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Bolsonaro e o mercado

Mercado foi otimista demais apostando que o novo governo traria bons resultados

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 05h00

Uma das hipóteses usada nos modelos de finanças é que os investidores são racionais e os mercados financeiros são eficientes. Toda a informação disponível está no preço, do contrário os investidores ganhariam dinheiro sem correr risco. 

Será que o mercado financeiro brasileiro precificou corretamente o valor do kit Brasil (Bolsa, câmbio, juros e CDS) desde as eleições presidenciais de 2018? Será que o mercado precificou corretamente o efeito do governo Bolsonaro no kit Brasil? Racionalidade e mercados eficientes diriam que sim.

No entanto, a realidade é que o mercado subestimou a conturbada trajetória política até as eleições e exagerou no otimismo quando apostou que o governo Bolsonaro entregaria bons resultados. É comum vermos no Brasil o efeito do viés otimista no mercado. Regado a créditos, subsídios e campeões nacionais, em 2010, o setor privado estava animado com o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Outro exemplo é o eterno otimismo das projeções do PIB, que nunca se materializam. 

O ramo das finanças comportamentais nos ajuda a entender esse fenômeno. Ele emprega ferramentas usadas em psicologia para explicar certas anomalias no funcionamento dos mercados. À diferença dos modelos convencionais, uma das suas premissas é que o comportamento dos investidores pode ser viesado. A maior estrela dessa disciplina é o prêmio Nobel em economia de 2018, Richard Thaler.

De acordo com os especialistas dessa área, os mercados podem ser viesados ao processar informações políticas e econômicas. Os investidores podem errar ao estimar as probabilidades e as consequências de certos eventos importantes para determinar o preço dos ativos. Isso pode ser explicado por um viés cognitivo e excesso de confiança sobre sua habilidade de fazer previsões. 

Pesquisadores de finanças comportamentais (Kumar e Delikouras) estudaram os efeitos do ciclo político no mercado de ações americano. Eles concluíram que as expectativas sobre um futuro governo podem ter um efeito positivo (negativo) no mercado quando os investidores avaliam de forma otimista (pessimista) os candidatos à Casa Branca. 

Summers e Schleifer argumentam que mesmo errando em suas inferências estatísticas, investidores “ruidosos” e “irracionais” fazem preço e podem ganhar dinheiro no mercado. “Noisy traders” acreditam que as suas análises e informações sobre a conjuntura política e econômica lhes dão uma vantagem para operar no mercado. Sendo imprevisíveis, eles aumentam o risco das operações de arbitragem feitas por operadores racionais, o que retarda a volta dos preços dos ativos aos seus valores justos. 

No Brasil, ao longo das eleições de 2018, também observamos o efeito dos ciclos políticos no mercado financeiro. Primeiro, os investidores sobre-estimaram a probabilidade de que o PT voltaria ao poder, derrubando os mercados. Assim que o presidente Bolsonaro decolou nas pesquisas, o risco Brasil caiu e a Bolsa disparou, precificando um cenário de reformas e crescimento. Esse fenômeno se intensificou até março, quando o índice Bovespa chegou a 100.000.

Encorajado pela agenda liberal a ser implementada pela equipe econômica capitaneada por Paulo Guedes, o mercado aumentou a probabilidade de que o governo Bolsonaro entregaria bons resultados econômicos e financeiros. 

O mercado subestimou a dificuldade que o presidente Bolsonaro teria para governar. Desde abril, a realidade política de Brasília se impôs, dissipando a esperança que animava o mercado e os empresários. Hoje, sabemos que o governo enfrenta grandes dificuldades para se articular e implementar a política econômica. Além disso, o governo dilapida o seu capital político ao tropeçar nas próprias confusões.

Ao incorporar esses novos dados sobre o cenário político (e descontando o meu viés pessimista), a probabilidade de que o governo aprovará as reformas econômicas necessárias para evitar uma crise fiscal e gerar crescimento é menor do que o mercado estima. 

O viés cognitivo do mercado ainda não o permitiu ajustar os preços dos ativos a essa realidade. Dois eventos tornariam esse reajuste de preços desnecessário. Ou o governo descobre logo a sua vocação executiva ou os Estados Unidos cortam as taxas de juros. 

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