Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Bolsonaro opta pelo confronto e pela ruptura

O presidente é incapaz de coordenar a guerra contra a pandemia do novo coronavírus

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 19h00

A irresponsabilidade do presidente Bolsonaro manifestada no pronunciamento de terça-feira em rede nacional não está nas teses subjacentes que defende ou ataca, mas no seu comportamento, que desorganiza e divide, e na sua incapacidade de coordenar a guerra contra a pandemia.

O ponto de vista dele, de acabar com o isolamento (lockdown) e de reabrir imediatamente as escolas e o comércio, chegou a ser inicialmente adotado pela Inglaterra. Mas os resultados dessa abordagem foram tão desastrosos que seus dirigentes tiveram de voltar atrás. Também o presidente Trump, dos Estados Unidos, assopra o mesmo trombone. Avisou que tudo deve voltar à normalidade na Páscoa da Ressurreição (dentro de 18 dias), justamente quando, pelas advertências do governador de Nova York, Andrew Cuomo, os serviços de saúde do seu Estado deverão entrar em colapso.

Essa estratégia, de deixar rolar a pandemia e de deixar que os mortos enterrem seus mortos, só poderia dar certo se o Brasil adotasse a política da Coreia do Sul, de aplicar testes em massa para, aí sim, isolar os infectados – e apenas eles – e deixar que a vida siga. Mas não temos essa possibilidade. Só haverá testes para cerca de 9% da população.

A contradição maior não está fora do governo, nem entre o governo e os governadores, nem mesmo entre o governo e outros políticos. A contradição maior está dentro do governo. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, está sendo publicamente desautorizado. Falta saber por que ainda não foi demitido ou por que ainda não pediu demissão, em nome de um mínimo de coerência entre políticas.

A situação é esquizofrênica e a esquizofrenia em matéria de políticas públicas leva à desarticulação e ao pandemônio. Se há uma estratégia nesse comportamento do presidente é a de aproveitar o caos que daí adviesse para seus já conhecidos propósitos autoritários.

Mesmo se estivesse correto no tratamento dispensado ao flagelo, o capitão não poderia ridicularizar as famílias que enfrentam mortes e graves contaminações por obra de um reles agente disseminador de “gripezinhas” e “resfriadinhos”, como ele vem afirmando, especialmente em quem não é “atleta”, como ele próprio se considera.

Mesmo se ele estivesse correto na escolha da estratégia de combate à pandemia, é condenável sua atitude de tentar jogar a população contra os governadores por ele acusados de adotar a política do povo cita, de terra arrasada. Em vez de liderar a classe política na tentativa de encontrar a melhor saída para a crise, Bolsonaro ataca também a classe política. Ele insiste que as recomendações dadas pelo seu próprio ministro da Saúde não passam de “histeria” provocada pela imprensa e por alguns epidemiologistas, com o único fim de derrubá-lo e de montar seu próprio jogo de poder. Foi o recado que passou pessoalmente nesta quarta-feira ao governador de São Paulo, João Doria: “Saia do palanque”.

Não dá nem mesmo para dizer que, bem ou mal, Bolsonaro optou por uma resposta técnica, embora não fosse a defendida pela Organização Mundial da Saúde, nem pela comunidade dos epidemiologistas, nem pelo seu próprio ministro da Saúde. Ele está desesperado porque perdeu a âncora dos bons resultados da economia e não tem outra para apresentar em seu lugar. É a mesma síndrome que vai ameaçando a sobrevivência política de Trump, com a diferença de que as eleições presidenciais nos Estados Unidos se realizarão dentro de oito meses, e as do Brasil, só dentro de dois anos e meio.

O que fazer com um despreparado que só escuta um bando de malucos e que aposta na polarização, na ruptura, no colapso das políticas públicas e nas saídas autoritárias, e não na união nacional, para enfrentar o novo perigo para salvação do povo e da coisa pública?

Os panelaços vistos desde a semana passada podem apontar para uma resposta para esta pergunta.

CONFIRA

» Por que esconder os laudos?

Se os testes de coronavírus do presidente Bolsonaro apresentaram resultados negativos, por que esconder os laudos?

» Operação ocultamento

O Hospital das Forças Armadas, onde Bolsonaro fez os testes, omitiu dois nomes de pacientes infectados. Há dois dias, o presidente editou medida provisória que proíbe repartições públicas de divulgar informações sobre o estado de saúde de seus pacientes. Reforça-se a hipótese de que esteja contaminado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.