Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Bolsonaro diz ser favorável a compra de vacinas por empresas com repasse de parte das doses ao SUS

Declaração mostra mudança de tom do presidente já que, em reunião há menos de duas semana, empresas foram informadas de que o governo faria toda a imunização no País

Idiana Tomazelli e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 10h57
Atualizado 29 de janeiro de 2021 | 22h06

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro defendeu nesta terça-feira, 26, a possibilidade de empresas comprarem vacinas contra covid-19 para vacinarem seus funcionários e repassarem uma parte ao sistema público de saúde.

Como mostrou ontem o Estadão, a compra do imunizante pela iniciativa privada esbarrou na discordância entre empresas sobre o modelo a ser adotado para distribuição. Segundo uma carta que circulou entre líderes de associações de diferentes setores, existiria um lote de 33 milhões de vacinas da Oxford/AstraZeneca disponível para compra, da Inglaterra, com a obrigação de aquisição de pelo menos 11 milhões de doses de uma só vez.

"O governo é favorável a esse grupo de empresários trazer vacina a custo zero pro governo", afirmou Bolsonaro ao participar nesta terça-feira, 26, de evento virtual organizado pelo banco Credit Suisse.

A declaração do presidente significa uma mudança de postura do governo em relação ao tema. Em reunião realizada há menos de duas semanas com os ministérios da Saúde, da Casa Civil e das Comunicações, empresas foram informadas de que o governo realizaria toda a imunização e de que não haveria necessidade de ajuda de empresários. À época, o governo disse que teria doses suficientes para vacinar a população e que a compra por empresas seria proibida.

Também participante do encontro com investidores, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reforçou a necessidade de contrapartida. "Para cada funcionário que vacinar, tem que entregar uma para o Sistema Único de Saúde (SUS)", disse Guedes. "São mais 33 milhões de vacinas do setor privado. Evidente que isso é muito bom."

A compra das vacinas pela iniciativa privada, e não pelo governo, levantou questionamentos entre parte do empresariado se a medida não representaria "furar a fila" de vacinação no País. Por enquanto, apenas grupos prioritários, como idosos e profissionais da saúde receberam doses do imunizante.

Há também dificuldade de governos ao redor do mundo em conseguir comprar mais doses das vacinas já aprovadas por autoridades de saúde. No Brasil, o Ministério da Saúde ainda aguarda a chegada de insumos da China para iniciar a produção da Coronavac, pelo Instituto Butantan, e da vacina de Oxford, pela Fundação Oswaldo Cruz. 

Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já defenderam a compra de vacinas pelo setor privado. “A gente não vai criar problema no tocante a isso aí”, disse o presidente em transmissão nas redes sociais, ao lado do ministro, no último dia 7. “Se uma empresa quiser comprar lá fora a vacina e vender aqui, quem tiver recurso vai tomar vacina lá”, completou.

A Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) afirma negociar a compra de 5 milhões de doses, ao setor privado de saúde, da vacina indiana Covaxin, fabricada pela Bharat Biotech. O produto tem dados de eficácia ainda incertos e publicou recentemente informações da fase 1 de pesquisa clínica.

'Tratamento precoce'

Após meses defendendo tratamentos sem eficácia comprovada contra covid-19, Bolsonaro também admitiu não haver qualquer medicamento atestado para combater a doença. “O médico e o paciente têm que ser respeitados, e quem decide o tratamento precoce de uma pessoa infectada, já que não temos medicamento ainda comprovado cientificamente. O médico pode, na ponta da linha, decidir, em comum acordo com paciente, o que vai receitar”, afirmou aos investidores.

Apesar disso, ele elogiou a posição do Conselho Federal de Medicina (CFM) pela defesa da independência dos médicos para prescrever remédios ao paciente. A entidade é alvo de críticas de especialistas por não proibir que os profissionais receitem medicamentos sem eficácia comprovada.

Recentemente, o Ministério Público Federal cobrou explicações do Ministério da Saúde e do CFM sobre o aplicativo TrateCOV, lançado pelo governo federal para orientar o enfrentamento da covid-19. Como mostrou o Estadão, o aplicativo recomendava o uso de antibióticos e cloroquina, ivermectina e outros fármacos para náusea e diarreia ou para sintomas de uma ressaca, como fadiga e dor de cabeça. A prescrição era feita até mesmo para bebês. Após questionamentos, o aplicativo foi retirado do ar.

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