Bolsa em baixa trava mercado de IPO

Momento ruim deve afetar o preço do papel na estreia da CPFL Renováveis; outras empresas repensam abertura de capital

GABRIELA FORLIN, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h04

Por causa do momento desfavorável pelo qual o mercado de ações brasileiro passa e até pelo perfil da empresa, os papéis da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da CPFL Renováveis devem ser precificados no piso da faixa estimada, a R$ 12,51, segundo fontes ouvidas pelo 'Broadcast', serviço em tempo real da 'Agência Estado'. Com as ações neste valor, a oferta da empresa pode movimentar até R$ 1,214 bilhão.

"Com toda a tendência de queda que a Bolsa tem apresentado, a janela de ofertas está, teoricamente, fechada. Mas as garantias oferecidas pelo BTG e pela Previ vão bancar a operação, que deve sair no patamar mais baixo do intervalo", diz uma fonte. Para ela, a ordem de compra de R$ 400 milhões do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil pode até crescer, pelo fato de o momento "não estar nada favorável". "Nós olhamos a Bolsa e, dia após dia, ela tem buscado novas mínimas. Por isso, a expectativa é que os papéis saiam nos preços mínimos", afirma outra fonte.

Outro ponto destacado é o fato de os investidores de fora estarem tirando dinheiro do País. "A presença deles, sempre é marcante nas ofertas brasileiras, deve ser bastante tímida neste IPO", diz uma das fontes. Em maio, os investidores estrangeiros retiraram R$ 1,15 bilhão da Bovespa. Em junho, a saída foi de R$ 4 bilhões. Neste mês, já sacaram R$ 826,549 milhões até quarta-feira. No primeiro semestre, os investidores estrangeiros tiveram participação de 58,5% nas 11 ofertas de ações realizadas, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O perfil da empresa e a postura do governo também interfere no IPO, de acordo com as fontes. "A energia renovável do Brasil ainda carece de maior histórico. Há pouquíssimos leilões que foram feitos de forma organizada. A regra no ano passado era uma, para este ano já é outra. Apesar de ser positivo que o setor tenha uma regulação forte, as regras têm mudado muito", diz uma delas.

Além disso, lembra outra fonte, vários projetos saíram com taxa interna de retorno (TIR) muito baixa em 2012. "O governo tem tido a postura de procurar diminuir ao máximo a rentabilidade dos projetos, o que não parece saudável."

Em entrevista recente à imprensa, o diretor de Relações com Investidores da CPFL, Eduardo Atsushi Takeiti, confirmou que a operação vai adiante principalmente por causa das garantias do BTG e da ordem de compra colocada pela Previ. Apesar do momento desfavorável do mercado de ações, ele afirmou que a abertura de capital é parte do plano estratégico da empresa e que as garantias são suficientes para colocar o lote inicial de R$ 900 milhões no mercado.

O período de reserva do varejo para o IPO da CPFL Renováveis vai até amanhã. O início da negociação das ações na Bolsa está previsto para sexta-feira.

Cenário de ofertas. Em meio ao cenário doméstico adverso, com desvalorização do real, inflação elevada e Bolsa em queda, o IPO vai abrir o segundo semestre da Bovespa e servir de termômetro para as empresas que estão na fila de ofertas. Na semana passada, o conselho de administração da MPX aprovou o cancelamento da oferta pública de ações. O conselho havia se reunido para discutir, entre outros assuntos, a recomendação do BTG Pactual para o adiamento ou implementação de alterações relevantes da nova oferta (follow-on) da companhia.

A recomendação teve como base, entre outras razões, "as atuais condições adversas de mercado no Brasil e no exterior, bem como no fato de que investidores e acionistas relevantes da MPX não manifestaram interesse em participar da oferta pública. O BTG considerou, portanto, que a oferta pública não seria viável em sua estrutura original nesse momento". É claro que o momento complicado vivido pelas empresas do Grupo EBX pesou na decisão.

Votorantim. Já a Votorantim Cimentos optou por suspender, por ora, seus planos, em função das condições de mercado. Além do cenário econômico, o fato de o grupo Votorantim estar enfrentando problemas societários também reduziu o apetite dos investidores. Foi a terceira candidata a recuar na tentativa de abrir capital em 2013, junto com Vix Logística e Cedae, empresa estatal de saneamento do Rio.

Neste contexto, o mercado já comenta a possibilidade de a terceira maior companhia aérea do País, a Azul Linhas Aéreas, também desistir da tentativa de captar R$ 1 bilhão em um IPO. Em comunicado, a Azul disse que mantém a intenção de abrir seu capital e que está acompanhando de perto o mercado para determinar o melhor momento, "o qual ainda não está definido".

Atualmente, estão previstas as ofertas da Klabin e da Via Varejo. Em 2013, os IPOs movimentaram R$ 14,85 bilhões na Bolsa, o melhor ano para aberturas de capital desde 2009. Na ocasião, o volume de mais de R$ 24 bilhões foi inflado pela oferta do espanhol Santander, de mais de R$ 13 bilhões.

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