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BOOM DO GÁS DE XISTO AJUDOU ECONOMIA DOS EUA A CRESCER

Cinco anos depois da crise, descoberta levou o país a liderar produção mundial

CLAUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE , CARRIZO SPRINGS, TEXAS, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h10

Como para muitos americanos, 2008 foi o pior ano para Jeff Myers, que decidiu pôr à venda o rancho de caça que tinha havia 30 anos. Na mais severa recessão desde 1929, matar animais por esporte estava no topo da lista das despesas a serem cortadas por seus clientes. A crise também afugentou potenciais compradores e Myers ainda era dono do negócio em 2010, quando a revolução do gás e petróleo de xisto pôs seu rancho no centro da versão contemporânea da corrida do ouro americana.

Quase da noite para o dia, seu "Double C Resort" se transformou em alojamento para alguns dos milhares de homens que chegaram para trabalhar na perfuração e exploração de poços que se multiplicam no Eagle Ford Shale - uma das seis principais reservas de xisto do país.

O boom levou os Estados Unidos a liderar a produção mundial de gás em 2013, à frente da Rússia. No ano passado, a Agência Internacional de Energia estimou que o país vai ultrapassar Rússia e Arábia Saudita e se tornar o maior produtor de petróleo do mundo em 2016, algo impensável até então.

A revolução energética derrubou o preço doméstico do gás natural e contribuiu para o crescimento da economia, por meio do barateamento do custo da energia, investimentos bilionários e a criação de uma cadeia de fornecedores de bens e serviços para as empresas de petróleo e gás.

Dono de três das seis principais áreas de xisto dos EUA, o Texas cresceu 4,8% em 2012, quase o dobro da média nacional de 2,8% naquele ano. O índice só foi inferior aos 13,2% de Dakota do Norte, cuja expansão também é impulsionada pela revolução energética.

"Muitos dos meus clientes de caça eram do setor do petróleo. Em 2010, eles me disseram 'construa que nós viremos'. E eles vieram", lembra Myers. Seu primeiro contrato foi de US$ 1 milhão, usado para comprar 42 trailers que acomodaram os forasteiros enquanto novas casas eram levantadas.

Em dois anos, o número de quartos de seu rancho passou de 14 para 300. Pelo menos mais 200 começarão a ser construídos neste ano. Myers diz que seu faturamento médio anual saltou de US$ 1,6 milhão, antes da crise, para US$ 6 milhões.

O rancho está em Carrizo Springs, que há três anos era uma sonolenta cidade de 5,5 mil habitantes. Hoje, ela abriga cerca de 13 mil pessoas. As ruas e estradas que quase não viam carros são agora cortadas dia e noite pelo incessante movimento de caminhões que transportam água, areia, produtos químicos, petróleo e gás.

Os que chegaram ficarão por pouco tempo ou enquanto durar o boom do xisto. Grande parte vive em trailers ou casas móveis espalhados em terrenos vazios de Carrizo Springs. São homens que deixaram suas famílias em casa e levam a vida provisória típica dos mineiros.

Ninguém sabe quanto tempo a bonança vai durar, mas é certo que ela será mais breve que a da exploração tradicional de petróleo e gás. O início da produção do xisto é rápida, mas sua vida útil é curta. As projeções oficiais indicam que o pico virá em 2020. A partir daí, a curva deve começar a cair, a menos que uma nova tecnologia permita expansão adicional da extração.

"Quanto tempo? Já ouvi 5 anos e já ouvi 20 anos. Se durar 7, eu pago todo o meu investimento", diz Gustavo Jimenez, dono de uma frota de nove caminhões pesados que atendem a indústria do petróleo na região. Cada um deles custou entre US$ 200 mil e US$ 300 mil.

Terceiro Gustavo a comandar o negócio fundado por seu avô mexicano há 40 anos, Jimenez quase quebrou em 2010. Mas, como muitos no Texas, foi salvo pelas reservas de xisto. Seu faturamento passou de US$ 450 mil para US$ 1,3 milhão no ano passado.

A receita tributária do condado de Dimmit, cuja capital é Carrizo Springs, também foi impulsionada pelo boom energético. A arrecadação do imposto sobre vendas no varejo saltou de US$ 360 mil, em 2009, para US$ 8,73 milhões no ano passado. O impacto econômico pode ser medido ainda pelos royalties pagos aos donos das terras onde os poços são perfurados. Estudo divulgado em 2012 pelo Federal Reserve de Dallas, Texas, estimou de maneira conservadora que a compensação já somava US$ 7,5 bilhões desde 2007.

O direito de explorar os recursos minerais nos EUA não pertence ao Estado, como no Brasil, mas ao dono da terra, explica o diplomata brasileiro Roberto Ardenghy, que trabalhou na Agência Nacional de Petróleo e hoje chefia o setor comercial do consulado brasileiro em Houston. Segundo ele, é um modelo existente em poucos países, entre os quais Canadá e Austrália.

A paisagem do boom do xisto é fragmentada, com milhares de poços em diferentes propriedades na aridez do sul do Texas. Depois que a produção começa, as torres para perfuração são retiradas e ficam as estruturas para separação e armazenamento de água, petróleo e gás.

A chegada de milhares de forasteiros aumentou o movimento do restaurante mexicano Don Pedro, aberto em 2006 por Joe Carmona, que todos os dias fica no caixa recebendo o pagamento das refeições. Segundo ele, o número de clientes mais que triplicou desde 2010.

Mas a corrida ao petróleo e gás também inflacionou os preços na região, elevou os índices de criminalidade e aumentou o número de acidentes de trânsito, diz o xerife do condado de Dimmit, Marion Boyd, no cargo há 14 meses. "Quando assumi, tínhamos 15 policiais. Agora são 31, mas nunca será suficiente."

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