Taba Benedicto/Estadão
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Elena Landau
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Bolsonaro aplicou um golpe fatal na Cultura, que já refletia o descaso do poder público

A destruição da Cultura não vem por acaso. Governos autoritários não gostam de cidadãos que pensam e questionam - e museus nos fazem refletir

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 04h00

Memorial da América Latina, 2013; Museu da Língua Portuguesa, 2015; Museu Nacional da UFRJ, 2018; Museu de História Natural da UFMG, 2020; Cinemateca Nacional, 2016 e 2021. 

É fogo.

O abandono do governo não é de hoje. Mas Bolsonaro aplicou o golpe fatal. O que acontece com nossos museus é reflexo do descaso com a Cultura. É sintomático que o assunto não receba atenção nas falas de presidenciáveis em suas campanhas. Foi com enorme comoção que os brasileiros viram o Museu Nacional pegar fogo, levando consigo 200 anos de história e um acervo espetacular. Estava tudo errado ali, de ligações elétricas inapropriadas ao uso de salas como escritório da administração.

Outra tragédia anunciada: na última década, oito incêndios ocorreram nas diversas instalações da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual o Museu Nacional faz parte. Ninguém foi responsabilizado ou mesmo demitido. Durante anos, a reitoria da universidade encontrou recursos para engordar sua folha, mas não para a manutenção de seu mais importante patrimônio cultural.

Tragédias acontecem. Quando a Notre Dame queimou, o presidente Macron foi ao local, lamentou a destruição de um símbolo nacional e imediatamente iniciou esforços de captação de recursos para sua restauração. É patrimônio cultural que atrai milhões de turistas.

Aqui tudo é bem diferente. Nosso presidente não compareceu sequer à reinauguração do Museu da Língua Portuguesa. Compreensível, mal sabe falar o português.

Enquanto a Cinemateca pegava fogo, Bolsonaro fazia uma live constrangedora em todos os sentidos. Nas mentiras, na estética, nos ataques à mídia e ao STF, é claro. Apresentou a prova definitiva de fraudes nas eleições de 2018: ele mesmo.

Em mais de duas horas de despautério, não encontrou um minuto sequer para lamentar a destruição de parte do acervo e milhares de cópias que contavam a história do cinema brasileiro. Foram perdidas quatro toneladas de informações, documentos e imagens de nossa memória coletiva.

Há muito que já se sabia dos riscos que a Cinemateca corria. Envolvida em questões políticas desde a intervenção de Marta Suplicy, no governo Dilma, foi sendo deixada de lado ao longo dos anos, sobrevivendo por conta de esforço de poucos. Mas seu destino foi selado quando a turma ideológica, e ignorante, comandada por Abraham Weintraub, resolveu intervir e assumir a Cinemateca. Cortaram recursos e demitiram técnicos especializados.

Horas depois do incêndio, o governo lançou um edital para contratar novo gestor. Assunto que estava na gaveta desde agosto de 2020. O orçamento previsto, no entanto, será insuficiente para recuperar e manter o acervo de filmes, que continuarão sob risco de desaparecer.

A Secretaria da Cultura, por onde já passou um Goebbels tupiniquim, hoje é comandada por um ex-ator medíocre e ressentido. Embaixo dele, um ex-PM – o Capitão Cultura –, que posa nas redes fantasiado de super-herói, cuida da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura. Só quer saber de música sacra; jazz, nem pensar. Vetaram, de forma ilegal, a produção de um filme sobre Fernando Henrique Cardoso e outro sobre evangélicos no Brasil. Impõem o que sempre criticaram nas suas teorias conspiratórias: uma política de Estado, o que não é permitido nas leis de incentivo.

Nazistas queimavam livros na Alemanha de Hitler. No Brasil de Bolsonaro, queimam filmes. O objetivo é o mesmo: apagar a história. Ainda bem que as atrocidades ditas por eles estão guardadas nas nuvens. Não serão queimadas, nem esquecidas.

A destruição da Cultura não vem por acaso. Governos autoritários não gostam de cidadãos que pensam e questionam. Precisam de um povo que os obedeça como gado. E museus nos fazem refletir. Atrapalham.

Cultura é o que nos une, o que nos define. Música, artes, língua, comida, expressões regionais, crenças, folclore, dança e sotaques. É muita coisa. É dinâmica, é mistura. É história. Mas é antena e não só raiz. Assim como a Bossa Nova é nossa marca, o Funk da Favela contagia a todos no balé da graciosa Rebeca.

Termino com as palavras de nossa dama Fernanda Montenegro, uma das vítimas da inquisição bolsonarista: “Das cinzas vamos renascer, é sagrado o eterno retorno”.

Um país não existe sem Cultura; sem memória, nem sabe quem é.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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