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Bolsonaro e o dólar caro

Não será com apelos ao patriotismo dos agentes do mercado que o real sairá fortalecido

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 19h42

Eis que o presidente Bolsonaro avisa que está preocupado com a alta do dólar e que vem consultando ministros e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o que fazer para reverter essa alta. Foi o que revelou na quinta-feira em transmissão ao vivo pelas redes sociais.

A maior fonte de preocupações do presidente não é a escalada do dólar, que já foi maior, mas o efeito da alta do câmbio sobre os preços dos alimentos e, portanto, sobre o encarecimento da cesta básica e, por tabela, sobre o estrago que esse resultado pode produzir sobre suas pretensões eleitorais.

Como foi analisado na Coluna da quinta-feira passada, o aumento abrupto dos preços dos alimentos não se deve apenas a um fator de custo (alta do dólar). Mas se deve, também, ao aumento de demanda, que tem como seu principal deflagrador a melhora momentânea do poder aquisitivo do consumidor de baixa renda, produzido pela distribuição do auxílio emergencial.

O aumento das cotações da moeda estrangeira (veja gráfico) puxou para cima os preços em reais das commodities exportáveis, especialmente as de grãos, que, por sua vez, encareceram os derivados (óleo de soja e rações animais, por exemplo), a carne e o arroz. Os gráficos dão uma ideia desse impacto.

Mas vamos ao que acontece no câmbio. Entre as moedas dos países emergentes, o real sofreu uma das maiores desvalorizações em relação às moedas fortes, por algumas razões, que são apontadas a seguir.

O tombo dos juros é uma dessas razões. Um dos fatores que há anos vinham trazendo dólares para o Brasil ou os incentivando a permanecer por aqui era o regime de juros altos. Valia a pena, então, trazer moeda estrangeira do exterior, convertê-la em reais e aplicá-la no mercado financeiro. À medida que os juros reais (descontada a inflação) deslizaram para baixo, essa vantagem deixou de existir, mesmo levando-se em conta os juros negativos vigentes lá fora.

Enquanto isso, exportadores que vinham ganhando com a alta do dólar preferiram deixar seus recursos depositados no exterior e esperar pela maior desvalorização do real. E o câmbio acusou.

Mas não foi só isso. As cotações do dólar dispararam em reais também pela deterioração da qualidade das finanças públicas (questão fiscal), pela falta de liderança política, pelas trombadas que o governo vem dando no enfrentamento da pandemia e pela falta de empenho em produzir avanço nas reformas, especialmente na tributária e na administrativa. Ou seja, a principal explicação para a disparada do dólar é o baixo nível de confiança no governo.

Se é para fortalecer o real e, por conta disso, evitar o repique de custos sobre os preços dos alimentos, não será com apelos ao patriotismo dos agentes do mercado – como Bolsonaro fez aos dirigentes dos supermercados – que isso será obtido. A rigor há pouco o que o Banco Central possa fazer. As intervenções no câmbio são as que estão sendo realizadas. Limitam-se a evitar forte volatilidade nas cotações.

Se o presidente quer mesmo restabelecer o nível de confiança e concorrer para a estabilidade do câmbio, pode, por exemplo, mobilizar os recursos para tirar da imobilidade os projetos de reforma e mostrar mais empenho na obtenção de melhores resultados na administração das contas públicas.

*É comentarista de Economia

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