Imagem Suely Caldas
Colunista
Suely Caldas
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Bons na bola, não na economia

Eles têm Messi e nós, Neymar. Se proclamam Maradona respondemos com Pelé. Em 19 Copas do Mundo (esta é a 20.ª) por cinco vezes trouxemos a taça, eles, duas. Também em número de partidas somos vencedores: disputamos 99 vezes e eles, 70. Brasil e Argentina são bons no campo e rivais na torcida. As duas seleções estão entre as melhores do mundo e nesta Copa o Brasil persegue o hexacampeonato e a Argentina o tri. Mas se a bola rola na economia a história é outra, muito diferente: os dois países protagonizam um campeonato às avessas - o dos perdedores.

SUELY CALDAS, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2014 | 02h06

Na economia há muitas semelhanças e algumas diferenças entre os dois países. Para começar são os únicos no continente sul-americano governados por mulheres. Cristina Kirchner chegou ao poder na carona do marido, Nestor Kirchner; Dilma Rousseff, na de Lula. Novatas, não traziam sabedoria e experiência política acumuladas pela indiana Indira Gandhi, a israelense Golda Meir, a inglesa Margaret Thatcher ou a alemã Angela Merkel. Cristina foi "vendida" pelo marido como continuísta na gestão, Dilma também, agregando um trunfo que virou fiasco: é boa gerente e habilidosa planejadora, apregoava Lula. Na verdade, as duas não trouxeram planos nem programas de governo, perderam-se em ações e decisões ideológicas fracassadas e, em vez de corrigir o que estava errado e seguir, descambaram para o abismo em estilo - mais desarvorado do que pensado - que combina concentração de poder, interferências desastradas do Estado na economia e vivem apagando incêndios que surgem aqui e ali.

Na Copa dos derrotados da América do Sul, Argentina e Brasil só são superados pela Venezuela, campeão dos campeões, que vive uma recessão econômica intensa, desemprego, inflação anual de 70%, crise de desabastecimento (sobretudo de alimentos) e a riqueza do petróleo desperdiçada, escorrendo pelo ralo. Mas a Argentina está à frente do Brasil: em 2014 ergue a taça de crescimento nulo, inflação de 30%, desemprego em alta, consumo em queda, desinvestimento, empresas fazendo as malas, fugindo do câmbio engessado, entre elas Petrobrás e Vale.

O Brasil, que já integrou o grupo dos bem-sucedidos Brics, inverteu a mão, deu marcha à ré, se distancia do grupo: este ano seu Produto Interno Bruto (PIB) deve oscilar entre 0,5% e 1,5% (muito abaixo da média de 4,8% esperada para países emergentes), a inflação ameaça ultrapassar o teto da meta de 6,5%, juros nas alturas que freiam o desenvolvimento, gastos do governo em disparada, produção e emprego industrial em queda, recuo da taxa de investimento para 17,7% do PIB (cada vez mais longe dos 25% prometidos por Dilma), déficit externo ascendente, empresas estatais - Petrobrás e Eletrobrás sobretudo - em declínio.

As semelhanças mais evidentes brotam do plano político. A banalidade da corrupção nos governos dos dois países cria ambientes perversos, contaminados, descontrolados e de impunidade, em que funcionários do governo e de empresas estatais nada temem e se sentem à vontade para praticar ilícitos. No Brasil um funcionário que ficou oito anos na direção da maior empresa do País é preso e tem retido US$ 23 milhões em bancos suíços. Na Argentina o vice-presidente da República suspeito de corrupção é interrogado pela Justiça durante seis horas, volta ao gabinete e continua decidindo e assinando atos importantes para o futuro do país.

Além disso, Cristina e Dilma têm em comum o jeito autoritário de lidar com adversidades. Se a realidade é desfavorável, dá-se um jeito: Cristina falsifica indicadores econômicos, Dilma maquia contas públicas, ambas mudam regras, intervêm na economia para tentar consertar erros e se destrambelham, colhem falta de confiança, e investimentos privados não acontecem.

O Brasil, pelo menos, produziu resultados positivos na área social: a taxa de desemprego permanece baixa, melhorou a distribuição de renda, pobres ascenderam à nova classe média, têm computador e carro. É certo que não sabem até quando manterão o emprego com o investimento em queda, mas não é pouco o conquistado. Já a Argentina nada tem para contar.

É JORNALISTA E PROFESSORA DE

COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO.

E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.