Tiago Queiroz/Estadão
Itaipu produziria 400 mil ton/ano de tilápia, segundo relatório do governo. Tiago Queiroz/Estadão

Bolsonaro quer criar tilápia em Itaipu, mas peixe pode acabar com espécies nativas

Plano do governo de fazer criadouros em lagos de usinas gera apreensão entre os cientistas, que veem risco para as espécies que ainda resistem nos rios; governo refuta e diz que tilápia não é ameaça

André Borges, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - O plano do governo Jair Bolsonaro de transformar as represas de 73 hidrelétricas do País em grandes criadouros artificiais de peixe, a maioria deles para tilápia, um peixe exótico que tem suas origens na África e no Oriente Médio, fez acender um alerta entre ambientalistas e cientistas que estudam o tema. 

O maior receio é de que o peixe, que hoje está presente em boa parte das bacias hidrográficas do País, acabe comprometendo outras espécies nativas que ainda resistem nos maiores rios brasileiros, apesar destes terem sido barrados pelas usinas.

Das 73 barragens selecionadas, 60 preveem a criação de tilápia. Outros 13 reservatórios – dos quais seis estão na Amazônia – seriam usados para criação de peixe nativo, ou seja, de uma espécie natural daquele rio.

O governo refuta cada um dos riscos colocados pelos especialistas e afirma que possui estudos técnicos suficientes para demonstrar que a tilápia não é uma ameaça, que não se adapta às profundidades comuns aos grandes reservatórios e que não é um predador de nenhuma espécie brasileira.

Na terça-feira, 8, Bolsonaro e Jorge Seif Júnior, secretário nacional de pesca e aquicultura do Ministério da Agricultura, foram às redes sociais para afirmar que o governo está próximo de viabilizar o cultivo da tilápia no lago de Itaipu, hidrelétrica binacional que forma um reservatório de 1.350 quilômetros quadrados, na fronteira com o Paraguai.

“O Brasil possui 73 lagos de hidrelétricas sob administração federal que podem servir para o cultivo de até 3,9 milhões/ton/ano”, escreveu Bolsonaro. Seif Júnior complementou: “hoje, todo o Brasil produz 320 mil toneladas/ano. O potencial, somente de Itaipu, é de 400 mil ton/ano.”

A ideia, basicamente, consiste em lançar gaiolas em trechos dos reservatórios, estruturas conhecidas como “tanque-rede”, que ficam amarradas em boias. Dentro desses caixotes submersos, o peixe é criado desde a sua fase inicial de alevino até o momento de abate.

Riscos

Pesquisador do tema há 45 anos, Miguel Petrelli Júnior, professor do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Universidade Federal do Pará afirma que, na realidade, há uma série de riscos atrelados à criação em rios, mesmo que represados. Apesar de a tilápia não ser predadora, tampouco carnívora, é um peixe onívoro que se alimenta do que encontra pela frente. Como é de fácil adaptação e de rápida reprodução, acaba dominando a maior parte dos ambientes. “Em uma situação de escape desse peixe, essa consequência é clara”, diz Petrelli Júnior.

O especialista chama a atenção ainda para o uso de rios que formam esses reservatórios. “Em geral, os produtores colocam essas gaiolas nos braços do reservatório, que são as partes mais sensíveis. Com os dejetos do peixe, aumenta o volume de material orgânico, ampliando a formação de algas, roubando o oxigênio dos demais. Há clara deterioração do espaço ocupado”, explica.

Não é por acaso que, entre ambientalistas, a tilápia é chamada de o “eucalipto das águas”, por se adaptar facilmente a qualquer local, mas consumir a maior parte de seus nutrientes. “A tilápia chegou ao Brasil na década de 1950, para aumentar a psicultura na região Nordeste, levar mais proteína. Foi quando ela começou a descer e se espalhou pelo Brasil inteiro. A verdade é que se perdeu o controle, não se consegue mais erradicar”, avalia Petrelli Júnior, que nesta semana foi eleito um dos 100 mil pesquisadores mais influentes do mundo.

O governo contesta cada uma dessas afirmações e defende a criação da tilápia nos reservatórios, uma proposta que já foi tentada por diversas administrações, inclusive nos tempos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas que pouco avançou.

Ao Estadão, o secretário da Pesca, Jorge Seif Júnior, disse que, no ano passado, o governo deu início a uma série de estudos científicos, envolvendo técnicos e academia, para analisar o projeto em Itaipu e seu impacto ambiental. “A tilápia já está na maioria das bacias hidrográficas brasileiras, mas ela não se estabelece. Ela já tem uma característica de ser presa, e não predadora. Os relatórios mostram que ela não é uma ameaça para as principais espécies nativas brasileiras. Esse é o principal ponto. Nosso maior desafio era saber se seria uma ameaça ou não”, disse o secretário.

Seif Júnior afirma que os estudos comprovaram que a tilápia precisa de um ambiente específico para poder se produzir e que essas condições não são alcançadas em um lago profundo como o de Itaipu. “Independentemente de eventuais escapes, que podem realmente acontecer, ela vira presa na natureza e não consegue se reproduzir. Isso foi 100% superado por relatórios técnicos”, declarou. “As condições ambientais do reservatório não permitem isso. Região fria, reservatório profundo e substrato rochoso. Além disso, existe o esforço de pesca na região. Uma espécie com valor econômico sempre vai ser bem vinda na pesca.”

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Acordo para criar tilápia em Itaipu depende de aval do Congresso paraguaio

Legislação impede que espécie exótica seja criada no reservatório da usina; segundo secretário da Pesca, desafio é convencer o Paraguai de que não existe perigo na produção de tilápia no local

André Borges, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - O fato de o governo brasileiro querer usar o reservatório de Itaipu para criar tilápia não significa que a produção vai começar amanhã. Na realidade, a ideia conta apenas com o aval do governo paraguaio, mas ainda precisa passar pelo crivo do parlamento do Paraguai, porque há impedimento legal para criação de espécie exótica no reservatório. Assim como o Brasil divide com o Paraguai a energia da usina binacional, precisa de sua autorização para produzir peixes nas águas.

“Existem ainda algumas normas do Paraguai que precisam passar por mudança. Hoje há vedação na legislação. Nós já enviamos toda a documentação para eles, o governo do Paraguai está de acordo, dependendo agora do parlamento paraguaio”, disse o secretário da Pesca, Jorge Seif Júnior. “Comprovamos que não é uma ameaça às espécies nativas. Agora nosso grande desafio é convencer o parlamento paraguaio de que não existe perigo, mas sim uma oportunidade de cultivo.”

O secretário afirma que, caso a autorização não saia, o governo brasileiro poderá buscar produtores de outras espécies para explorar o lago. A tilápia é cobiçada pelo setor porque sua produção depende de pouca ração para que o peixe atinja a fase de abate.

O Paraná já é o maior produtor de tilápia do Brasil. O Estado, diz o secretário, tem uma cadeia comercial com produtores, indústrias, mão-de-obra, alevinos e fábricas de ração. “Precisava de um movimento do governo federal devido à demanda ser muito antiga e ter várias vedações que foram superadas. Outros reservatórios do Paraná já têm cultivo e não tinham essa complexidade de Itaipu. Há lagos adjacentes que criam e drenam para o lago de Itaipu há décadas e está provado que ali a tilápia não se estabelece, que não é uma espécie invasora ou predadora.”

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Governo quer usar seis reservatórios de usinas da Amazônia para criação de 'peixes nativos'

Segundo relatório, apenas em Belo Monte, seria possível produzir até 202 mil toneladas de peixe por ano; construção de hidrelétricas ajudou a acabar com as espécies dos rios

André Borges, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - Seis reservatórios da região amazônica já foram escolhidos pelo governo para instalação de milhares de gaiolas de criação de peixe. Nestes rios que foram embarreirados para geração de energia, seria liberada a criação de “peixes nativos”, ou seja, espécies encontradas na própria região.

Informações confirmadas à reportagem pela Secretaria de Pesca do Ministério da Agricultura apontam que os lagos escolhidos são os das hidrelétricas de Belo Monte, Balbina, Jirau, Santo Antônio, Samuel e Curuá-Una.

O governo já projeta, inclusive, um potencial de criação para cada reservatório. Belo Monte, que destruiu boa parte da condição natural de pesca do rio Xingu, conforme atestam diversos laudos técnicos do Ibama, teria capacidade de produção de até 202 mil toneladas de peixe por ano, segundo o relatório do governo. No rio Madeira, os lagos de Jirau e Santo Antônio estão projetados para entregar 415 mil e 422 mil toneladas por ano, respectivamente.

A hidrelétrica de Balbina tem projeção de produzir 26,3 mil toneladas por ano, seguida por Samuel, com 8,3 mil e Curuá-Una, 1,8 mil toneladas. Segundo o secretário da pesca, Jorge Seif Júnior, não há autorização nem planos para colocar tilápia nestes reservatórios.

A realidade é que a construção em si de cada uma dessas hidrelétricas acabou com boa parte das espécies que habitavam suas águas antes de as usinas chegarem. Isso acontece porque o rio, depois de barrado, se transforma em outro tipo de habitat. As águas, mais paradas nos reservatórios, afastam várias espécies acostumadas com corredeiras.

Usinas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio possuem uma estrutura conhecida como “escada de peixe”, basicamente um canal de concreto que simula obstáculos para que os peixes que estão abaixo da barragem passem por ali e sigam rio acima. Muitas espécies, porém, morrem após essa subida. Isso ocorre porque, para fazer essa travessia, os peixes se esforçam e demandam muito oxigênio. Quando chegam no reservatório, porém, exaustos após a subida, encontram uma água parada do lago, com baixo índice de oxigênio.

Segundo os dados que a Secretaria de Pesca recebeu da Agência Nacional de Águas (ANA), as 73 barragens teriam capacidade de produzir 3,883 milhões de toneladas de peixes por ano. Destas 73, 60 teriam criação de tilápias e mais uma espécie nativa. Outra 13 seriam usadas apenas para espécies nativas.

“Na parte amazônica, não se tem ideia de cultivar nenhuma espécie exótica. Podemos até cultivar, mas não espécie exótica, mas sim nativas, que já é uma realidade de produção na região”, diz o secretário da pesca, Jorge Seif Júnior. “A Amazônia tem um grande potencial para produção de peixes como tambaqui, pirapitinga, matrinxã, entre outros. Não existe liberação por parte do Ibama para produção de peixes exóticos nesta bacia.”

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