Renato S. Cerqueira/Futura Press
Em cenário de incertezas, Bolsa de São Paulo tem recorde de investidores. Renato S. Cerqueira/Futura Press

Tesouro e Bolsa atingem 1 milhão de investidores

Cada uma das opções de investimento superou a marca pela 1ª vez em abril; total é apenas uma fração dos 117 milhões de clientes da poupança

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2019 | 12h22
Atualizado 10 de maio de 2019 | 12h55

Uma combinação de três fatores – a taxa de juros na mínima histórica, a expectativa com a reforma da Previdência e o esforço dos bancos e corretoras para atrair clientes para opções além da velha poupança – levou dois tipos de investimento a atingirem uma marca histórica: tanto a Bolsa quanto o Tesouro Direto alcançaram 1 milhão de poupadores.

Segundo dados da B3, a Bolsa paulista, enquanto o mercado de ações alcançou 1.046.244 de CPFs cadastrados em abril – 63 mil a mais do que em março –, os títulos públicos do governo federal atraíram 1.006.547 de aplicadores pessoa física, ante 949,8 mil no mês anterior.

Apesar de os dados de abril serem um marco para a Bolsa e o Tesouro, a chegada à marca de 1 milhão ainda equivale a uma fração da força da caderneta de poupança, que hoje reúne 117 milhões de clientes no País, de acordo com dados da B3.

A taxa de crescimento dos dois investimentos, no entanto, vem sendo expressiva. No mês passado, a Bolsa e o Tesouro Direto tiveram expansão de 6,4% e 5,9%, respectivamente, seguindo de perto o ritmo de altas visto desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), em outubro de 2018.

Desde então, o mercado financeiro segue animado com a possibilidade de aprovação de reformas estruturais, como a tributária e a da Previdência, capitaneadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Segundo o diretor de relacionamento da B3, Felipe Paiva, esse direcionamento segue inalterado – apesar das dificuldades de articulação do governo com o Congresso. “Até as eleições, a gente vinha observado um crescimento mensal de 1% a 3% na Bolsa e no Tesouro. Depois disso, o setor pula para 6% a 7% por mês”, afirmou Paiva.

Perfil. A Bolsa também acompanha o perfil de quem opta pelos dois investimentos. Apesar do crescimento, os homens acima de 36 anos continuam a ser dois terços do total de clientes. Os investidores também se concentram na alta renda – mais da metade do total movimentado se concentra nas mãos de uma parcela ínfima dos aplicadores.

Em ações, apenas 1% dos investidores (ou 8,4 mil pessoas ) respondem por 55% do volume aportado, com recursos superiores a R$ 5 milhões cada um.

“Essa dependência de homens ricos é um fenômeno brasileiro. Por muitos anos o mercado vendeu a caderneta de poupança, que serve para financiar o mercado imobiliário. É preciso ter paciência para uma mudança ocorrer”, diz o coordenador da Fipecafi, Valdir Domeneghetti.

O Estado de São Paulo concentra 41% dos investidores brasileiros na B3, seguido pelo Rio de Janeiro, com 13,5%. Entre os clientes de títulos públicos, 652,7 mil (cerca de 65%) investidores são homens, contra 353,8 mil mulheres (35%). São Paulo também concentra a maior parte dos aplicadores (43,3%), seguido novamente pelo Rio (11,9%).

No perfil econômico, 10% dos investidores, ou 101,8 mil pessoas, respondem por 34% do estoque total de títulos nas mãos das pessoas físicas, que é hoje de R$ 64 bilhões. “Esse investidor tem, em média, de R$ 100 mil a R$ 500 mil em títulos”, afirma Paiva, da B3.

Diversificação

O levantamento da B3 também observou que, o principal desafio de captação de investidores é a informação. “Precisamos tentar diminuir o ‘gap’ de comunicação que causa distanciamento entre as pessoas físicas e os produtos de investimento”, aponta o relatório da B3. “É possível entender que começar a investir com pouco, diversificar logo no início e aplicar além da poupança são pontos imprescindíveis para a jornada do investidor.”

'Entrei na Bolsa porque ela estava barata'

Das eleições para cá, a Bolsa de Valores intensificou a captação de investidores brasileiros, motivados, principalmente, pela perspectiva do mercado após as eleições.

No entanto, o perfil do novo investidor, traz na verdade poucas novidades: é homem, com mais de R$ 5 milhões na conta e acima de 36 anos. Essa concentração, apesar do crescimento dos mais jovens, é tida pelos especialistas como um obstáculo para o crescimento do mercado de capitais.

No perfil divulgado pela B3 na quinta-feira, o aplicador típico brasileiro é como Renato de Faria Oliva, que apesar de guardar dinheiro desde os 19 anos, quando começou a trabalhar, passou a investir em ações há menos de um ano. “Entrei no mercado de ações depois das eleições. A Bolsa estava barata e a perspectiva é de alta. Acredito na economia”, diz ele, que tem 36 anos e, hoje, 10% de seu patrimônio investido em ações. “Tenho acompanhado as empresas”, conta ele, que tem um consultor de investimentos.

Aos 23 anos, o estudante e estagiário Massimo Garcia, no entanto, faz parte de uma geração que descobre os investimentos diretamente no mercado de capitais. Sem se preocupar com o volume das economias, ele diz que quer conhecer o mercado investindo. “Não tenho dinheiro e, por isso, não penso em acumular”, diz ele, que guardou R$ 15 mil e colocou na Bolsa, também depois das eleições. “Eu penso em testar o máximo agora. Quando começar a ganhar dinheiro de verdade, muito provavelmente, vou colocar na renda fixa”, admite.

“No Brasil, falta cultura de diversificação de capital. O número de investidores no mercado de capitais pode crescer e isso é para se comemorar, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, analisa o professor da Fipecafi, Valdir Domeneghetti.

Pouco dinheiro

Outro motivo para a concentração de investidores é a dificuldade em poupar. Levantamento recente da associação das empresas do mercado financeiro, a Anbima, revelou que apenas 8% da população economicamente ativa conseguiu guardar algum dinheiro para aplicação em 2018.

O número é muito distante daquele captado pela própria Anbima no início do ano passado, quando mais da metade dos entrevistados (56%) revelou o interesse em poupar nos 12 meses seguintes. Segundo os pesquisadores, dois motivos predominam: a falta de educação financeira e dificuldade real em conseguir guardar dinheiro.

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O que levar em consideração para investir na Bolsa

Investimento atingiu a marca de 1 milhão de poupadores em abril; especialista explica o que é preciso considerar ao planejar o investimento

Entrevista com

José Raymundo de Farias Jr., especialista da Planejar

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 12h51

Com taxas de crescimento expressivas, a Bolsa de São Paulo e o Tesouro Direto chegaram a 1 milhão de poupadores em abril. A menor taxa de juros da série histórica, as expectativas com a reforma da Previdência e o empenho de corretoras para diversificar os investimentos dos clientes estão entre os motivos que ajudaram a Bolsa a atingir a marca histórica. 

José Raymundo de Farias Jr, especialista da Planejar, diz o que levar em consideração para investir na Bolsa. 

Na hora de investir na Bolsa é preciso pesar o risco?

Para responder essa pergunta é preciso, primeiro, compreender qual o planejamento de cada pessoa. E é preciso ter um planejamento. Do ponto de vista de ganhar dinheiro, com as taxas de juros da renda fixa, se não ocorrer em risco, vai ficar difícil. E já que estamos falando de Bolsa, esse é um caminho. 

Qual a melhor maneira de investir em ações?

O que acho mais razoável para quem está começando, e também para quem não está, é fazer uma seleção diversificada de papéis. Ou a pessoa acompanha o relatório de algum especialista, ou procura um especialista, ou entra através de um fundo ETF, que espelha um índice. O Ibovespa é um índice com diversas ações e tem de tudo: banco, empresas de commodity, consumo... Outra maneira é entrar por um fundo de investimento em ações. 

Tem uma faixa etária indicada para ter mais Bolsa e mais renda fixa?

Sim, dependendo do ciclo de vida, é mais indicado ter dinheiro na Bolsa. O que acho engraçado na Bolsa é que, apesar do crescimento dos jovens, que são destaques na pesquisa divulgada, dois terços dos investidores têm mais idade, mais de 36 anos.

 

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Vale a pena investir no Tesouro?

O professor de finanças da Fipecaf Valdir Domeneghetti explica para quem é indicado o investimento, que alcançou a marca de 1 milhão de poupadores em abril

Entrevista com

Valdir Domeneghetti,  professor de finanças da Fipecaf

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 12h26

A Bolsa e o Tesouro Direto alcançaram, cada um, a marca histórica de 1 milhão de poupadores em abril. A taxa de crescimento dos dois investimentos já vinha de um histórico expressivo. No mês passado, eles tiveram expansão de 6,4% e 5,9%. O professor de finanças da Fipecaf Valdir Domeneghetti explica se a vale a pena aplicar no Tesouro

Ainda vale a pena aplicar no Tesouro, mesmo com a queda da Selic, a taxa básica de juros?

Vale, principalmente se o investidor acompanha as previsões sobre a economia e tem uma noção se os juros vão cair ou como estão as projeções sobre a inflação. Apesar de os juros estarem em queda, hoje é possível encontrar títulos de prazo de 10, 11 anos, com prêmios muito bons. 

Quais os títulos indicados para quem vai investir neste momento?

Tem muita coisa, como título do Tesouro pré-fixado e com vencimento para 2029, que paga juros de 8,76% ao ano. Isso é uma coisa fora da curva quando a gente pensa em termos de oferta no cenário global. Títulos atrelados à inflação também são bons instrumentos de proteção do capital do investidor. 

Qual o porcentual da carteira o investidor deve deixar em títulos do Tesouro?

Vai depender do perfil do investidor e da idade. Tesouro é indicado para investidores mais jovens que querem compor uma carteira voltada a aposentadoria e tenham perfil de risco moderado. Para esses, 40% a 50% do patrimônio no Tesouro, para compor com LCA e LCI, são boas alternativas de investimento. 

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