Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

coluna

Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

Bolsa recua 42%: Por que algumas ações caem mais?

CVC e IRB lideram a lista de maiores desvalorizações do Ibovespa no ano; apenas uma ação se salva

José Ayan Júnior, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2020 | 05h00

O cenário otimista projetado para os investimentos em renda variável em 2020 foi rapidamente substituído pelo pânico causado pelo coronavírus. Com a escalada da doença, as Bolsas de Valores mundiais passaram a derreter. As notícias ligadas à pandemia têm um efeito direto no mercado financeiro e as ações reagem a elas. No Brasil, apenas um papel do Ibovespa, o principal índice da B3, consegue resistir neste ano: o da Telefônica Brasil, com alta de 0,64%. O índice acumula desvalorização de 42%.

Ponto fora da curva neste momento de crise, os dados corporativos têm sido a força da Telefônica. Os analistas consideram que a redução do nível de alavancagem, com o pagamento de empréstimos e financiamentos, e o aumento da remuneração dos acionistas por meio de dividendos e juros sobre o capital próprio são fatores importantes para que os investidores prefiram manter a ação na carteira a vendê-las.

Em contrapartida, empresas ligadas ao turismo e ao entretenimento estão em baixa. A disparada do dólar, estabelecendo o recorde nominal para acima de R$ 5, e o agravamento da pandemia que cancelou viagens e voos em massa têm feito as ações despencarem. 

As perspectivas nada animadoras estão ligadas a um cenário de total incerteza, com um sentimento do mercado de que o “pior ainda está por vir”. A possibilidade de pedidos de falência também já está no radar dos investidores. As ações da Gol já foram penalizadas no ano com uma queda 80,22%, seguida pela Azul, com baixa de 76,32%. A Smiles também teve seus papéis afetados, com recuo de 74,21%.

“Como as pessoas estão em isolamento e há uma queda brusca de demanda, as empresas estão cortando 90% dos voos internacionais e os voos domésticos estão caindo 50%”, diz Jorge Leal Medeiros, especialista em aviação e professor da Poli-USP. “Gol, Azul e Latam estão em uma situação muito difícil e precisam de suporte do governo.”

Na última semana, o governo anunciou medidas de emergência para reduzir o custo das empresas, como o adiamento do pagamento das tarifas de navegação aérea, a flexibilização do pagamento dos bilhetes emitidos, além de colocar uma linha de crédito em estudo.

Mas nada se compara ao caso da operadora CVC, que acumula desvalorização de 81,26% no ano e é a pior entre as empresas que fazem parte do Ibovespa. Além dos fatores que afetam todas as demais do setor de turismo e entretenimento, há um histórico de pontos negativos que contribuiu para a forte desvalorização da ação.

“A crise da Argentina, as manchas de óleo no Nordeste, a falência da Avianca e um critério contábil errado no balanço formaram uma tempestade perfeita para a CVC”, diz Pedro Galdi, analista de investimentos da Mirae Asset.

Efeito Buffett

Outra empresa que está sendo afetada tanto pelos fatores externos como por internos é o IRB. Com perda de 81,26% no ano (sim, o mesmo que a CVC), a ação da resseguradora chegou a recuar mais de 30% em um único pregão, perdendo mais de R$ 8 bilhões em valor de mercado.

Em meados de fevereiro, investidores alegaram que a administração da empresa os teria induzido a acreditar que a Berkshire Hathaway, empresa do megainvestidor Warren Buffett, teria triplicado sua participação no IRB, aproveitando a baixa das ações da resseguradora no mercado. Uma semana depois, o bilionário divulgou um comunicado afirmando que não é, nunca foi e nunca será acionista da companhia.

A imagem da empresa no mercado já havia sido arranhada quando a gestora Squadra levantou questionamentos a respeito do balanço, acusando a companhia de inflar valores contábeis. “Desde que o IRB realizou sua abertura de capital em Bolsa de Valores, em 2017, temos dedicado esforços na análise de seus negócios e resultados. Nesse processo, encontramos indícios que apontam lucros normalizados (recorrentes) significativamente inferiores aos lucros contábeis reportados nas demonstrações financeiras da companhia”, escreveu a Squadra, em carta.

A crise de credibilidade culminou na demissão de José Carlos Cardoso e Fernando Passos, então presidente e diretor financeiro da resseguradora, respectivamente, além de levar Ivan Monteiro à renúncia do cargo de presidente do conselho de administração.

Uma outra guerra

A Petrobrás, umas das companhias de maior relevância no Ibovespa, registra quedas de 60,24% na ação preferencial e de 61,81% na ordinária. Apesar de um início de ano promissor, com boas perspectivas de melhorias operacionais, desalavancagem e recorde de produção, a tensão entre Arábia Saudita e Rússia caiu como uma bomba e resultou em uma forte queda no preço do petróleo. 

O resultado não poderia ter sido outro: o investidor quis evitar riscos e houve uma fuga do papel na Bolsa.

“Há uma grande correlação entre preços da Petrobrás e o comportamento do petróleo no ano. Sendo assim, podemos atribuir grande parte desse movimento de queda ao preço da commodity”, diz Ricardo França, analista da corretora Ágora Investimentos.

Com a mudança macroeconômica, a agenda da petroleira de venda de ativos e melhora de fundamentos deve ser adiada. A Ágora estima que os resultados de desalavancagem da companhia para 2020 só serão entregues nos próximos dois anos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.