Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Bolsa brasileira perde investidor estrangeiro

Saldo de capital externo foi negativo em julho pela primeira vez no ano; para analistas, risco de perda do grau de investimento afasta investidores

Karin Sato, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2015 | 02h02

O saldo de recursos externos na bolsa de valores ficou negativo em R$ 567,9 milhões em julho. Esse é o primeiro mês do ano em que o investidor estrangeiro retira capital da BM&F Bovespa. Até então, os ingressos eram contínuos.

O resultado é reflexo da piora no ambiente interno, somada ao declínio dos preços das matérias-primas (commodities), dizem gestores de recursos. No cenário doméstico, o governo cortou a meta fiscal. Depois, a agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) revisou a perspectiva da nota BBB- do Brasil, de estável para negativa, o que pode levar à perda do grau de investimento. O quadro foi agravado pela queda, de cerca de 7%, do MSCI Emerging Markets, que mede o desempenho de mercados emergentes.

Aviso. James Gulbrandsen, sócio da NCH Capital, gestora especializada em mercados emergentes e com sede em Nova York, diz que a decisão da S&P afugentou investidores. "A S&P não rebaixou a nota do Brasil, mas deu um aviso de que poderia rebaixar. A primeira reação do temor de perda do grau de investimento se deu no câmbio. Normalmente, o estrangeiro não faz hedge (termo inglês para proteção) no mercado de câmbio. Quando o câmbio se desvaloriza muito rapidamente, a única maneira para reduzir a exposição à moeda é vender ações", diz o gestor, ao explicar o efeito em cascata do aumento da aversão ao risco.

O recuo do MSCI Emerging Markets, decorrente da queda dos preços das commodities e da instabilidade no mercado chinês, contribuiu para a retirada de recursos da bolsa, uma vez que existem inúmeros fundos atrelados a esse índice. "Quando esse índice de mercados emergentes tem forte queda, há uma venda natural de Brasil", diz Gulbrandsen.

Mas por si só a piora do desempenho dos mercados emergentes não explica a fuga de capital externo da bolsa - até porque, em dólar, a queda da bolsa brasileira foi superior, em torno de 13%. De acordo com relatório de ontem do Credit Suisse, trata-se do pior desempenho em moeda americana dentro do universo de emergentes.

Surpresa. Alexandre Póvoa, sócio da Canepa Asset, diz que os investidores não esperavam a mudança da perspectiva da S&P. "Esse evento gerou receio de que um rebaixamento ocorra já no segundo semestre, o que se somou ao recuo dos preços do petróleo e do minério de ferro em julho."

Em relatório, o time do Credit Suisse lembra que a chance de o Brasil perder o grau de investimento nos próximos 12 meses aumentou, assim como a chance de um fluxo de saída da bolsa, considerando que os investidores estrangeiros foram os grandes compradores de ações no último ano. No acumulado de 2015 até o fim de julho, ainda há um superávit de investimento estrangeiro de R$ 20,972 bilhões.

Para Póvoa, é difícil fazer previsões. "É preciso verificar como a alta dos juros nos Estados Unidos vai influenciar o mercado de commodities. As perspectivas locais não são boas e a taxa de juros elevada joga contra o fluxo para a bolsa."

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