AP Photo/Lefteris Pitarakis
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Com crise na Turquia, Bolsa cai 1,94% e dólar encosta nos R$ 3,90

Mercados observam com preocupação onda de animosidades entre os Estados Unidos e a Turquia; relembre a crise e entenda seus impactos na economia

Victor Rezende, Simone Cavalcanti e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 12h39
Atualizado 16 Agosto 2018 | 13h37

A crise na Turquia voltou a assustar os mercados globais nesta quarta-feira, 15. O dólar se valorizou principalmente frente a moedas emergentes, incluindo o real, e terminou o pregão em alta de 0,93%, a R$ 3,8978. Já a Bolsa encerrou o pregão em baixa de 1,94%, aos 77.077,99 pontos. 

Os temores quanto à disseminação dos problemas financeiros da Turquia continuaram a se difundir pelos mercados. A busca desenfreada por proteção não poupou os mercados de dívida, com os títulos públicos de países desenvolvidos sendo fortemente procurados, enquanto o dólar mostrou ainda mais vigor em relação a moedas emergentes, diante da robustez apresentada pela economia dos Estados Unidos.

"A volatilidade nos ativos de mercados emergentes não é incomum e não impede o desempenho positivo no médio a longo prazo. Não achamos que a atual situação na Turquia seja um termômetro para o complexo de moedas de países em desenvolvimento, mas a extensão da volatilidade nos ativos turcos provavelmente desafiará o sentimento dos investidores em relação às emergentes no curto prazo", disseram analistas do Goldman Sachs em nota a clientes.

Dólar se fortalece ante moedas emergentes

As preocupações com a crise na Turquia e seus desdobramentos voltaram a impor perdas aos mercados emergentes nesta quarta-feira, levando o dólar a se fortalecer ante a grande maioria das divisas desses países. Não foi diferente no Brasil, onde a moeda chegou a ser negociada acima R$ 3,92 no mercado à vista, no auge da busca do investidor por proteção. A moeda fechou em alta de 0,93%, cotada a R$ 3,8978. No acumulado de agosto, a moeda americana contabiliza ganho de 3,79% sobre o real.

No entanto, apesar do temor mundial em relação às dificuldades financeiras e comerciais da Turquia, a lira turca andou na contramão dos demais mercados e subiu ante o dólar, mantendo a trajetória de recuperação da terça-feira, 14. A moeda ganhou sustentação com a notícia de que o Catar se comprometeu a investir US$ 15 bilhões em solo turco.

Às 17h14, o dólar tinha queda de 7,90% ante a lira, mas subia ante praticamente todas as divisas emergentes, com destaque para o rand sul-africano (+2,49%), o rublo (+1,49%), o peso mexicano (+1,65%) e o peso chileno (+1,43%). Já o Dollar Index (DXY), que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, recuava 0,07%, aos 70,74 pontos.

Para José Faria Junior, diretor da Wagner Investimentos, o câmbio brasileiro tem demonstrado um comportamento relativamente calmo diante das turbulências do mercado internacional com a crise na Turquia. "O quadro é ruim, mas o dólar não está nas máximas históricas, como ocorre em outros países. Isso significa que, com a esperada resolução da crise da Turquia em algum momento, há potencial para a cotação recuar ao patamar dos R$ 3,80", afirmou o profissional.

Cenário internacional pressiona e Bolsa cede quase 2%

Uma série de fatores externos puxou a Bolsa brasileira para baixo no pregão desta quarta-feira, 15. O recrudescimento da crise na Turquia, que deixou os mercados na defensiva, o desempenho negativo das bolsas americanas e as perdas registradas na cotação dos contratos futuros das commodities fizeram com que o Ibovespa operasse durante toda a sessão em baixa. O principal índice do mercado acionário brasileiro fechou em queda de 1,94%, aos 77.077,99 pontos.

As ações mais líquidas foram determinantes para o desempenho do índice. Petrobrás e Vale seguiram os sinais negativos das commodities e de seus pares no exterior. Os papéis da estatal do petróleo encerraram o pregão com perdas e 3,95% (ON) e 4,65% (PN), na mínima. A mineradora brasileira, cuja ação ordinária recuou 4,45%, também espelhou as quedas de 5,11% da BHP e de 3,20% da Rio Tinto 3,20%, em Londres. No bloco financeiro, Banco do Brasil perdeu 2,12%, Bradesco, 1,20% e Itaú Unibanco, 0,67%.

Os sinais negativos do exterior foram fortes e vieram logo cedo com as bolsas asiáticas fechando em queda, pressionadas pelo fraco desempenho das ações de tecnologia, aversão ao risco pela crise na Turquia. Além disso há sinais de descontentamento com a liderança do presidente da China, Xi Jinping, a economia chinesa perde vigor e vieram à tona escândalos nos setores da saúde pública e financeiro. Nos Estados Unidos, a queda também foi generalizada.

Filipe Villegas, Analista Genial Investimentos, afirma que, graficamente, existe um suporte importante para o Ibovespa por volta dos 76 mil pontos. "Se perder esse suporte, a expectativa é de que o movimento de queda se aprofunde", diz.

Ele faz um comparativo com o índice de mercados emergentes da MSCI para mostrar que ainda há espaço para o Ibovespa recuar. De acordo com ele, há uma hora do encerramento do pregão desta quarta-feira, 15, o índice apontava queda de 10,98% no acumulado de 2018 enquanto o Ibovespa mostrava leve alta de 0,78% no mesmo período de comparação. "Efetivamente existe um espaço para uma correção mais forte da bolsa brasileira, principalmente se o investidor estrangeiro resolver sair de Brasil", afirmou.

Crise Turca

O que está acontecendo nesta quarta-feira é o recrudescimento da crise que vem afetando o mundo nos últimos dias. São dias marcados pelas tensões comerciais renovadas por um tuíte de Donald Trump e uma queda mais acentuada na lira turca. A moeda já acumula queda de mais de 80% neste ano, enquanto os rendimentos dos títulos subiram vertiginosamente, empurrando a Turquia à beira de uma crise financeira.

O presidente dos EUA, Donald Trump, dobrou as tarifas de aço sobre a Turquia, num momento em que o governo do país lutava contra o colapso de sua moeda. A decisão marcou uma mudança dos EUA, que geralmente tentavam acalmar os mercados financeiros globais durante períodos de turbulência nos mercados emergentes, especialmente quando os investidores estavam tomados pelo medo de contágio.

Trump elevou as tarifas das importações de aço da Turquia para 50% e do alumínio para 20%. A decisão aprofundou queda da lira e aumentou o temor de que a moeda mais fraca poderia agravar as fragilidades da economia turca, tornando mais difícil para o setor corporativo do país, altamente endividado, pagar os empréstimos nacionais e estrangeiros, colocando pressão sobre os bancos.

Países como a Turquia, que estão passando por turbulência econômica, costumam receber simpatia do resto do mundo, disse o economista-chefe internacional do Deutsche Bank, Torsten Sløk. "É bastante singular um mercado emergente que não só enfrenta um a crise macroeconômica doméstica, mas também um conflito político externo com o principal acionista do [Fundo Monetário Internacional]", disse.

Por que Trump elevou as tarifas dos produtos turcos?

Funcionários da administração Trump disseram que o aumento das tarifas foi destinado a impulsionar a indústria doméstica de aço e alumínio. O movimento se seguiu a uma série de ações do governo norte-americano nas últimas semanas para pressionar o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a liberar o pastor evangélico norte-americano Andrew Brunson, que foi detido na Turquia em outubro de 216 por acusações de espionagem.

Em uma declaração formal sobre as tarifas emitida cerca de 12 horas após o primeiro anúncio do presidente Trump no Twitter -, a Casa Branca disse que a ação foi tomada porque as tarifas globais originais não tinham feito tanto quanto a administração desejava para impulsionar a produção doméstica de aço e alumínio. A declaração não explica por que só a Turquia foi atingida pelas tarifas mais altas.

Funcionários do governo disseram que as tarifas mais altas não estavam relacionadas à situação de Brunson. No entanto, em seu tweet anunciando o movimento, Trump pareceu ligar as tarifas à piora das relações entre as duas nações, o que sugere uma vontade de impor sanções comerciais como alavanca na busca de objetivos diplomáticos não relacionados.

"A recusa do presidente Trump para acomodar a Turquia é um notável abandono de práticas políticas anteriores", disse o diretor de investimentos da Cresset Wealth Advisors, Jack Ablin.

Como a Turquia respondeu ao ataque americano?

As vulnerabilidades da Turquia incluem altos níveis de dívida em moeda estrangeira, déficit em conta corrente e aumento dos custos de empréstimos.

O foco das tensões nesta quarta-feira está especialmente nos laços entre o país e os Estados Unidos, depois de o tribunal turco ter rejeitado pela manhã recurso que pedia a libertação do pastor americano Andrew Brunson.

Engrossa o caldo das animosidades a retaliação do governo de Erdogan contra Washington, A Turquia anunciou aumento de tarifas a produtos americanos nesta terça-feira, 14.

Quem é o pastor Andrew Brunson, pivô da crise entre os dois países? 

Andrew Brunson é líder da igreja evangélica Ressurreição de Izmir, uma pequena congregação. Viveu as últimas duas décadas na Turquia e foi preso em 2016, na esteira da onda repressora que varreu o país após a tentativa de golpe contra o governo de Recep Tayyip Erdogan. 

Atualmente, ele está em prisão domiciliar à espera de julgamento. Se condenado, pode ser sentenciado a 35 anos. Os EUA afirmam que são farsas as acusações contra o pastor. Atualmente, Donald Trump, o presidente americano, e Mike Pence, o vice-presidente, estão na linha de frente de sua defesa.

Quais são os impactos da crise na Turquia?

Com o início de uma nova semana, especialistas vão observar como as moedas dos mercados emergentes, como o Brasil, reagem, bem como as dívidas dos governos, em busca de sinais de contágio. A Turquia representa cerca de 1,5% do produto interno bruto global, portanto não se espera que as ondas do país sejam severas, avalia o economista-chefe internacional do Deutsche Bank, Torsten Sløk.

O ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak - genro de Erdogan - que o governo tinha um plano para restaurar a calma e anunciou medidas para sustentar lira após desvalorização. "Todas as medidas e planos de ação estão prontos", disse ele ao jornal turco Hurriyet. "Nossas instituições tomarão as medidas necessárias." Entre as ações, o BC turco citou a elevação dos limites de depósito de garantia das operações com liras dos bancos de 7,2 bilhões de euros para 20 bilhões de euros.

No caso de contágio, o infortúnio econômico da Turquia provavelmente atingiria seus vizinhos mais próximos, que são os mais frágeis inicialmente, disseram alguns analistas de mercado. Um primeiro impacto foi sentido na Argentina, que elevou sua taxa de juros para 45% e no Brasil, assim como na Rússia, acrescentou o diretor de investimentos da Commonwealth Financial Network, Brad McMillan, em nota recente aos investidores.

Os colapsos cambiais podem ser perigosos para os mercados emergentes, especialmente quando eles tomam empréstimos em dólar e, portanto, têm mais dificuldade em pagar essas dívidas à medida que suas próprias moedas caem.

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