Bomba-relógio argentina

Para a Argentina, não há outra solução a não ser acelerar o ajuste fiscal

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2018 | 05h00

Após o estresse agudo na semana passada, quando o Banco Central não somente realizou uma venda recorde de dólares para evitar a depreciação acelerada do peso argentino como também elevou os juros em 3 pontos porcentuais para 30,25%, numa decisão que pegou os investidores de surpresa, a situação na Argentina é descrita como muito preocupante.

Na semana passada, o BC vendeu US$ 4,34 bilhões. Desde o janeiro, a intervenção no mercado de câmbio já soma US$ 6,8 bilhões.

O ritmo de venda de dólares acendeu um sinal amarelo entre os investidores diante do baixo nível de reservas internacionais. Nos cálculos dos economistas do Itaú Unibanco, as reservas líquidas da Argentina estão ao redor de somente US$ 33 bilhões.

Se, após essa venda recorde de dólares e elevação surpreendente dos juros básicos, a cotação do peso continuar perdendo valor ante o dólar de maneira acelerada, as opções do governo argentino para lidar com a crise podem se esgotar. Quanto mais o BC argentino pode subir os juros básicos sem asfixiar a atividade econômica ou vender dólares diante das baixas reservas?

No acumulado deste ano, o peso argentino se desvalorizou mais de 10% em relação ao dólar. Nos últimos 12 meses, o peso já perdeu mais de 33% do seu valor. Na semana passada, o dólar chegou a ser cotado a 20,90 pesos.

A pressão de alta do dólar não deriva somente do ambiente global mais adverso aos países emergentes como um todo, com a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos, o temor de uma guerra comercial ou a tensão geopolítica mundial.

Boa parte da desvalorização do peso reflete no recente círculo vicioso em que a economia argentina se encontra: crescente déficit em conta corrente (4,8% do Produto Interno Bruto), inflação alta (estimada em mais de 20% neste ano) e elevada proporção da dívida denominada em moeda estrangeira (70% da dívida pública total).

A vulnerabilidade externa da Argentina é crítica: nos cálculos do banco BNP Paribas, a dívida em moeda forte equivale ao redor de 275% das reservas internacionais líquidas. Desvalorização adicional do peso ante o dólar só faz piorar essa conta. “O que o BC argentino está tentando evitar é um ‘overshooting’ (alta desordenada e rápida) do dólar”, diz o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos.

Para ele, é preciso todo o cuidado do BC argentino na dosagem da alta de juros e da venda de dólares para que o investidor estrangeiro posicionado hoje na dívida pública, especialmente a de vencimento em curto prazo, não perca a confiança na situação macroeconômica da Argentina e deixe o país.

“Da América Latina, a Argentina é hoje o país mais vulnerável a um choque de sentimento do investidor”, diz Ramos. “Não há outra solução a não ser acelerar o ajuste fiscal, pois o déficit fiscal na Argentina resulta em desequilíbrio macroeconômico de curto prazo grande, aliás muito maior do que no Brasil, em razão da forma como o governo argentino financia esse déficit hoje, via empréstimos externos em bilhões de dólares.”

No ano passado, o déficit fiscal superou 6% do PIB. Neste ano, a estimativa é que fique ao redor de 5%. “A Argentina está numa armadilha: devido à dominância fiscal, só há duas saídas: um anúncio unilateral de ajuste fiscal adicional e/ou uma depreciação significativa do peso”, escrevem os analistas do BNP Paribas em nota a clientes.

Por enquanto, em razão da inflação crescente, a desvalorização real (descontada a inflação) do peso argentino ante o dólar ainda não chega a ser tão mais acima do que o dólar andou frente a outras moedas, como o real brasileiro.

Segundo Ramos, do Goldman Sachs, o peso ainda está 15% sobrevalorizado em relação ao dólar. Ou seja, ainda há espaço para o dólar subir ante o peso.

O problema é que o BC argentino está contra a parede: se deixar de vender dólares para preservar suas reservas internacionais ou de subir mais juros para não sufocar a economia, o peso desaba, tornando sua dívida externa mais salgada e puxando a inflação para cima.

Por outro lado, a intervenção cambial e o aperto dos juros não passarão de um alívio temporário se não houver um ajuste fiscal draconiano. Mas o efeito colateral pode ser uma recessão.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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