Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Bolsonaro foge de encontro com imprensa internacional

Presidente participaria de coletiva com os ministros Ernesto Araújo, Paulo Guedes e Sergio Moro em Davos; evento foi cancelado quando 28 repórteres já esperavam a delegação brasileira

Rolf Kuntz, enviado especial, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2019 | 16h45

DAVOS - O presidente Jair Bolsonaro (PSL) fugiu da imprensa e deixou 28 repórteres brasileiros e estrangeiros esperando numa sala preparada para entrevista no Centro de Congressos de Davos, onde é realizado o encontro do Fórum Econômico Mundial. A mesa destinada aos entrevistados estava pronta e exibia placas com os nomes do presidente e dos ministros de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, da Economia, Paulo Guedes, e da Justiça, Sérgio Moro. O evento estava marcado para as 16 horas. Às 16h15, uma funcionária do departamento de comunicação do Fórum foi à sala e anunciou oficialmente o cancelamento. 

Os jornalistas já sabiam do fiasco. Seus colegas de plantão no hotel do presidente haviam passado informações sobre o recuo de Bolsonaro. Depois dos primeiros sinais de mudança dos planos, um assessor da Presidência, Tiago Pereira Gonçalves, confirmou a novidade aos profissionais concentrados no hotel. Segundo sua informação, o encontro foi cancelado por causa da "abordagem antiprofissional da imprensa no Fórum". Jornalistas com longa experiência internacional garantem nunca ter visto algo semelhante em reuniões. 

Segundo as informações conseguidas antes das 16 horas, o ministro Paulo Guedes também havia voltado ao hotel para conversar com o presidente. Não ficou claro se ele tentou convencer Bolsonaro a comparecer ao encontro com os jornalistas. O ministro Sérgio Moro, segundo uma fonte do Fórum, chegou a aparecer no centro de imprensa, onde se realizaria o evento, mas logo foi embora. 

Na véspera, o presidente havia discursado numa sessão especial, reservada a chefes de governo. Programada para meia hora, a apresentação durou 15 minutos, tempo consumido com o discurso e com uma conversa conduzida pelo presidente da instituição, professor Klaus Schwab. 

O discurso havia durado apenas 10 minutos, um recorde de concisão. Nessa fala, Bolsonaro falou sobre a redução de impostos e de entraves à atividade empresarial, temas importantes para os investidores, mas foi muito vago ao tratar de outros assuntos de peso, como o programa de reformas. Schwab tentou, com suas perguntas, conseguir mais detalhes, mas sem sucesso. 

Bolsonaro aproveitaria outras oportunidades, como encontros com empresários, para melhorar a comunicação e reforçar os atrativos para investidores. As manobras incluíram a improvisada marcação de uma entrevista coletiva no dia seguinte, com participação de alguns ministros. O ministro da Economia, já envolvido em vários encontros - aparentemente satisfatórios - com empresários e autoridades, teria um papel especial na entrevista. 

Antes do cancelamento, já havia ocorrido alterações dos planos. Em vez de ocorrer na sala destinada às entrevistas, o evento seria realizado numa sala menor, usada para briefings especiais e dotada de serviço de tradução simultânea. Isso compensaria as dificuldades de Bolsonaro com o inglês. Além disso, o presidente apresentaria apenas uma declaração, deixando aos ministros o jogo de perguntas e respostas. Enfim, o evento foi simplesmente cancelado.  

Nada se esclareceu sobre a justificativa da "abordagem antiprofissional da imprensa". Uma explicação extraoficial indicou o receio de perguntas sobre o envolvimento do senador eleito Flávio Bolsonaro, filho do presidente, com as movimentações financeiras de seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Já o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), alegou que o encontro com a imprensa foi desmarcado em razão do cansaço do presidente.

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