Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Após encontro com Bolsonaro, Macri diz que ditadura de Maduro é 'zombaria à democracia'

Para o brasileiro, preocupação de Brasil e Argentina com a situação da Venezuela é um exemplo de cooperação entre os dois países

Daniel Weterman, Tânia Monteiro, André Ítalo Rocha, Marcelo Osakabe e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2019 | 10h46
Atualizado 16 de janeiro de 2019 | 16h09

BRASÍLIA - O presidente da República, Jair Bolsonaro, e o presidente da Argentina, Maurício Macri, se reuniram nesta quarta-feira, 16, no Palácio do Planalto. Na pauta do encontro estavam temas relacionados a comércio, relação bilateral, defesa e combate ao crime organizado. Os dois ainda almoçaram no Itamaraty com ministros dos dois governos.

Em discurso após a reunião, Macri condenou a ditadura do venezuelano Nicolás Maduro. "Estamos preocupados com a ditadura de Nicolás Maduro. Não aceitamos essa zombaria à democracia e essa tentativa de vitimização, quando na verdade eles são os algozes. A comunidade internacional já percebeu que Maduro se perpetua no poder com eleições fictícias. É uma situação desesperadora. A Assembleia Nacional é a única instituição legítima da Venezuela, eleita democraticamente pelo povo venezuelano", afirmou.

Antes da fala de Macri, Bolsonaro disse que a preocupação de Brasil e Argentina com a situação da Venezuela é um exemplo de cooperação entre os dois países. "Só reforça que seguiremos avançando no rumo certo em defesa da democracia, da liberdade, da segurança e do desenvolvimento."

Bolsonaro afirmou ainda que os dois concordaram em "construir" um Mercosul "enxuto", para que continue a ter relevância no cenário internacional. "É preciso valorizar a tradição original do Mercosul, com abertura comercial, redução de barreiras e eliminação de burocracias", disse. "Concordamos também que, com Uruguai e Paraguai, precisamos aperfeiçoar o Mercosul."

Segundo o presidente, na frente externa, é preciso concluir negociações mais promissoras e iniciar novas negociações, "com criatividade e flexibilidade para recuperar o tempo perdido". Ele não citou nenhuma negociação em especial, embora o Mercosul esteja conversando com a União Europeia para um acordo de livre-comércio.

Macri reforçou a intenção de "modernizar" o Mercosul e citou o acordo com a União Europeia. "É fundamental agilizar e terminar negociações externas que temos em andamento. Com a União Europeia, avançou como nunca antes, exigiu muito esforço. Com a chegada de Bolsonaro, temos chance de renovar o compromisso político e dar vantagens aos dois blocos", disse.

Reformas

Bolsonaro afirmou que as reformas que os dois países levam adiante são fundamentais para o crescimento sustentável, sem se referir a nenhuma reforma específica. A Argentina aprovou uma reforma da Previdência em 2017, já durante o governo Macri, enquanto Bolsonaro se prepara para enviar um texto que muda o sistema de aposentadoria no Brasil.

O presidente brasileiro também comentou o comércio entre os vizinhos e disse que "não há tabu na relação bilateral". "O que nos move é a busca por resultados concretos, para o bem estar dos brasileiros e argentinos", disse Bolsonaro, que afirmou ainda que não há qualquer "viés ideológico" nas tratativas com Macri.

Segundo ele, boa parte do comércio entre os dois países envolve bens manufaturados de alto valor agregado, sem citar nenhum setor. A Argentina é o principal consumidor de carros exportados pelo Brasil. Os dois têm um acordo comercial para esse setor que vence em 2020. As negociações para renovação já estão em curso e têm esbarrado em discordâncias quanto ao estabelecimento de um limite para a exportação brasileira - atualmente, para cada US$ 1 importado da Argentina em veículos e autopeças, o Brasil pode exportar US$ 1,5.

Macri, em seu discurso, reforçou que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e disse que, quando um país está em um momento bom, ajuda o outro. "Precisamos que os dois estejam em um momento bom", disse. Bolsonaro, por sua vez, afirmou que acompanha com interesse os esforços de Macri para reerguer a economia argentina.

Além de comércio, as conversas com Macri foram sobre questões ligadas a fronteiras, defesa, combate ao crime organizado e energia nuclear, disse Bolsonaro. Macri, em sua fala, afirmou que o encontro foi produtivo e que envolveu temas relacionados a Judiciário, segurança e inteligência, para combater narcotráfico, crime organizado e lavagem de ativos

Ainda na manhã desta quarta, o ministro da Justiça, Sergio Moro, falou sobre a revisão do tratado de extradição entre Brasil e Argentina. Segundo ele, a ideia é que o documento de extradição, em caso da prisão de uma pessoa no país vizinho, seja adiantado sem passar pelos canais diplomáticos para depois ser formalizado. Atualmente, o tratado vigente é da década de 1960. 

"Reforçar os laços"

Pouco antes da reunião, Jair Bolsonaro afirmou em uma publicação no Twitter que o encontro seria uma oportunidade de "reforçar laços" e que o país vizinho é uma "nação irmã".

"Hoje, às 10:30, receberei o Presidente da Argentina, @mauriciomacri. É a primeira visita oficial de um Chefe de Estado ao Brasil desde a minha posse. Uma grande oportunidade de reforçar os laços de amizade com essa nação irmã!", escreveu Bolsonaro.

Ausente na cerimônia de posse de Bolsonaro, com a alegação de que estava em férias na Patagônia, Macri chegou ao Brasil com um time importante de ministros, que incluem Nicolás Dujovne (Economia), Dante Sica (Produção), Jorge Faurie (Relações Exteriores) e Oscar Aguad (Defesa). 

Depois de uma reunião na manhã desta quarta-feira no Ministério da Economia com autoridades argentinas, a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, disse que o encontro tratou de "um novo olhar" sobre o Mercosul. Guedes também esteve na reunião com os ministros argentinos Dujovne e Sica. 

Os dois governos devem conversar ainda sobre a criação de um novo bloco para substituir a União das Nações Sul-Americanas (Unasul). O governo brasileiro acredita que o bloco está "praticamente encerrado" e vai propor o uso de fóruns já existentes no Mercosul para substituir a organização em áreas como infraestrutura e questões de fronteira.

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