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Bolsonaro tenta carimbar marca de guerreiro contra dragão da alta dos preços de alimentos

O presidente está construindo narrativa no momento em que a população mais pobre verá o valor do auxílio emergencial ser reduzido à metade, de R$ 600 para R$ 300

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 11h52
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 18h57

O presidente Jair Bolsonaro diz que não vai dar uma “canetada” para intervir na alta dos preços dos alimentos, mas está conseguindo estrategicamente se colocar para a população como um “guerreiro” em combate contra o dragão da inflação

Ao mesmo tempo em que busca mostrar ação ao zerar a tarifa de importação para o arroz, o presidente vilaniza os donos de supermercado e os produtores ao mandar o Ministério da Justiça disparar notificações pedindo explicações pela alta de preços.

Nenhum desses dois movimentos vai resolver no curto prazo o problema. O aumento da demanda interna e externa, o dólar favorável para as exportações e o auxílio emergencial impulsionaram a subida dos preços.

Fatores que não vão mudar de um dia para o outro. Muito menos com a abertura da importação. O presidente, que gosta de dizer que não entende nada de economia, também sabe disso e faz um jogada política muito bem calculada com um dos temas mais caros para o brasileiro.

Bolsonaro está construindo uma narrativa que muito lhe ajuda no momento que a população mais pobre que recebe o auxílio emergencial verá o valor do benefício ser reduzido à metade, de R$ 600 para R$ 300.

Uma transição que ameaça a sua popularidade conquistada com a liberação do auxílio. Se colar a ideia de protetor contra os preços, só tem a ganhar.

São as pessoas mais pobres que mais sentem a inflação e que estão vendo o dinheiro que recebem comprar menos comida.

Não à toa já se fala em aumentar a parcela do auxílio enquanto o Renda Brasil não sai do papel. Tem gente no governo que defende até mesmo estendê-lo aos primeiros meses de 2021.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não perdeu a chance de cutucar. Disse na quarta-feira, 9, que pesquisa nas suas redes sociais mostraram que 82% das pessoas responderam que queriam a permanência do valor de R$ 600.

Não se pode esquecer que 2020, mesmo com pandemia da covid-19, é ano de eleição. Em 2014, num passado não muito longe e também de eleições, o tema era a subida do preço da carne que atormentava o governo com as críticas da oposição em período eleitoral.

Na época, com o índice oficial (IPCA) em 6,75% em 12 meses, o governo recomendou aos brasileiros que trocassem a carne bovina por ovo e aves. Atualizamos agora, com IPCA acumulado em 2,44% em 12 meses, com a recomendação para trocar o arroz pelo macarrão

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