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Spencer Platt/AFP
Após dado da inflação americana, mercado de Nova York despencou. Spencer Platt/AFP

Bolsas de Nova York fecham em queda após alta da inflação dos Estados Unidos

Investidores temem que alta do dado leve o banco central americano a endurecer as medidas de estímulos adotadas durante a pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 17h37

As Bolsas de Nova York fecharam em queda nesta quarta-feira, 12, após a inflação americana vir acima do esperado e o déficit orçamentário dos Estados Unidos apontar um cenário preocupante. O mercado asiático ficou misto, à espera da divulgação dos dados da maior economia do mundo, mas os índices da Europa subiram com a ajuda das petroleiras.

O CPI (índice de preços ao consumidor) subiu 0,8% em abril e 4,2% nos últimos 12 meses, a maior alta para o período desde 2008. O valor é o mais alto para um período de doze meses, desde 2008. O presidente da distrital de Atlanta do Federal Reserve (Fed, o banco central americano)Raphael Bostic, afirmou que a volatilidade na inflação deve durar ao menos até setembro, até que a trajetória dos preços fique mais clara. "Se [a inflação] subir de forma estável em torno de 2,3%, não vou me preocupar. Mas se continuar crescendo para 2,5%, 2,8%, 3,0% ao ano, será algo que olharei com cuidado", disse.

O avanço da inflação gera preocupação nos investidores, que temem uma postura mais dura do Fed para evitar o sobreaquecimento da economia dos EUA. Além disso, o movimento pode gerar uma reação em cadeia, com outros bancos centrais também alterando suas políticas monetárias pró-estímulos.

Além disso, o déficit orçamentário dos EUA, quando as despesas são maiores que as receitas, também preocupou. O dado ficou em US$ 1,9 trilhão entre outubro e abril, os primeiros sete meses do atual ano fiscal, no momento em que o governo continua a gastar além do que arrecada para lidar com a covid-19. O resultado é recorde para o período de sete meses e representa um avanço de 30% na comparação com igual período do ano anterior, segundo os números do Departamento do Tesouro.

Bolsas de Nova York

O mercado de Nova York despencou após a divulgação da inflação americana. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caíram 1,99%, 2,15% e 2,67% cada. A queda foi incentivada ainda pelo disparada nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, que são fortalecidos pelas projeções de alta da inflação e também pela chance do Fed endurecer as medidas de estímulos, incluindo a alta dos juros.

Hoje, o rendimento do papel com vencimento para trinta anos subiu 2,404%, enquanto a opção com vencimento para dez anos chegou perto de 1,7%. Por serem uma opção de investimento mais segura, a alta nos rendimentos ajudam a promover também a fuga dos ativos de risco, como as Bolsas.

Bolsas da Ásia

No continente asiático, a expectativa pelos dados da economia americana afetaram os índices, com a Bolsa de Tóquio em queda de 1,61% e Seul em baixa de 1,49%. Já Taiwan despencou 4,11%. Na contramão, os índices chineses de Xangai e Shenzhen subiram 0,61% e 0,88% cada, enquanto Hong Kong ganhou 0,78%.

Petróleo

Os contratos futuros de petróleo fecharam em alta hoje, principalmente após a Agência Internacional de Energia (AIE) apontar que o excesso de oferta gerado durante a pandemia diminuiu, com o mercado operando em equilíbrio. Ainda hoje, o Departamento de Energia (DoE, na sigla em inglês) mostrou queda de 426 mil barris nos estoques de petróleo nos EUA na última semana, ante previsão de recuo de 2,2 milhões dos analistas. 

Em resposta, o WTI com entrega prevista para junho fechou em alta de 1,23%, a US$ 66,08, enquanto o do Brent para julho avançou 1,12%, a US$ 69,32.

Bolsas da Europa

O clima foi positivo no velho continente. A Comissão Europeia elevou as projeções de crescimento, esperando agora que a zona do euro cresça 4,3% em 2021 e 4,4% em 2022. Já a produção industrial da zona do euro teve leve avanço de 0,1% em março, com chance de melhorar mais no segundo trimestre. No entanto, foi a alta do petróleo que ajudou no bom desempenho dos índices. A British Petroleum subiu 3,51%, a Royal Dutch Shell ganhou 3,32% e a francesa Total teve alta de 2,29%.

Em reposta, o índice Stoxx-600, que concentra as principais empresas da região, subiu 0,30%, enquanto Londres avançou 0,82%, Frankfurt teve ganho de 0,20% e Paris registrou alta de 0,19%. MilãoMadri ganharam ambos 0,23%, e Lisboa avançou 0,39%. /MAIARA SANTIAGO, MATHEUS ANDRADE, SÉRGIO CALDAS E GABRIEL CALDEIRA

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EUA registram inflação inédita desde crise de 2008

Com reabertura da economia, principal indicador de preços dos país subiu 4,2% nos últimos 12 meses e acendeu alerta no mercado

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 17h25
Atualizado 12 de maio de 2021 | 18h30

A reabertura da economia em meio à desaceleração da pandemia de covid-19 levou os americanos a observar uma inflação que não era vista desde a crise financeira global, há 12 anos. O principal índice de preço dos Estados Unidos subiu 0,8% em abril e 4,2% nos últimos 12 meses - a maior alta para um período de 12 meses registrada desde setembro de 2008, quando o indicador avançou 4,9%.

A aceleração da inflação americana acende o alerta no mundo todo, dado que pode pressionar o Federal Reserve (o Fed, o Banco Central do país) a elevar a taxa de juros antes do esperado, em uma tentativa de a autoridade monetária segurar os preços. Uma elevação nos juros dos EUA, por sua vez, pode desencadear uma fuga de capital de países como o Brasil.

Apesar da inflação surpreendentemente alta em abril, analistas acham que ela desacelerará ao longo do ano e, portanto, não acreditam que o Fed tenha de alterar sua política monetária de forma relevante antes do previsto. Como a inflação ficou em 1,4% em 2020 e a meta do Fed é de 2% ao longo do tempo, há espaço para que a autoridade monetária aceite uma inflação de 4% neste ano, segundo o economista Braulio Borges, da consultoria LCA.

Por enquanto, a aposta dos economistas é que o Fed elevará a taxa básica de juros só em 2023 e, caso precise segurar um pouco mais os preços, mexa no “quantitative easing” (injeção de dinheiro no mercado financeiro). O Federal Reserve, porém, vem apontando um aumento no juros apenas em 2024.

Ainda assim, a divulgação do dado de abril nesta quarta-feira, 12, teve reações no mercado global, com as principais Bolsas do mundo em queda. No Brasil, o Ibovespa fechou em forte queda de 2,65%, aos 119.710,03 pontos.“É óbvio que o mercado se estressa com isso (inflação alta), porque é incomum para a política americana. Por outro lado, está dentro do script do Fed, que não tende a se preocupar enquanto a expectativa de inflação de prazo mais longo estiver ancorada”, diz Borges.

Por enquanto, o Itaú Unibanco não vê sinais de que os preços possam estar pressionados no longo prazo. “O dado de hoje surpreendeu, mas a alta dos preços é principalmente em itens relacionados à reabertura dos EUA, como passagens aéreas, hotéis, carros usados”, diz o economista  do banco Guilherme Martins, que destacou que o mercado de trabalho continua fraco. Além desses itens, a inflação também subiu em consequência da interrupção de cadeias produtivas, como a de semicondutores, durante a pandemia, que provocou a escassez de produtos.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a preocupação no mercado financeiro diante dos preços nos EUA pode ser considerada normal dada a proporção do pacote de estímulos fiscais do presidente Joe Biden e também a valorização das commodities. Além do minério de ferro, cujo preço mais do que dobrou nos últimos 12 meses, a cotação da soja está em tendência de alta em decorrência de problemas na safra.

“Em 2008, havia uma preocupação parecida com a inflação (porque houve muito estímulo monetário), mas o dinheiro acabou ficando empossado nos bancos. As empresas não pegaram empréstimos porque não havia demanda. Agora, a situação é um pouco diferente, porque tem o choque das commodities começando e um pacote fiscal muito maior. O mercado questiona para onde os preços vão”, pondera Vale.

Economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto também afirma que uma alta nos juros ainda está distante, mas lembra que o mercado costuma reagir antecipadamente a cenários de risco. “Nunca houve uma combinação de recuperação econômica forte em meio à alta das commodities e a um pacote fiscal. O estímulo fiscal e monetário colocam combustível nisso tudo.”

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Maior inflação desde 2008 nos EUA é reflexo de demanda reprimida, diz economista Barry Eichengreen

Para professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, a alta nos preços em abril é transitória e não deve alterar as políticas do Fed

Filipe Serrano, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2021 | 17h37

A alta no índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos em abril reflete a retomada da economia americana, com o avanço da campanha de vacinação e uma forte recuperação dos setores mais afetados pela pandemia - como restaurantes e viagens. A avaliação é do economista americano Barry Eichengreen, um dos pesquisadores mais renomados no estudo sobre economia internacional e globalização. Em entrevista ao Estado, Eichengreen diz que não vê no momento uma alta de preços sustentada, e acredita que o aumento da inflação americana seja temporário.

De acordo com o relatório do governo americano divulgado nesta quarta-feira (12), o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou uma alta de 0,8% em abril, elevando a taxa de inflação em 12 meses para 4,2% - o maior valor desde setembro de 2008. O CPI é o principal índice de inflação ao consumidor nos Estados Unidos e referência para as projeções do Federal Reserve, o Banco Central americano. O resultado ficou bem acima da média de expectativas do mercado (de 0,3%) e elevou a preocupação de investidores com um possível aumento nas taxas de juro do país no futuro. 

Apesar da reação do mercado de ações nesta quarta-feira, Eichengreen afirma que ainda é cedo para acreditar que o Federal Reserve (o Banco Central americano) irá reverter a decisão de manter a taxa de referência de juros em um patamar baixo. “Continua sendo improvável que o Fed tome alguma medida antes de 2022”, diz Eichengreen, que é professor de economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. 

O que explica a alta nos preços ao consumidor nos Estados Unidos em abril?

O aumento nos preços atual é limitado a uma parte da economia que sentiu uma recuperação nos gastos como resultado da vacinação generalizada: a venda de passagens aéreas, de carros usados e de hospedagens em hotéis. Os aumentos nos preços desses bens e serviços foram mais fortes do que o esperado. Isso levanta a questão se os gastos das famílias serão fortes após a pandemia ou se as pessoas continuarão mais cautelosas do que antes da pandemia, por causa da situação frágil de suas economias. A resposta parece estar mais ligada ao primeiro caso. Mas o que é surpreendente é que há poucas evidências de transbordamento da inflação para o restante da economia. Pode ser simplesmente que a demanda por alimentação fora de casa esteja aumentando mais rapidamente do que os restaurantes são capazes de atender. Não há razão, neste momento, para descartar a possibilidade de que este último resultado de abril mostre apenas uma inflação transitória.

A inflação mais alta pode afetar as políticas fiscais e pacotes de estímulo nos EUA?

Não há razão para pensar que a inflação altera as ambições do governo Biden e dos democratas no Congresso ou a resistência dos republicanos no Congresso. Mas é possível que tenha impacto nos efeitos dessas políticas. Se os gastos privados aumentarem mais rapidamente do que o esperado, há uma chance maior de superaquecimento da economia, por causa dos pacotes fiscais e de estímulo do governo. Mas eu enfatizo o "se". A demanda por refeições em restaurantes, estadias em hotéis, viagens de avião e veículos, estava profundamente deprimida durante a pandemia e agora volta com força total. As pessoas estão tirando as férias que foram forçadas a adiar no ano passado. Mas isso não significa que seus gastos com as férias serão permanentemente maiores. E não nos diz nada, ainda, sobre a evolução futura dos gastos em toda a economia.

Vê algum reflexo da inflação americana para a economia global e recuperação pós-covid em todo o mundo?

Ainda não. Se achasse que o Fed (o Banco Central americano) iria aumentar as taxas de juros mais cedo do que o esperado, como resultado deste relatório de abril, então sim haveria repercussões. Mas o Fed, assim como eu, suspeita que essa inflação mais recente é transitória. Continua a ser improvável que tome alguma medida antes de 2022.

A alta nos preços da energia e das commodities tem impactado os custos em muitos países, inclusive em mercados emergentes como o Brasil. A economia mundial entrou num período de taxa de inflação mais elevada?

Os preços da energia e das commodities não estão diretamente ligados ao índice de preços ao consumidor. A perspectiva de um provável forte crescimento da economia americana e global no próximo ano resulta em altos preços das commodities. Mas isso não significa que uma inflação mais alta em toda a economia precisa ocorrer.

 

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