Dida Sampaio/Estadão
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Bolsonaro perde a âncora da economia

Num momento em que o País precisa de confiança e de liderança, o capitão do barco ignora a tempestade

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 19h33
Atualizado 18 de março de 2020 | 21h13

O presidente Bolsonaro está desesperado porque contava com a aprovação de seu governo a partir do sucesso da economia, que ele julgava favas contadas. Imaginava que poderia ostentar neste ano crescimento do PIB de pelo menos 2,0% e, assim, arrancar legitimação para si próprio e para os candidatos que apoiará nas eleições de outubro.

Mas o presidente já não pode contar com a âncora econômica. Quem projeta crescimento zero para este ano pode estar sendo otimista demais. Mais provável é que o País mergulhe na recessão. De que amplitude será essa queda é coisa sujeita a todo tipo de aposta.

Se os shoppings começam a fechar, se o comércio não essencial vai cerrar as portas e se as vendas no varejo de produtos essenciais serão racionadas, como já decidiram o Pão de Açúcar e o Carrefour, como ficará o comércio, o setor de serviços e o resto? Parece inevitável algum socorro às companhias aéreas e à rede de hotelaria.

Nesta quarta-feira, o Banco Central derrubou os juros básicos (Selic) em mais meio ponto porcentual, para os 3,75% ao ano. Não será decisão que expandirá o consumo. Sua função real será proporcionar espaço financeiro para alívio dos endividados, especialmente para as empresas que poderão, assim, renegociar seus passivos em melhores bases. Fica a dúvida se um corte maior dos juros faria diferença.

Também é decisão que tem lá certo impacto fiscal, na medida em que poderá derrubar as despesas com juros do passivo do Tesouro em alguma coisa próxima dos R$ 8,5 bilhões por ano, nos “cálculos conservadores” do economista Fabio Klein, da Tendências

Consultoria. Como, no entanto, as despesas com os juros da dívida federal não sangram o caixa, porque são incorporadas à dívida, não haverá por isso alívio imediato nas finanças públicas.

Mais importante do que esse tombo dos juros para patamares inéditos seria a decisão de irrigar a economia com liquidez, como estão fazendo todos os bancos centrais das maiores economias do mundo, providência ainda não tomada. Nessa calamidade pública, talvez seja a hora de colocar em prática a recomendação do economista Milton Friedman: “despejar dinheiro de helicóptero”, como fizeram os grandes bancos centrais durante a crise financeira do subprime, em 2008.

Os compromissos financeiros atingem a todos num ambiente de queda abrupta de faturamento e de renda. Estamos numa economia de guerra, cuja prioridade é conter a pandemia. Os inevitáveis efeitos colaterais ficam para serem contra-atacados quando der.

A principal questão política está em aberto. Se Bolsonaro não pode mais contar com a economia, como tentará garantir apoio para seguir adiante? Também não pode sair vitorioso contra o vírus, porque desdenhou da pandemia e nega compulsivamente os fatos. Num momento em que o País precisa de confiança e de liderança, o capitão do barco ignora a tempestade. Agora vai levando panelaços, fator decisivo na queda da presidente Dilma. 

Confira

» O petróleo afunda

O gráfico mostra a derrubada das cotações do petróleo apenas em março. Nesta quinta-feira, o tipo Brent, que serve de parâmetro para os preços do petróleo brasileiro, chegou à mínima de US$ 24,52 por barril, mas fechou a US$ 26,79. Não dá para saber qual o fundo desse poço. A economia mundial está parando e o consumo de energia, também. A Petrobrás já reduziu em 30,1% os preços da gasolina e em 29,1% os do diesel, cobrados na refinaria. Esses novos patamares não chegaram aos postos.

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