Bolsonaro quinta-coluna de si próprio
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Bolsonaro quinta-coluna de si próprio

O objetivo do presidente é se reeleger, mas ele continua agindo contra si mesmo e provocando mais instabilidades

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 19h57

Jogo contra e traição existem desde que gente virou gente. Na Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939) ganhou a versão da quinta-coluna, aquela que trabalha no meio dos aliados, como se fosse aliada, para fazer o jogo do inimigo. Mas fazer o jogo contra si mesmo é mais raro. O presidente Jair Bolsonaro parece ser um desses casos.

Seu objetivo estratégico é se reeleger. Mas trabalha contra si mesmo. Um dos seus instrumentos eleitorais é a reedição do Bolsa Família, agora com outro nome: Auxílio Brasil. A medida populista destina-se a amolecer o coração do eleitor mais pobre. Mas, ao elevar seu valor de R$ 300 para R$ 400, fura o teto dos gastos e provoca goteira de cerca de R$ 30 bilhões.

Embora nesta quarta-feira Bolsonaro tenha dito que não haverá furo do teto, não se sabe de que cartola sairá essa mágica. O mercado financeiro mostrou de imediato as consequências: aumento das incertezas e da desconfiança, disparada do índice de risco Brasil, puxada nas cotações do dólar, fuga dos investidores e perdas multibilionárias na Bolsa brasileira (B3). Somente a Petrobras perdeu R$ 17,89 bilhões em valor de mercado na última terça-feira.

Para não ir mais longe, a alta do dólar produz a disparada em reais dos produtos cotados em moeda estrangeira, como os dos combustíveis e dos alimentos.

Há 10 meses, os preços do petróleo saíram dos US$ 50 e já passaram dos US$ 85 por barril (159 litros), o que não tem a ver com Bolsonaro. Tem a ver com a aplicação da lei da oferta e da procura. A princípio ninguém acreditou nas previsões dos que cravaram esses US$ 80 para acontecerem a curto prazo. Agora, os mesmos analistas projetam o barril a US$ 100. Quando isso acontecer e se, por conta das lambanças do governo, o dólar, que nesta quarta-feira fechou acima dos R$ 5,55, estiver, digamos, à altura dos R$ 6, para quanto irá a gasolina, cujos preços já levam um atraso de cerca de 10%? Irá para R$ 10 por litro? E a inflação e os juros passarão a quanto? E como ficarão os investimentos e o desemprego?

Nessas condições, a inflação se encarregará de esmerilhar tanto o poder aquisitivo do trabalhador quanto o novo Auxílio Brasil. O programa eleitoreiro tende a ficar ainda mais furado do que o furo no teto. Daí seu quinta-colunismo contra si próprio. É o que tenta mostrar-lhe a área econômica do governo.

Nesta quarta-feira, o presidente Bolsonaro expôs sua falsa comiseração quando afirmou que “seria extremamente injusto deixar 17 milhões de pessoas com valor tão pouco no Bolsa Família”. No entanto, o aumento da desconfiança na política econômica não se dá porque o “mercado” e seus endinheirados são contra o reparo de uma injustiça, mas porque esse reparo será feito com ainda maior desestruturação das contas públicas. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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