REUTERS/Amanda Perobelli
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'Bolsonaro está apaixonado pela reforma da Previdência? Claro que não', diz Guedes

Ministro da Economia prevê aprovação até julho e diz que parlamentares não desejam estar com essa pauta a um ano das eleições municipais

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 12h18

WASHINGTON - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta quinta-feira, em Washington, que a reforma da Previdência deve ser aprovada até 1º de julho. A uma plateia de investidores, articuladores com o Congresso americano e integrantes de organismos internacionais, Guedes não especificou se a data prevista engloba a aprovação nas duas Casas ou apenas na Câmara. Segundo ele, os parlamentares “espertos” não desejam ter esse tema para discutir a um ano das eleições municipais, que acontecerão em outubro de 2020.

Ele foi confrontado sobre o fato de o presidente Jair Bolsonaro usar o perfil no Twitter com intensidade, mas dar pouco destaque à Previdência em suas publicações. “O presidente votou contra a reforma muitas vezes”, disse Guedes. “É de coração? Ele está apaixonado pela reforma? Claro que não”, afirmou o ministro da Economia no Brookings Institute, um think tank em Washington. Guedes chegou ontem à noite à capital americana para encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para Guedes, apesar de ter votado contra a reforma quando esteve no Congresso, Bolsonaro tem “qualidades decisivas para liderança”. “Ele é transparente, resiliente, aceita apoiar algo que não gostaria, mas entende ser necessário. Ele não é um homem falso”, disse o ministro. Segundo ele, Bolsonaro “brinca” que as mulheres poderiam inclusive se aposentar com 20 anos de idade. “Ele (Bolsonaro) brinca e fala “olha por mim, as mulheres poderiam se aposentar com 20 anos de idade. 'Eu acho que elas merecem. É só uma piada'. Mas é como ele se sente sobre a reforma”, afirmou Guedes.Em sua apresentação, Guedes disse para os investidores: "não se sintam preocupados e nem lamentem por nós. Estamos avançando."

Parte das críticas à reforma da Previdência apresentada ao Congresso se concentra na questão da aposentadoria das mulheres. Atualmente, a diferença na aposentaria por idade de trabalhadores urbanos é de cinco anos entre homens e mulheres. Pela proposta de reforma apresentada pelo governo Bolsonaro, a diferença é reduzida para três anos.

Guedes fixou como piso uma economia de R$ 1 trilhão com os gastos com previdência, mas foi questionado em Washington sobre a possibilidade de o Congresso aprovar uma reforma que gere uma economia de R$ 600 a R$ 800 bilhões. O ministro da Economia, então, minimizou a importância das projeções publicadas na imprensa e afirmou que a mídia também indicou que Bolsonaro não ganharia a eleição em 2018. “Vamos supor que eles estejam certos dessa vez e vá de R$ 600 a R$ 800 bilhões. É muito mais do que o último governo propôs, o que significa que, financeiramente, nós vamos sobreviver”, disse Guedes.

Segundo ele, contudo, se a economia ficar abaixo do projetado pelo governo, não será possível pensar na transição para o regime de capitalização. “Os brasileiros estão dizendo que não estão dispostos a se sacrificar pelas próximas gerações”, afirmou. Guedes voltou a falar, como fez em Nova York ontem, que tem apoio popular para a reforma. “Semana passada, em manifestações, para minha surpresa, um monte de gente dizia o meu nome. Eu estou me tornando popular por apoiar uma reforma social. Ou é algo de outro planeta ou sinal de maturidade. Eles entendem que podemos virar a Grécia ou Portugal”, disse Guedes, que afirmou ser “aplaudido nas ruas”.

Ele respondeu ainda que “98% dos encontros que teve em Brasília” sobre o assunto foram bem sucedidos. Há uma semana, Guedes protagonizou um embate com parlamentares na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, na qual caiu na provocação do deputado Zeca Dirceu (PT-PR) que o acusou de ser "tigrão" com os aposentados, idosos de baixa renda e agricultores, mas "tchutchuca" com privilegiados do Brasil.

Ao defender reformas fiscais, Guedes disse que “conceitualmente” adoraria fazer o que a ex-primeira ministra Margaret Thatcher fez no Reino Unido ou o que os “Chicago boys” fizeram no Chile. O ministro da Economia é oriundo da escola neoliberal de Chicago. “Nós precisamos de alguns 'Chicago boys', precisamos mudar a economia para uma economia aberta e de mercado”, disse Guedes.

O ministro da Economia afirmou ainda que o Brasil tem uma economia tão fechada que “nós nem ouvimos o barulho de uma guerra comercial”. Investidores e economistas acompanham o posicionamento do governo Bolsonaro em meio à guerra comercial entre Estados Unidos e China. Guedes já afirmou que o País não irá deixar de comerciar com os chineses ou receber investimentos da China.”Nós comerciamos com a China e com os EUA”, repetiu Guedes.

O ministro repetiu que as prioridades do “caminho para a prosperidade” incluem a reforma da previdência, as privatizações e “desinflar” o setor público ao evitar abrir mais concursos públicos. “É tudo sobre trajetória e, depois, reduzir os impostos e simplificar os impostos”, afirmou Guedes.

Sobre a reforma tributária, Guedes afirmou que a ideia é fazer a mudança em nível federal para dar “exemplo” aos Estados e municípios. Nesta quinta-feira, o Estado antecipou detalhes da estratégia de reforma tributária do governo, que prevê trocar até cinco tributos federais por uma única cobrança. Os tributos que devem ser fundidos em um só são o PIS, Cofins, IPI, uma parte do IOF e talvez a CSLL.

'Não lamentem'

Em Nova York, Guedes já havia ressaltado a investidores que a democracia do Brasil não corre riscos. O mesmo discurso foi adotado pelo ministro da Economia em Washington. Ele mencionou os impeachments dos ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff e disse que instituições funcionaram nos casos de presidentes de direita e de esquerda. “Não há e não haverá ameaça à democracia”, afirmou Guedes.

“Não lamentem por nós, temos uma democracia muito vibrante e um governo de centro direita, não há problema”, disse Guedes. “Não se sintam preocupados, não lamentem e não se sintam tristes sobre o caminho em que estamos indo. Nós estamos avançando. Os perdedores na eleição deram uma impressão muito errada, mas nós somos muito construtivos”, repetiu Guedes. Segundo ele, o Brasil avançou nos anseios de uma democracia emergente, após o fim do regime militar, mas fez uma “transição incompleta” no campo econômico, o que deverá ser corrigido agora.

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