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Bolsonaro vai a Washington

Espera-se que o presidente do Brasil e Trump não falem em mais armas para a população, proibição de aborto e direitos dos LGBTs

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h00

O tão anunciado encontro está para ocorrer. Bolsonaro vai finalmente reunir-se com Trump na Casa Branca. O terreno foi preparado pelo chanceler Araújo em reuniões com o secretário de Estado Pompeo. Mas Trump, em meio a amargos tuítes após o primeiro veto imposto para impedir seu adorado muro, pode muito bem decidir abandonar o roteiro. Não seria a primeira vez que faz isso.

Espera-se que eles não falem em mais armas para a população, proibição de aborto e direitos dos LGBTs, temas que ambos abraçam. Mesmo paralelos com laços mais estreitos para proteger as famílias de palpiteiros devem ficar fora da agenda, bem como a propensão para limitar o acesso a informações reais. Já existe consternação suficiente com o recente massacre de muçulmanos na Nova Zelândia por outro defensor da supremacia branca.

Política exterior é uma óbvia área potencial de sobreposições, e eles podem começar por aí. A ânsia de se tornar uma nação líder continua influenciando o Brasil, como ocorreu frequentemente no passado, tanto com governos militares quanto civis. Apesar da importância econômica internacional do Brasil, a tradição grociana no Itamaraty enfatiza a independência nacional, com ligações mais próximas com a periferia por meio do Brics e outras associações transnacionais e regionais visando a conter o poder dos EUA. 

Agora, em meio à tragédia venezuelana, o Brasil parece mais pronto que nunca a desempenhar um papel maior, talvez até uma atuação militar, para pôr fim ao reinado de Maduro. O vice-presidente Mourão já disse que não há nenhuma disposição para se ir tão longe. Isso é muito diferente do que pensam alguns ativistas no governo brasileiro. Jerusalém já foi reconhecida como capital de Israel. Há uma planejada visita a Netanyahu antes da eleição israelense.

Bolsonaro vai em breve à China, o que é importante para o Brasil por duas razões. Uma é a posição do País como fornecedor de commodities; outra é o fracasso dos planos da Embraer. A China está desenvolvendo o próprio setor industrial, o que leva ao risco de ela tornar mais competidora que colaboradora garantida. Poderia Trump usar Bolsonaro para aumentar a pressão sobre os chineses, visando assegurar concessões aos EUA, ou tentaria Bolsonaro integrar o Brasil a uma região ainda em expansão substancial, embora mais lenta que antes?

A Economia é outra área em que o Brasil espera se beneficiar. Uma expansão futura mais rápida, requerendo grandes importações de bens de capital, não traz preocupações imediatas porque esse crescimento combina como mercantilismo de Trump.

O Brasil precisa muito de investimentos nos próximos anos, em infraestrutura, energia, mineração e outras atividades, tendo em vista seu grande mercado interno, espera que isso produza avanços tecnológicos. Mas essa abertura não pode excluir as muitas vantagens de maior globalização e mercado para as exportações brasileiras.

Importações apenas não vão resolver o problema. A tecnologia tem de melhorar internamente, permitindo ao Brasil um papel maior em novas especializações que vão muito além da histórica e excessiva de dependência de carros subsidiados. O País deve entrar decisivamente no campo da eletrônica, biotecnologia e outras áreas nas quais a capacidade brasileira pode levá-lo a ocupar seu lugar no mundo.

Abrindo parênteses: os erros já encontrados na área da educação, especialmente na educação secundária, são perturbadores. Ideologia não leva a aprendizado adequado.

Os dois líderes compartilham e têm um interesse limitado em mudanças climáticas. O governo brasileiro, em lugar de continuar a exercer um papel positivo e significativo, está seguindo a linha de Trump.

Existem seguramente conquistas a destacar. Os esforços para se forjar uma aliança militar mais estreita trazem algumas vantagens conjuntas. Deve-se também enfatizar as visitas regulares entre ministros. Esse comprometimento, claro, é um mecanismo que proporciona poucos ganhos reais. Isso ficou patente em uma aliança anterior, nos anos 1970. Ela teve poucas consequências quando logo em seguida surgiu o problema da dívida. Quem sabe desta vez será diferente.

Talvez agora Trump garanta ao Brasil o direito de ser membro não do Conselho de Segurança da ONU, mas do grupo internacional criado pelos Estados Unidos para premiar aliados próximos. A Argentina foi agraciada em 1998, após uma década de compromissos militares e diplomáticos entre os dois países. Hoje, poucos se lembram da existência desse grupo. /TRADUÇÃO ROBERTO MUNIZ

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