Joédson Alves/EFE
Joédson Alves/EFE

Bolsonaro sinaliza possibilidade de retorno do horário de verão

Presidente disse que, mesmo sendo contra, se a população mudar de opinião sobre a medida, ele 'segue a maioria'; Ministério de Minas e Energia pediu que o ONS atualize os estudos sobre os efeitos do mecanismo no consumo de energia

Matheus de Souza, Sofia Aguiar e Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 12h17
Atualizado 02 de agosto de 2021 | 17h44

SÃO PAULO e BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro deu nesta segunda-feira, 2, a primeira sinalização de que pode voltar a implementar o horário de verão para lidar com a crise hídrica do País. Em entrevista à Rádio ABC de Novo Hamburgo (RS), ele afirmou que, mesmo sendo contra a medida, se a população mudar de opinião sobre o tema, ele "segue a maioria". "Se a maioria da população quiser a volta, eu posso fazer isso aí."

Bolsonaro disse que vai falar com uma rádio que "ouve quase sempre", para que a emissora faça uma pesquisa com seus ouvintes e veja a "vontade popular" em relação ao tema, e sugeriu que a rádio local de Novo Hamburgo faça a mesma coisa. De acordo com o presidente, a falta de apoio popular seria um dos motivos que pesam contra a retomada da medida, já que, até o momento, ele vê que a maioria da população continua contrária à implementação do horário de verão. 

"No momento, eu sei que para alguns setores aumenta o faturamento, porque as pessoas ficam mais tempo aí frequentando o comércio, isso a gente pesa aqui também. Mas no momento não tem clima, apoio popular, para a gente voltar o horário de verão", disse.

O horário de verão foi extinto por Bolsonaro em abril de 2019. O estudo usado como argumento pelo governo apontava que mudanças nos hábitos do consumidor e o avanço da tecnologia reduziram a relevância da economia de energia com a medida ao longo dos anos, principalmente pela popularização dos aparelhos de ar condicionado.

A declaração do presidente vem logo após o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmar que não havia nenhum movimento para o retorno do horário de verão no País. Contudo, pressionado pela crise hídrica e por diversos setores, o governo decidiu reavaliar os impactos do horário de verão. Segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Carlos Ciocchi, o MME pediu ao órgão que atualizasse os estudos sobre os efeitos do mecanismo no consumo de energia.

 O coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, discorda da sugestão feita pelo presidente. Para ele, retomar o horário de verão por um viés “populista”, por meio de enquete, não faz o menor sentido. “Para nós se trata de questão técnica. Ou seja, qual o ganho que o horário de verão trará no momento de crise hidrológica. Então quem deve decidir e analisar isso é o Ministério de Minas e Energia, o ONS, as principais associações de geradores, e das distribuidoras, que podem avaliar com muito mais precisão e objetividade essa decisão”, afirmou. Diferentemente da posição do governo, o grupo avalia que a medida pode trazer alguma contribuição para aliviar o consumo de energia nos momentos com maior demanda.

 Sócio da consultoria financeira Inter.B, Cláudio Frischtak, tem avaliação semelhante. Ele afirmou que não se pode definir políticas públicas com base em opiniões populares, por mais que sejam importantes. “Uma pesquisa de opinião, por melhor desenhada que seja, não pode ser guia para o desenho e implementação de política pública. Tem que ser guiado com base em evidências. Acho que isso é um fato que nós não fizemos no passado e levou a prejuízos enormes para a população e para o País”, disse.

“Em 2019, quando foi determinado que não haveria horário de verão, falou-se em pesquisa de opinião. Não sabemos exatamente qual a natureza dessa pesquisa, como foram as perguntas. O primeiro problema é o desenho, a qualidade da pesquisa de opinião. O segundo é que ainda que a opinião pública seja importante, não pode guiar uma política pública. As pessoas estão informadas para responder?”, disse.

 O economista ressaltou que diversos pontos devem ser considerados na discussão da retomada do horário, como o impacto na violência, nos serviços e comércios e no consumo de energia elétrica. “O horário de verão é uma sinalização nesse sentido [de conscientização da população sobre uso de energia] também. Tem que aproveitar e dizer que uma das razões para o horário de verão é que estamos no meio de uma crise de energia e que nada nos assegura que ano que vem vai estar melhor”, disse.

Bolsonaro voltou a descartar a possibilidade de racionamento de energia elétrica neste ano, segundo ele, em virtude da diversidade de matriz energética no País, mas declarou: "Quem, porventura, estiver com uma luz acesa a mais na sua casa, por favor, apaga essa luz, lá na ponta da linha, vai fazer a diferença". E finalizou: "Peço a Deus que nos ajude mandando água para o Brasil". 

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