Bom para o País e ruim para o futebol

Receita na conta do Banco Central no primeiro trimestre com a 'exportação' de jogadores foi de US$ 79 milhões

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2015 | 02h05

Há décadas o futebol brasileiro enfrenta um círculo vicioso que parece sem fim. Jogadores são revelados, os passes se valorizam, e os clubes brasileiros - quase sempre com as finanças no vermelho - vendem as suas estrelas para fazer caixa e pagar as dívidas.

Essa rotina se tornou bastante cruel para um país aficionado por futebol. As partidas nacionais perdem qualidade e resta aos torcedores acompanhar os jogadores pela televisão, embora alguns dos atletas sejam negociados com equipes que disputam campeonatos sem nenhuma visibilidade.

Mas na economia - bem longe do futebol - o êxodo de jogadores brasileiros pode ser comemorado. A venda de atletas significa uma ajuda - ainda que bastante modesta - para o setor externo, o que é fundamental num momento em que o déficit em transações correntes está elevado e a equipe econômica luta para reduzi-lo.

No primeiro trimestre, a receita registrada na conta capital do Banco Central com a venda de atletas somou US$ 79 milhões, e as despesas - ou seja, o total pago pelos clubes brasileiros nos passes dos jogadores - foram de US$ 13 milhões. Entre saídas e chegadas, os atletas colaboraram com um saldo de US$ 66 milhões entre janeiro e março.

No resultado agregado do setor externo, quando se computam outros indicadores, como a conta financeira, além da conta capital, o Brasil registrou um déficit nas transações correntes de US$ 5,7 bilhões em março. Em 12 meses, o saldo está negativo em US$ 101,6 bilhões, o equivalente a 4,54% do PIB (Produto Interno Bruto). Para analistas, um déficit acima de 4% do PIB indica uma alta necessidade de financiamento externo.

A expectativa do mercado financeiro é que os esforços do governo tenham resultado e o déficit diminua neste ano por dois grandes fatores: a desvalorização do real pode reduzir o ímpeto dos gastos dos brasileiros no exterior, e a recessão prevista para 2015 tende a reduzir a importação.

"Com a recessão, o País importa menos. E eventualmente pode sobrar um pouquinho mais (de produtos) para exportar. A indústria automobilística, por exemplo, está fazendo um esforço enorme para exportar mais porque o mercado interno travou", afirma Simão Silber, professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Impacto nas equipes. A última Análise Econômico-Financeira dos Clubes de Futebol Brasileiros feita pelo Itaú BBA mostrou que a receita obtida pelos principais clubes com a venda de atletas foi de R$ 661 milhões em 2013. O valor tem crescido nos últimos anos, embora varie bastante para cada clube. Em 2010, somou R$ 251 milhões.

Os recursos originários com a transação de atletas foram em 2013 a segunda principal fonte de ganho das equipes. Os direitos de televisão lideraram e responderam por R$ 1,129 bilhão. "A receita com a venda de atleta é muito importante porque é um adicional às receitas recorrentes das equipes", afirma Cesar Grafietti, gerente de crédito do Itaú BBA e responsável pela análise.

Nos clubes brasileiros, os recursos obtidos com as transferências de jogadores nem sempre são utilizados da melhor maneira possível. As equipes acabam utilizando o dinheiro para pagar os custos recorrentes, enquanto deveriam empregá-lo na contratação de novos atletas ou no investimento na categoria de base. "Os clubes precisam vender jogador na medida em que ele gasta mais do que as receitas recorrentes sustentam os custos recorrentes", afirma Grafietti. "As equipes deveriam enxergar a receita com a venda de atletas como uma fonte para comprar outros jogadores ou investir na base. A administração não pode pensar nesse dinheiro como um recurso que vai cobrir a folha de pagamento", afirma.

Mais conteúdo sobre:
Economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.