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Bolsonaro pode ter mais ganhos na China do que nos EUA

Acordo de livre-comércio com o Brasil não está entre as prioridades do governo americano

Claudia Trevisan*, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 04h00

O raivoso anticomunista Jair Bolsonaro iniciará hoje sua primeira visita à China, a nação governada pelo maior e mais longevo Partido Comunista do mundo. Se abandonar a lente ideológica que turva sua visão de mundo, o presidente brasileiro poderá obter benefícios econômicos mais imediatos para o Brasil do que as vagas promessas feitas por Donald Trump no encontro que ambos tiveram em março na Casa Branca.

O principal objetivo de Bolsonaro deve ser a atração de investimentos chineses, em particular no setor de infraestrutura. O Brasil já ocupa uma posição de destaque na alocação de recursos de empresas do país asiático no exterior. 

No período de 2005 a 2018, o Brasil foi o quinto maior destino de investimentos chineses, à frente de Canadá e Alemanha e atrás apenas de Estados Unidos, Austrália, Inglaterra e Suíça, de acordo com o China Global Investment Tracker, do American Enterprise Institute.

Os aportes perderam fôlego no ano passado, em meio à campanha eleitoral no Brasil e à redução global de investimentos chineses no exterior, decorrentes da imposição de medidas de controle da saída de capitais do país. Bolsonaro deveria usar sua visita a Pequim para demonstrar que o Brasil continua aberto a recursos dos chineses.

Em 2015, os dois países lançaram o Fundo de Cooperação Brasil-China para Expansão da Capacidade Produtiva, que demandou três anos para ser estruturado. Os recursos devem ser aplicados no Brasil, mas até hoje nenhum centavo de seus US$ 20 bilhões (R$ 82,6 bilhões) foi desembolsado. 

Perfil dos investimentos. Brasília também deve se empenhar para mudar a natureza dos investimentos chineses e estimular sua destinação a novos projetos – e não apenas a aquisições de empreendimentos já existentes. Os dados do China Global Investment Tracker indicam que os chamados investimentos “greenfield” representaram menos de 10% dos US$ 57 bilhões destinados por companhias chinesas a atividades no país desde 2005.

Para algumas empresas, o Brasil é a prioridade. A State Grid, maior companhia de energia elétrica do mundo, colocou 50% de seus investimentos no exterior no Brasil, onde tem sua maior operação fora da China. No caso da China Three Gorges, outra estatal do setor elétrico, os investimentos no Brasil representam 18% do total. Para a petroleira Sinopec, o porcentual é de 16%.

A visita à China é a expressão concreta dos limites econômicos e políticos do desejo de Bolsonaro de alinhar o Brasil aos Estados Unidos. O país ganharia com a aproximação, mas o desejo de caminhar nessa direção não é correspondido na mesma intensidade pelos americanos. 

Integrantes do governo Trump deixaram claro a emissários de Bolsonaro que o início de negociações de um acordo de livre-comércio com o Brasil não está entre as prioridades da administração americana. Tudo indica que nada acontecerá nessa área antes da eleição presidencial de 2020. O cumprimento da promessa de apoiar a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi deixado para um futuro incerto.

Além disso, o fato de a China ser o destino de 76% das exportações de soja brasileiras e de 30% das de carne transformou a bancada ruralista no Congresso em um poderoso lobby a favor de boas relações com Pequim. Depois de Bolsonaro fazer juras de amor aos EUA e atacar a China durante a campanha ao Palácio do Planalto, representantes do setor se mobilizaram para baixar o tom da retórica do presidente eleito com o apoio da esmagadora maioria dos produtores rurais.

A guerra comercial deflagrada por Trump contra a China aumentou ainda mais a importância do país asiático para os exportadores de soja brasileiros, que viram seus embarques aumentarem em 20% no ano passado em consequência de barreiras impostas por Pequim à soja americana. Em julho, a China abriu seu mercado de leite a produtores brasileiros. Na visita de Bolsonaro, o governo de Xi Jinping deverá ampliar a entrada de carne brasileira em seu país.

O país asiático não é só o principal destino das exportações brasileiras. É também uma fonte crescente de investimentos, tendo rivalizado na última década com tradicionais investidores no Brasil, em especial os Estados Unidos.

O Boletim de Investimentos Estrangeiros – Países Selecionados, elaborado pelo Ministério da Economia, mostra que os Estados Unidos lideraram os investimentos no Brasil no período de 2003 ao segundo trimestre de 2019, com US$ 81,6 bilhões, o equivalente a 33% do total. Os chineses ficaram quase empatados, com US$ 79,7 bilhões (32%) – o levantamento abrange período maior que o do China Global Investment Tracker e usa metodologia distinta. A China tem capacidade de financiamento e vasta expertise nessa área. Cabe a Bolsonaro convencê-los de que sua retórica anticomunista não levará a decisões que discriminem o capital chinês.

*PESQUISADORA NÃO RESIDENTE DO INSTITUTO DE POLÍTICA EXTERNA DA ESCOLA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS AVANÇADOS DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS, EM WASHINGTON

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