Paulo Lopes/AFP - 7/9/2021
Paulo Lopes/AFP - 7/9/2021

Bolsonaro poderia ter usado as manifestações para aumentar o apoio da sociedade

Ao priorizar conflitos, presidente gerou forte deterioração do ambiente interno e colocou o Brasil muito próximo de uma crise entre os Poderes

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 04h00

As manifestações do dia 7 de setembro foram um grande sucesso se vistas do ponto de vista da participação popular. Milhares de pessoas foram às ruas nas principais cidades do País (Brasília, São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, entre outras), portando bandeiras do Brasil e camisas verde e amarela. Ao contrário do que muitos esperavam, membros das Polícias Militares não se envolveram, as manifestações foram pacíficas e os receios de que a multidão pudesse invadir prédios dos Poderes Judiciário e Legislativo não se concretizaram.

Em lugar de utilizar esta grande capacidade de mobilização popular para aumentar o apoio da sociedade, o presidente utilizou as manifestações para reforçar o conflito com membros do Supremo Tribunal Federal (STF). Os duros discursos do presidente, com ataques diretos ao ministro Alexandre de Moraes, em especial a afirmação de que não vai cumprir decisões do ministro, deram o tom do confronto. Ao priorizar o confronto com o STF, o presidente deslocou o foco da atenção do sucesso das manifestações para o conflito institucional, gerou forte reação negativa tanto dos partidos políticos quanto da imprensa tradicional e do próprio STF, e transformou o “day after” das manifestações em um cenário fortemente negativo para si próprio. 

As demandas pela abertura de um processo de impeachment aumentaram. Entretanto a grande presença de público nas manifestações diminui significativamente a probabilidade de que isto venha a acontecer, na medida em que mostra que, ao contrário do que muitos acreditavam, ele tem ainda bastante apoio popular e continua sendo personagem importante no cenário político/eleitoral. 

Os principais atores políticos entenderam este recado. O presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, responsável pela abertura de processos de impeachment do presidente da República, indicou isto claramente com um pronunciamento apaziguador. No pronunciamento, divide as responsabilidades pela crise entre o presidente Bolsonaro e o STF, não menciona a possibilidade de impeachment e afirma que o dia 3 de outubro de 2022, data das eleições presidenciais, é a próxima data a ser monitorada. Por outro lado, mostrou-se irritado com a insistência do presidente com a questão do voto impresso, assunto que, segundo ele, já foi superado pela Câmara. O presidente do Senado e do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, foi na mesma direção.

A decisão de priorizar o conflito gerou forte deterioração do ambiente e colocou o País muito próximo de uma crise institucional entre os Poderes, com desfecho de difícil previsão. Questões como: Qual o próximo passo do presidente? Como vão ficar as relações entre o presidente e o Congresso? Como vão se comportar os ministros do STF envolvidos? O que significa a afirmação de que não vai cumprir uma decisão do ministro Alexandre de Moraes? A extensa pauta econômica em votação no Congresso (BR do mar, ferrovias, mercado de câmbio, privatização dos Correios, reforma administrativa, reforma tributária, entre outros temas) vai ter andamento? E a questão dos precatórios, como será resolvida? São perguntas difíceis de responder neste momento.

E, mais uma vez, o presidente voltou a surpreender ao divulgar uma nota na tarde de quinta-feira onde diz respeitar as instituições da República, sinaliza uma trégua na escalada das tensões contra o ministro Alexandre de Moraes e reconhece que a forma adequada de reagir a decisões judiciais que considera equivocadas é recorrer ao próprio Judiciário. Um sinal promissor. Porém, a pergunta permanece: será uma mudança definitiva ou teremos retrocessos ao longo do caminho? A imprevisibilidade continua. E imprevisibilidade gera incerteza e incerteza gera aumento dos juros, desvalorização cambial, menos crescimento e mais inflação. É fundamental tornar o governo mais previsível.

*PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO (APOSENTADO), É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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