houver redução da Selic, a bolsa tende a continuar respondendo positivamente", afirma.

Dólar

O real foi uma das moedas que mais ganhou força perante o dólar no mercado internacional, atrás apenas do peso argentino. Exportadores aproveitaram para vender a moeda americana e, na mínima, o dólar caiu a R$ 3,78.

Para o chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, após a aprovação desta quinta-feira, para o dólar cair ainda mais, será preciso o texto passar pelo plenário da Câmara. Mas já agora as cotações embutem uma perspectiva de melhora da economia com o avanço das medidas que alteram as aposentadorias no Brasil. 

Após um dia com foco no mercado doméstico, a sexta-feira terá a divulgação do relatório mensal de emprego dos Estados Unidos, o payroll, um dos indicadores mais aguardados pelo mercado, pois baliza as decisões de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Os números podem mexer no mercado internacional de câmbio. Os economistas do JPMorgan esperam criação de 140 mil postos de trabalho, com taxa de desemprego estável em 3,6%. 

Para o diretor de moedas em Nova York da BK Asset Management, Boris Schlossberg, um dos riscos é um movimento de fuga de ativos de emergentes, ou seja, enfraquecimento de suas moedas, caso o relatório venha fraco e aumente o temor de desaceleração da economia americana. Ao mesmo tempo, um relatório com número mais fraco deve reforçar a visão de ao menos dois cortes de juros pelo Fed este ano.

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