Dida Sampaio/Estadão
André Brandão, atual presidente do Banco do Brasil. Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro decide demitir presidente do BB por fechamento de agências; Guedes tenta reverter decisão

Na última segunda, André Brandão anunciou plano de reestruturação que vai fechar 112 agências e demitir 5 mil funcionários; com possível saída, ações do banco caíram 4,7% na Bolsa brasileira

Adriana Fernandes e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 18h41
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 21h31

BRASÍLIA - A proposta do Banco do Brasil de fechar 112 agências e desligar 5 mil funcionários abriu uma crise no governo e deve levar à demissão do presidente do banco, André Brandão, menos de quatro meses após sua posse. O Estadão apurou que o presidente Jair Bolsonaro decidiu demiti-lo pelo desgaste provocado com o anúncio, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda tenta demovê-lo da ideia.

Embora a reestruturação do banco tenha agradado investidores e tenha sido considerada positiva pela equipe econômica para um reposicionamento do banco com enfoque no digital, o anúncio foi considerado inoportuno neste momento em que o Palácio do Planalto negocia apoio para os comandos da Câmara e do Senado.

Em campanha por Arthur Lira, Bolsonaro recebeu em um só dia oito deputados e ouviu reclamações sobre o fechamento de agências do BB em cidades menores. O presidente argumentou que não foi avisado antes do plano de reestruturação, embora Brandão tenha sido contratado exatamente com a missão de enxugar o banco.

No ano passado, em um evento, o presidente já tinha sido cobrado por um manifestante para reabrir uma agência. Em 2019, Bolsonaro chegou a admitir que pediu ao Banco do Brasil que abrisse uma agência num município do Maranhão que o elegeu. Agora, o anúncio do fechamento de mais de uma centena delas, em meio à pandemia do novo coronavírus, foi considerado um desgaste político inoportuno.

Com os rumores sobre a demissão de Brandão, as ações do Banco do Brasil na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fecharam com queda de 4,71% nesta quarta.

A saída de Brandão seria mais um desgaste para Guedes, já que o enxugamento do banco é uma orientação da equipe econômica. Próximo do presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, o presidente Bolsonaro sempre tem feito comparações na atuação entre os dois bancos. Guedes já perdeu vários integrantes da sua equipe em choque com as determinações do presidente. Foi assim com os secretários Salim Mattar, por causa do fracasso da agenda de privatizações, Paulo Uebel, pelo atraso no envio da reforma administrativa, e Marcos Cintra, pela resistência à recriação da CPMF.

Antes do BB, Brandão atuava como chefe global da instituição para as Américas do HSBC. Foi escolhido por Guedes para fazer a transformação no banco e não estaria disposto também a retroceder nesses planos.

Desde o início do governo, Bolsonaro tem se mostrado sensível às críticas de parlamentares e prefeitos sobre fechamento de agências do BB e da Caixa. A pressão aumentou com o anúncio do BB, que foi visto também pelos políticos como a abertura de caminho para privatização do banco. A Frente Parlamentar em Defesa dos Bancos Públicos está programando convocar o presidente do BB para ir ao Congresso explicar o plano de reestruturação.

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Eventual demissão de André Brandão expõe ingerência política no Banco do Brasil, dizem analistas

Especialistas do mercado financeiro afirmam que, se confirmada a demissão, episódio vai contra o discurso de diminuição da máquina pública e gestão técnica das estatais que ajudou a eleger Bolsonaro

Renato Carvalho e Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 21h25

Os analistas do mercado financeiro são unânimes ao analisar a notícia de que o presidente da República, Jair Bolsonaro, quer demitir o atual presidente do Banco do Brasil, André Brandão, que está no cargo desde o final de setembro. Eles acreditam que o episódio vai contra o discurso que inclusive ajudou a eleger Bolsonaro, de diminuição da máquina pública e gestão técnica das estatais, sem ingerência política.

A proposta do Banco do Brasil de fechar 112 agências e desligar 5 mil funcionários irritou Bolsonaro por acontecer em um momento de busca de apoio para os candidatos do governo para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado. Na visão de Carlos Daltozo, head de Renda Variável da Eleven Financial, se confirmada a demissão, será um sinal claro de ingerência política, algo que os investidores esperavam que não ocorresse na gestão Paulo Guedes no Ministério da Economia. "Isso vai contra a própria nomeação do Brandão, que tem um perfil mais técnico. Então, com certeza haverá uma reação negativa que vai ter reflexos na ação." Daltozo lembra que BB ON caiu quase 5% nesta quarta, e foi o pior desempenho do Ibovespa.

Na visão de Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos, a demissão deixa o BB ainda mais distante de seus concorrentes em relação à percepção dos investidores sobre o potencial de crescimento e rentabilidade. "O ROE (retorno sobre patrimônio líquido) do BB é mais baixo que o dos outros bancos, e isso ocorre muito pela dificuldade em conseguir implementar medidas de ganho de eficiência", explica.

O analista da Guide lembra que os outros bancos fecharam muitas agências físicas no ano passado. E no primeiro passo que o presidente do BB tenta dar neste sentido, surge a notícia de que ele pode ser demitido. "Cada vez fica mais claro que aquele viés liberal que o governo tantas vezes disse possuir, principalmente na campanha, não é verdade. Cada vez fica mais claro que as estatais vão continuar sendo utilizadas para os mesmos fins", afirma.

Um outro analista, em condição de anonimato, também destaca a postura do governo como um problema que vai aparecer no desempenho das ações do BB e até de outras estatais. "Nós esperávamos medidas de diminuição do tamanho da máquina pública, e esse episódio só mostra que esta foi mais uma promessa não cumprida pelo Bolsonaro".

A Ativa Investimentos vai na mesma linha. "A notícia é negativa na medida que expõe, mais uma vez, os riscos de ingerência política na estatal e coloca em xeque qualquer possibilidade do BB assumir uma gestão mais liberal no atual governo", opina a área de Research da corretora.

Bruno Madruga, sócio da Monte Bravo Investimentos, acredita que a confirmação desta eventual demissão pode demorar um pouco. Mas se confirmada a saída de Brandão, os investidores vão reagir de forma bastante negativa. "Brandão vem fazendo o planejamento de desinvestimentos do Banco do Brasil, que tem repercutido positivamente dentro da estatal. Os investidores não gostam de nenhum tipo de interferência governamental dessa forma".

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