Capítulo 11

Bolsonaro e Maia selam trégua pela Previdência. Mas é mesmo pra valer?

Após uma intensa troca de farpas que durou dias e mexeu com o humor do mercado, os presidentes da República e da Câmara afirmam que disputa acabou e o foco agora é a reforma

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 09h27

Caro leitor,

Prestes a completar três meses – sim, são apenas três meses! -, o governo Jair Bolsonaro viveu nos últimos dias turbulências típicas de uma gestão com muito mais tempo, quando já não há mais capital político para gastar. É difícil de explicar que um governo com tão pouco tempo, tendo o respaldo de uma vitória convincente nas urnas  , tenha sofrido uma derrota com tanto simbolismo quanto a aprovação na Câmara dos Deputados, na terça-feira, de um projeto esquecido desde 2015 que engessa ainda mais o orçamento federal. E isso contando com votos até do próprio filho do presidente .

Essa turbulência dos últimos dias teve seu estopim, como não podia deixar de ser neste governo, nas redes sociais, com as críticas do vereador Carlos Bolsonaro , o filho “02” do presidente, ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, no último dia 21, por conta de um episódio envolvendo o ministro da Justiça, Sérgio Moro. A partir daí, foi uma sucessão de trocas de farpas  envolvendo Maia e o presidente da República que deixou os mercados financeiros em parafuso. A Bolsa desabou: foi do recorde dos 100 mil pontos para os 91 mil pontos em velocidade também recorde. E o dólar voltou à casa dos R$ 4,00, o que não acontecia desde o ano passado, antes da eleição do próprio Bolsonaro.

Pode até parecer o samba de uma nota só, mas a preocupação de analistas e investidores é apenas uma: o destino da reforma da Previdência. Como escreveu nossa colunista Zeina Latif , um cenário sem reforma e, portanto, de colapso não interessa a ninguém, pois não há vencedores. “No entanto, o risco de um governo que pouco entrega na agenda econômica é concreto”, afirmou.

A crise conflagrada nas mensagens trocadas entre os presidentes da República e da Câmara deixou ainda mais claro que a reforma da Previdência tem um caminho difícil. Talvez mais difícil do que imaginavam mesmo os nem tão otimistas. Para nossa colunista Cida Damasco , é provável que um dos principais desdobramentos dessa confusão aparentemente interminável seja limitar as ambições de Paulo Guedes e sua turma. E, “mais ainda, vai exigir que o presidente Bolsonaro ‘assuma’ de fato o cargo, com determinação, mas também com jogo de cintura que, vamos combinar, ele não mostrou até agora”, disse.

 A preocupação com os rumos da “Nova Previdência” e, por conseguinte, da própria atividade econômica, levou empresários e representantes do setor financeiro a atuar para tentar baixar a temperatura das discussões e evitar uma ruptura que, em última instância,  levaria o País de volta à recessão da qual ainda tenta, a duras penas, se livrar. Conforme apuramos, foram conversas tanto com Bolsonaro quanto com Maia para mostrar o estrago que viria se uma trégua não fosse firmada.

A trégua veio na quinta-feira, 28. Em evento no Clube do Exército, em Brasília, Jair Bolsonaro afirmou que as divergências com o presidente da Câmara foram uma "chuva de verão", mas, agora, "o céu está lindo" e o assunto é "página virada". 

Rodrigo Maia foi na mesma direção.  Após almoço com o ministro da Economia, Paulo Guedes, adotou um discurso de paz . "Vamos colocar esse trem nos trilhos para que a gente possa caminhar com velocidade. Em uma velocidade que os 12 milhões de desempregados esperam", disse. “Vamos focar no que pode melhorar o País." Maia e Guedes decidiram assumir em conjunto o comando da articulação política da reforma da Previdência.

Outros sinais vieram, ao longo do dia, no sentido de destravar a reforma da Previdência. O PSL, partido do presidente, finalmente decidiu fechar questão  em relação à votação. São 54 votos. E foi escolhido um relator para o projeto na Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça (CCJ), o deputado Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG).

Com isso, o projeto poderá, enfim, começar a caminhar dentro do Congresso. Mas não foi a primeira vez em que Bolsonaro e Maia disseram que tudo estava acertado, para logo depois todo o caldo voltar a desandar. Pelo sim, pelo não, é melhor ficar de olho no Twitter.

Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

Bolsonaro e a Economia

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