Roosevelt Cassio/Reuters
Roosevelt Cassio/Reuters

Embraer cai 5% após declaração de Bolsonaro sobre fusão com Boeing

Apesar de afirmar que a operação ‘seria muito boa’, o presidente da República levantou dúvida sobre a última proposta do acordo, citando preocupação com a proteção do patrimônio nacional

Felipe Frazão, Julia Lindner e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2019 | 13h43
Atualizado 04 Janeiro 2019 | 20h46

BRASÍLIA - As ações da Embraer lideraram na sexta-feira, 4, as quedas da B3, a Bolsa paulista, com retração de 5,1%, após o presidente Jair Bolsonaro declarar preocupações sobre o acordo fechado pela companhia com a americana Boeing.

Depois da cerimônia de posse do novo comandante da Aeronáutica, na Base Aérea de Brasília, Bolsonaro afirmou, em breve entrevista a jornalistas, que, segundo a última versão do contrato, informações tecnológicas podem ser repassadas à empresa de aviação americana. O presidente não detalhou que tipo de dados poderiam ser acessados, mas falou em proteção do patrimônio nacional.

“Seria muito boa essa fusão, mas não podemos... Como está na última proposta, daqui a cinco anos, tudo pode ser repassado para o outro lado. A preocupação nossa é essa. É um patrimônio nosso, sabemos da necessidade dessa fusão, até para que ela (Embraer) consiga competitividade e não venha a se perder com o tempo”, afirmou.

A Embraer aceitou vender 80% de sua divisão de aviação comercial, a principal da empresa, para a Boeing. Um dispositivo do acordo permite que a fabricante de aeronaves brasileira possa mais adiante vender os 20% restantes à companhia americana. O governo de Michel Temer via essa cláusula com restrições, pois a participação na área comercial – a mais lucrativa – é importante para a manutenção do braço de defesa, que apresenta resultados mais modestos.

O acordo, que já elevou o valor da divisão comercial da Embraer de US$ 4,75 bilhões para US$ 5,26 bilhões, envolve ainda uma parceria da Embraer com a Boeing para comercialização do cargueiro brasileiro KC-390, mas exclui os negócios da empresa brasileira nas áreas de aviação executiva e de defesa.

“Os comentários do Bolsonaro pesam um pouco. Qualquer ruído ou preocupação com a última proposta de fusão mexem na ação, embora não atrapalhem (o acordo)”, disse o analista da Guide Investimentos Rafael Passos. “Não vejo nenhum motivo para ele barrar a operação, mas é um ruído que mexe no (preço do) papel.”

No fim do ano passado, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) derrubou uma segunda liminar que suspendia a negociação.

Mudança

Essa foi a primeira vez em que Bolsonaro hesitou em relação ao acordo. Em novembro, o então presidente eleito afirmou ser favorável à venda da companhia brasileira. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, também no fim do ano passado, havia comentado que o aval à transação poderia sair rapidamente. A afirmação foi feita ao Estado após o documento com detalhes do acordo ser entregue pelas empresas ao Palácio do Planalto, em 17 de dezembro. “O negócio pode ser decidido de comum acordo (entre o então presidente Michel Temer e Bolsonaro, que ainda não havia assumido o cargo). Se os dois conversarem e concordarem. Aí, já podem fechar isso”, disse Mourão à época.

Segundo fontes próximas à negociação, a Embraer esperava que o aval fosse dado ainda por Temer. Do lado da Boeing, a aposta era que só sairia no governo Bolsonaro. Executivos da companhia brasileira, porém, têm mantido contato com a equipe do novo presidente desde as eleições. Até agora, a empresa não foi informada de nenhum entrave na avaliação do governo, apurou o Estado. Procuradas, Embraer e Boeing não comentaram o assunto.

Dono de uma ação especial na Embraer, a chamada “golden share”, o governo federal tem até 16 de janeiro para chancelar o acordo. Depois, a venda ainda precisa ser aprovada por acionistas e órgãos antitrustes. Há uma preocupação com possíveis complicações no tribunal da China. No Brasil, nos EUA e na Europa, a tendência é que o aval saia rapidamente.

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