Ueslei Marcelino/Reuters - 11/03/2022
Ueslei Marcelino/Reuters - 11/03/2022

Bolsonaro admite que tentou interferir em preços da Petrobras

Presidente disse que soube com antecedência do reajuste dos combustíveis anunciado na semana passada pela estatal; ele defendeu privatização da estatal

Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2022 | 14h45
Atualizado 16 de março de 2022 | 16h33

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro assumiu nesta quarta-feira, 16, que soube com antecedência do mega-aumento dos combustíveis anunciado na semana passada pela Petrobras, e que pediu à estatal para atrasar a medida em um dia - ou seja, para depois da votação do projeto que faz alterações na tributação sobre os combustíveis para tentar aliviar a alta de preços, embora não tenha sido atendido. 

“Chegou para nós que eles iriam ajustar na quinta-feira da semana passada. Foi feito pedido para que deixasse para o dia seguinte, atrasasse um dia, não nos atenderam”, declarou o presidente . “Por um dia, a Petrobras cometeu esse crime contra a população, esse aumento absurdo. Ação governamental não é interferir na Petrobras, é bom senso”, defendeu. 

A ideia do governo era deixar o reajuste para depois da votação do projeto, que alterou a cobrança do ICMS sobre o diesel e o gás de cozinha pelos Estados. De acordo com o presidente, sem o atraso, o reajuste da Petrobras chegou às bombas antes da diminuição dos impostos e onerou o consumidor. 

Na quinta-feira, 10, diante do aumento na cotação do petróleo no mercado internacional, reflexo da guerra na Ucrânia, a Petrobras anunciou reajuste de 18,8% para a gasolina e de 24,9% para o diesel.

Bolsonaro ainda voltou a cobrar a Petrobras por redução no preço dos combustíveis para se alinhar à recente queda do petróleo no exterior. “A Petrobras vai reduzir o aumento absurdo concedido na semana passada ou tá muito bom para vocês da Petrobras?”, alfinetou o chefe do Executivo. “O grande problema do Brasil e do mundo é o preço dos combustíveis, o resto a gente está fazendo a nossa parte.”

A Petrobras pratica a chamada paridade de preços, ou seja, paga pelo produto o preço cobrado no mercado internacional e, por isso, repassa eventuais altas para refinarias, o que leva ao aumento de preços para o consumidor final.

Bolsonaro volta a falar em demissão de presidente

O presidente voltou a considerar a hipótese de demitir o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna. “Existe a possibilidade, todo mundo pode ser substituído se não estiver fazendo trabalho a contento ”, declarou Bolsonaro nesta quarta-feira, 16, em entrevista à TV Ponta Negra, afiliada do SBT no Rio Grande do Norte. “Todos podem ser trocados por falha ou omissão.”

A declaração vem em meio às tensões entre governo e Petrobras após o reajuste dos combustíveis anunciado pela estatal na semana passada, que tem o potencial de prejudicar a imagem do presidente em ano eleitoral.

“Petrobras se transformou em Petrobras Futebol Clube, clubinho que só pensa neles, jamais no Brasil, até mesmo repasse para o gás de cozinha, impensável, fizeram também”, disse na entrevista, gravada no Palácio do Planalto e exibida nesta quarta.

“Para mim, é uma empresa que poderia ser privatizada hoje”, acrescentou, reassumindo a tentativa de livrar o governo do ônus político do reajuste. “Não posso interferir. Se pudesse interferir, as decisões seriam outras.”

Por outro lado, Bolsonaro destacou que Silva e Luna está “amarrado em legislação”. Como mostrou o Estadão, o presidente vem sendo aconselhado pelos principais ministros a manter o general à frente da Petrobras para não fazer uma troca "sem efeito algum", já que o eventual substituto não teria autonomia para mudar a política de preços da petroleira.

Ministros alertaram o presidente que a saída do general só gera ruídos e seria inócua para a redução do preço dos combustíveis nas bombas. Nas palavras de um ministro, seria o mesmo que trocar o seis por meia dúzia.

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