Fernando Amorim/Divulgação
Estima-se que faturamento de todas as atividades relacionadas ao setor mineral no País registre recorde este ano Fernando Amorim/Divulgação

‘Boom’ do minério impulsiona receita de empresas e destrava investimentos

Com crescimento da demanda global, preço do produto no exterior se aproxima do pico histórico e aumenta ganhos de mineradoras brasileiras; receita do setor deve dar salto de 29% e bater em R$ 270 bi, enquanto pequenos grupos puxam novos projetos

Vinicius Neder e Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2021 | 05h00

RIO - O “boom” das cotações internacionais do minério de ferro, na esteira das perspectivas de recuperação da economia global, tem impulsionado o faturamento do setor no Brasil e levado mineradoras de pequeno e médio portes a tirar da gaveta antigos projetos de investimento. Em cidades como Itabirito e Nova Lima, no chamado quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, os reflexos positivos também podem ser vistos na abertura de novos empregos, na contramão da maioria dos municípios do País. O que economistas consultados pelo “Estadão” discutem é se esse movimento, ainda isolado, terá força para puxar a economia como um todo.

“Temos sinais positivos de que devemos ter um período bastante interessante para a mineração. É o (pacote de investimentos do presidente dos Estados Unidos, Joe) Biden, é a China preocupada em manter o crescimento da economia e o Brasil também se recuperando”, afirmou o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Flávio Ottoni Penido. No caso do Brasil, a previsão é de maior demanda por produtos derivados do minério principalmente na construção civil, com a expectativa de avanços no controle da pandemia.


A estimativa da entidade é que o faturamento de todas as atividades relacionadas ao setor mineral no País registre recorde histórico neste ano, com um valor entre R$ 260 bilhões e R$ 270 bilhões. Em relação aos números do ano passado, o salto será de até 29%. Só a Vale, líder do setor, já embolsou US$ 5,5 bilhões no primeiro trimestre.

Por trás dessas cifras, está uma combinação dos sonhos para qualquer mineradora. Com o crescimento da demanda, as exportações brasileiras de minério de ferro devem chegar a inéditos US$ 41,2 bilhões em 2021, pelas contas da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Maior demanda também tem significado preços mais altos pelo produto. A cotação média por tonelada do minério de ferro bateu em US$ 189 no fim de abril, próxima do pico histórico de 2008 (US$ 196) nesse mesmo tipo de comparação.

A leitura do mercado é de que as cotações tendem a se manter em patamar elevado, pelo menos no médio prazo, até porque não existe nenhum projeto de grande porte para aumento de produção prestes a sair. O próprio Ibram calcula que o preço médio por tonelada não ficará fora da faixa entre US$ 130 e US$ 140 neste ano – uma estimativa assumidamente conservadora.

Investimentos

Para o período de 2021 a 2024, o Ibram mapeou 92 projetos de investimento, em 81 cidades de 14 Estados, que deverão aportar US$ 38 bilhões. O montante tem se mantido estável nos dois últimos trimestres, que coincidem com o salto recente nas cotações. Aí já estão incluídos recursos para mitigar impactos ambientais, tanto por causa da cobrança de investidores quanto como uma resposta ao rompimento de barragens em Mariana (MG) e Brumadinho (MG). São US$ 2,2 bilhões só para soluções relacionadas a rejeitos.

Os investimentos já foram de US$ 75 bilhões no ciclo 2012-2016, quando um megaprojeto da Vale no Pará ainda estava em curso. Grandes projetos de mineração levam de sete a dez anos para saírem do papel. Desta vez, os investimentos são mais modestos e liderados por empresas de pequeno e médio portes, cujos projetos levam em torno de dois anos para maturar. 

A expectativa, porém, é que, mantido o cenário favorável nos próximos anos, os preços mais elevados tornem rentáveis projetos de investimento com maior custo de produção, que exigem receita maior para ficarem de pé. “Com esse preço do minério, qualquer custo se viabiliza, mesmo com a logística, que é cara”, afirma Clóvis Torres, sócio do escritório Souza, Mello e Torres. O especialista, que foi diretor executivo e consultor geral da Vale por sete anos, até o início de 2018, complementa que “as próprias grandes mineradoras perceberam que não é do interesse delas aumentar em demasiado a produção.”

Reflexos

Apesar de todos os ganhos na cadeia em torno do minério de ferro, ainda há dúvidas se esse movimento terá fôlego para puxar outros setores da economia brasileira, diante de incertezas como a condução da vacinação contra covid-19 no País e a explosão de gastos públicos, com reflexos para a política monetária e fiscal. 

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) e sócio da consultoria BRCG, Lívio Ribeiro afirma que o desempenho do setor externo ainda pesa pouco no Brasil e a indústria extrativa – dividida meio a meio entre a mineração e a exploração de petróleo – responde por apenas 2,9% da economia. A mineração empregava cerca de 187 mil trabalhadores no início do ano, segundo o Ibram. “A alta das cotações deixa segmentos e empresas mais ricos, mas não dá para dizer que isso está passando para a sociedade como um todo”, diz Ribeiro. “Ainda não é um movimento estrutural, é mais um choque”, complementa Mauro Ferreira, professor de economia da UFMG.

Conforme o economista sênior da LCA Consultores Bráulio Borges, nos ciclos de altas de preços das commodities, os países exportadores costumam se beneficiar de efeitos indiretos importantes. Entre eles, nas economias com câmbio flutuante, o dólar cai quando os preços das matérias-primas sobem. Isso torna o país mais “rico” ante as outras nações, favorece investimentos em maquinário importado e amortece a transmissão da alta de preços de matérias-primas para a inflação doméstica.

O problema é que o dólar subiu de patamar no Brasil durante a crise atual. Descolado das moedas de outros emergentes, o real segue depreciado, mesmo com o boom de preços de commodities, pressionando a inflação por aqui. Economistas têm listado vários fatores para explicar o fenômeno, como o elevado desequilíbrio das contas públicas, a tendência de alta na dívida pública, as crises políticas em torno do governo federal, o nível historicamente baixo dos juros básicos e o descontrole no enfrentamento da pandemia.

“Se os efeitos indiretos não funcionam, o impacto positivo do ciclo de alta de preços das commodities é mitigado”, diz Borges.

Apesar disso, as projeções coletadas pelo Banco Central (BC) na edição mais recente do boletim Focus apontam para exportações de US$ 230,1 bilhões este ano e superávit histórico de US$ 59 bilhões na balança comercial. Com isso, deverá haver superávit no balanço de pagamentos – que engloba todas as trocas com o exterior. Segundo Borges, isso não gera crescimento econômico, mas permite atrair recursos de investidores externos e acumular mais reservas cambiais. Também gera uma pressão para a queda do dólar no futuro. Sem reservas e com elevada dívida externa, diante do desequilíbrio fiscal, a crise poderia ser bem pior no Brasil. / COLABOROU FERNANDA GUIMARÃES

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Mercado vê valor de até R$ 858 bi para Vale na Bolsa

Para analistas, há espaço para novos ganhos com ações da empresa, na esteira do avanço do preço do minério; em um ano, alta é de 160%

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2021 | 05h00

A Vale atingiu na semana passada um feito histórico, ao cravar um valor de mercado próximo de R$ 600 bilhões na B3, a Bolsa paulista, consolidando a posição de empresa mais valiosa da América Latina. Beneficiada pela explosão do preço do minério de ferro, seu produto carro-chefe, a empresa brasileira aparece quase R$ 120 bilhões à frente do gigante do e-commerce argentino Mercado Livre, segundo ranking da consultoria Economática. Em um ano, as ações da Vale mais do que dobraram de valor – com alta de 160%. E não devem parar por aí. Na avaliação de analistas, há espaço para novos ganhos.

Atualmente, o preço das ações da Vale está em torno de R$ 110, ainda longe do chamado preço-alvo de até R$ 158 projetado pelo mercado no fim deste ano. Essa projeção considera as perspectivas futuras de ganho de receita da empresa, com base num cenário de cotações do minério de ferro ainda em elevação.

Se a conta se confirmar, os papéis da Vale na B3 teriam ainda potencial para avançar até 43% no ano, levando seu valor de mercado total para cerca de R$ 858 bilhões (a preços de hoje). Entre as instituições que apostam em novas valorizações, estão o JP Morgan (preço-alvo de R$ 158) e as corretoras Ágora e XP, com R$ 133 e R$ 122, respectivamente (ver quadro nesta página).

Esses números aparecem depois de a empresa se ver envolvida em dois casos de rompimento de barragens – Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019 –, que deixaram centenas de mortos e prejuízo ambiental ainda difícil de mensurar. Só no caso de Brumadinho, a Vale fechou acordo na Justiça de Minas Gerais para pagar indenização ao poder público de R$ 37,68 bilhões. A cifra não inclui ações individuais. Os dois episódios também mexeram com a confiança de investidores estrangeiros que têm se pautado pela agenda ESG (sigla em inglês para ações nas áreas ambiental, social e de governança).

“A Vale ainda está percorrendo esse caminho para retomar a confiança de alguns investidores mais focados em ESG”, afirmou o analista do setor de mineração do Itaú BBA, Daniel Sasson. Depois da apresentação do balanço da empresa no 1.º trimestre – com lucro líquido de US$ 5,546 bilhões, alta de 2.220% sobre o mesmo período de 2020 –, Sasson está revisando suas estimativas para as ações da empresa na Bolsa.

“Temos espaço para revisão para cima por conta desse desempenho forte do preço do minério, que vem surpreendendo o mercado, pela magnitude e longevidade”, afirmou ele. A atratividade da ação da companhia também está amparada em pagamento de gordos dividendos a seus acionistas, visto que a empresa tem forte geração de caixa e sem previsão de grandes investimentos.

China

A explicação para a alta expressiva na Bolsa tem relação direta com o preço do minério de ferro, que desde o ano passado vem em curva ascendente. Em abril, o preço médio da commodity chegou a US$ 189 a tonelada, se aproximando do pico histórico de 2008 (US$ 196). E a leitura dos analistas é que o preço do insumo deve se manter por um período mais longo em patamares elevados, já que o cenário de oferta mais restrita e demanda em alta – puxada pela China – deve persistir. 

O analista de mineração e siderurgia da XP, Yuri Pereira, comenta que, além desses fatores, o volume de produção da Vale foi afetado no início do ano por conta de chuvas e paradas de manutenção, algo que fez com que a mineradora entregasse um volume menor do que o previsto, diminuindo ainda mais a oferta.

Do lado da demanda, o analista lembra que a China, maior destino da produção mundial de minério de ferro, vem crescendo e tem aumentado a busca pelo insumo na esteira de estímulos governamentais do gigante asiático. Ainda na sua opinião, a Vale tem tido sucesso em fortalecer sua estrutura ESG, e não está com o foco, neste momento, em ampliar produção. “O foco da Vale está em arrumar a casa.”

Para o analista de pesquisa da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, o valor da Vale depende de algumas variáveis, tal como seu volume de produção e avanço na agenda ESG, algo que pode ajudá-la a reduzir a distância de seu preço em relação ao das mineradoras australianas. 

Após IPO, CSN Mineração quer  ampliar produção

O superciclo da commodity abriu espaço para uma abertura de capital prometida há vários anos – o da CSN Mineração, dona da mina Casa de Pedra, que possui um dos minérios de melhor qualidade do Brasil. A oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da empresa, comandada pelo empresário Benjamin Steinbruch, movimentou R$ 5,2 bilhões em fevereiro, com grande parte dos recursos indo para a CSN. Um dos planos da empresa é ampliar a capacidade de produção das atuais 33 milhões de toneladas por ano para até 108 milhões em 2033. 

Ainda entre as grandes companhias do setor, há a expectativa também sobre planos da Usiminas para ampliação de sua produção de minério de ferro. A empresa estuda se investirá para explorar o minério chamado de compacto, um tipo mais “duro” – projeto que deve demandar investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. Se sair do papel, a previsão é elevar o volume de produção de 12 milhões de toneladas para 29 milhões de toneladas por ano.

A Usiminas chegou a considerar a opção de vender sua participação de 70% na Mineração Usiminas, mas voltou atrás em 2019. 

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Mineradoras de menor porte tiram projetos da gaveta

Empresários afirmam que elevação do preço do minério de ferro torna investimentos viáveis; Bamin aposta em projeto integrado

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2021 | 05h00

Sustentada pelo ciclo de alta de preços do minério de ferro no mercado internacional, uma série de projetos começa a sair da gaveta em Minas Gerais, tradicional região produtora da commodity no País. O que aproxima esses investimentos é o fato de que todos são liderados por pequenos e médios produtores.

“Nossa intenção é acelerar tudo para aproveitar o preço”, afirma o sócio-fundador da Atlântica Minas Mineração, Maurício Índio do Brasil. Fundada em 1996, a companhia tem hoje o direito de explorar um total de 60 áreas, mas só quatro delas estão em operação. Pelos novos planos, mais duas áreas vão começar a ser exploradas nos próximos meses e outras 18 já entraram em fase de análise pelos órgãos responsáveis para obtenção de licenciamento. 

Previstos para cidades como Morro do Ferro, Barão de Cocais, Bom Jesus do Amparo e Santa Luzia, cada projeto desses da Atlântica, que serão ainda expandidos, tem capacidade para gerar cerca de 30 mil toneladas anuais – praticamente, um grão de minério perto das cifras superlativas das gigantes do ramo. Só a Vale prevê produzir 310 milhões de toneladas neste ano. Como a logística costuma ser o grande entrave para os pequenos exportarem, a venda é feita localmente para as grandes mineradoras e siderúrgicas ou, então, para os guseiros – que são aqueles que transformam o minério em ferro-gusa, matéria-prima para a produção de aço. 

Índio do Brasil conta que no ano passado vendeu no mercado interno a tonelada do minério, em média, a R$ 180; hoje, o valor já chegou a R$ 600. Localmente, os mineradores não conseguem capturar o prêmio de qualidade que as grandes mineradoras conseguem vendendo diretamente na China.

Como a ideia é pisar no acelerador, no fim de 2020 a mineradora negociou o aporte financeiro de um fundo para bancar os investimentos. A Atlântica não divulga o nome do fundo nem o valor investido. Neste momento, segundo Índio do Brasil, duas outras negociações do mesmo gênero estão em curso. 

“Estamos vendo projetos menores que começaram a sair do papel, projetos que se viabilizaram com a atual taxa de câmbio e preço do minério”, comenta Fernando Setti, sócio que comanda a área de mineração do escritório Azevedo Sette. Segundo ele, esses projetos, em média, têm uma capacidade de um milhão de toneladas a cinco milhões de toneladas.

Outro exemplo vem da Herculano Mineração, que deverá sair de uma produção de 4,2 milhões de toneladas, no ano passado, para um total de 5 milhões neste ano. “Esse atual aumento de preço (do minério no mercado internacional) compensa toda a dificuldade que já passamos. Teve ano que a conta não fechava”, afirma o presidente da mineradora, Marco Aurélio Herculano, que fundou a empresa em 1992 ao lado dos dois irmãos.

De olho no salto dos negócios, a companhia já apresentou pedido de licenciamento para uma nova lavra e prepara um segundo. A expectativa é que a produção seja iniciada em até dois anos, o que no setor representa um tempo de maturação relativamente curto. Até lá, a expectativa ainda é ter um mercado com preços atrativos. Diretor executivo da consultoria J.Mendo, Adriano Espeschit afirma que o investimento até pode ser feito com base nos preços correntes, mas o olhar precisa ser de longo prazo. “É preciso pensar na sustentabilidade do projeto”, afirma ele. Ele frisa que essa busca por tirar projetos da gaveta ou expandir os já existentes acaba embarcando também menores de menor concentração de ferro, que precisam de maior beneficiamento, que é a mistura com um minério de melhor qualidade, para que possam ser vendidos. Como esse processo de beneficiamento é custoso ele acaba se tornando economicamente viável com um preço elevado do minério de ferro. O especialista destaca que, como o ciclo do minério é longo e os projetos demoram para serem executados, é necessário ter na prancheta valores conservadores na hora da tomada de decisão. 

O presidente do Conselho do InstitutoBrasileiro de Mineração (IBram) , Wilson Brumer, que já comandou a Vale e Usiminas, frisa que os grandes projetos de mineração levam de sete a dez anos para ficarem prontos e, por isso, investimentos não podem ser baseados no preço atual do minério. No entanto, as médias empresas tem a possibilidade de acelerar aumento de produção e conseguirem surfar ao menos uma parte desse atual patamar de preço. Um dos trabalhos que o tem feito para fomentar os investimentos, comenta, é de buscar uma aproximação do setor com a Bolsa brasileira, com a intenção de abrir caminho para que essas empresas aprimorem sua governança e possam abrir capital. “O setor de mineração é um setor de longo prazo, com investimentos muito robustos e retornos cíclicos”, frisa.

Bamin

Ao arrematar no mês passado o primeiro trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), a Bahia Mineração (Bamin) deu o passo que precisava para anular uma barreira importante na produção de minério de ferro destinada à exportação: logística. A empresa deve investir R$ 14 bilhões em um projeto que integra mina-ferrovia-porto no Estado da Bahia. Além do trecho da Fiol, de 537 km, o pacote engloba uma mina de ferro, em Caetité, e um terminal portuário, em Ilhéus. Hoje, a produção de minério é de 1 milhão de tonelada – e vendida à Vale. Livre do problema de logística, a companhia fala em chegar a 18 milhões de toneladas até 2025. 

Para o presidente da Bamin, Eduardo Ledsham, um ex- executivo da Vale, o momento agora é de produção dos depósitos menores de minério. “O Brasil não está mais nos grandes projetos, mas nos menores”, comenta o executivo ao Estadão.

O atual preço do minério, comenta o presidente da Banim, faz diferença e a empresa está, inclusive, avaliando ampliar sua produção. O executivo destaca, contudo, que a companhia precisa se estruturar para ser sustentável mesmo no ciclo de baixa do minério – momento que sempre chega, comenta.

A Bamin, controlada pela Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão, é hoje a única mineradora em atividade no Brasil que terá toda sua estrutura localizada apenas no Estado na Bahia: mina, ferrovia e porto.  Ledsham destaca que com a infraestrutura pronta, o que está previsto para ocorrer em 2026, a ideia é ajudar a alavancar a produção de minério da região, de produtores menores travados por falta de logística.

 Com o atual preço e logística disponível, frisa, diversas minas devem se viabilizar. A Fiol terá capacidade de transporte de 60 milhões de toneladas e como a Bamin utilizará apenas um terço dessa capacidade, o restante será ocupado por produção de terceiros e, ainda, pelo agronegócio da região.  “A infraestrutura será um indutor para a produção da região”, diz.

Para a mineradora conseguir exportar é a via necessária em busca de mais rentabilidade. Ao vender no Brasil a Banim não consegue capturar o valor sobre a qualidade do seu minério de sua mina  Pedra de Ferro.

Para o minério de concentração mais alta de ferro e com presença menor de outros componentes, como a sílica, existe um ‘prêmio’ ao valor pago. Esse minério de mais alta concentração de ferro e mais limpo é utilizado para se misturar com minério de qualidade menor, cujo produto será utilizado para a produção de aço. Ao se vender no Brasil, no entanto, a mineradora não consegue esse preço mais alto, por isso a necessidade de buscar a exportação.

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‘Boom’ leva mais receita e empregos a municípios

No quadrilátero ferrífero de Minas, Itabirito e Nova Lima lucram com alta do minério

Aline Reskalla, especial para o Estadão

03 de maio de 2021 | 05h00

Em março de 2020, a mineira Bárbara Santos, 25, viu seus rendimentos caírem a zero. Ela trabalhava na área de eventos, duramente afetada pela pandemia. Foi quase um ano de aperto financeiro, medo e incertezas até conseguir dar a volta por cima, em fevereiro deste ano. Moradora de Itabirito, a 50 km de Belo Horizonte, Bárbara foi contratada pela Ágile Minerals, empresa de um setor que vive aquecimento ímpar em tempos de coronavírus.

“Quando recebi o telefonema da empresa, fiquei feliz por essa porta ter se aberto, apesar da pandemia. Num cenário econômico totalmente difícil, eu consegui entrar em uma empresa que está crescendo”, comemora a analista de vendas.

A Ágile fabrica bombas, válvulas e outras peças para mineradoras e projeta um crescimento de 50% no faturamento deste ano, no rastro do crescimento de toda a cadeia de negócios gerada pela commodity. Para dar conta dos pedidos, a companhia contratou 200 funcionários desde o início do ano para sua nova unidade, inaugurada em janeiro em Itabirito. A empresa saiu de um terreno de mil metros quadrados para ocupar uma área de 13 mil metros quadrados. “Nossa expectativa é atingir uma receita de R$ 100 milhões em 2021”, afirmou o gerente administrativo da unidade, Amadeu Cornélio Pinto.

Itabirito faz parte do chamado quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. Com a disparada da demanda mundial, especialmente da China, e dos preços do minério do ferro, a região que concentra as maiores jazidas do Estado vive um novo “boom” econômico. “As empresas mineradoras instaladas aqui estão em processo de expansão, Vale, Gerdau, empresas menores também, e a demanda de emprego tem surpreendido”, afirma o secretário de Desenvolvimento Econômico do município, Mário Marques.

No ano passado, a cidade ficou entre as 20 do País que mais criaram vagas formais (3.557), segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia. “Nossa estimativa é que 80% desses postos de trabalho tenham relação com a mineração.”

Arrecadação. O município também viu crescer a receita com a chamada CFEM, uma compensação financeira pela exploração de recursos minerais. Em 2020, essa arrecadação chegou a R$ 135 milhões, crescimento superior a 90% na comparação com 2019. No primeiro trimestre deste ano, avanço ainda maior: 671%, com R$ 58 milhões no período. A contribuição representa hoje 65% das receitas de Itabirito.

No município vizinho de Nova Lima, o movimento não tem sido diferente. O prefeito João Marcelo Dieguez Pereira disse ao Estadão que, neste primeiro trimestre de 2021, a arrecadação da CFEM já acumula crescimento de 273%, passando de R$ 13 milhões, em 2020, para R$ 48 milhões de janeiro a março deste ano. “É uma cidade com mais de 320 anos, e sua história está diretamente ligada à mineração. Estamos com uma série de empresas em fase de licenciamento. Esse bom momento do setor nos permite investir em diversificação econômica e nas obras de infraestrutura”, disse o prefeito. 

Outra empresa que está se instalando em Itabirito é a LGA Mineração, que tem uma operação ativa na cidade de Congonhas que produz cerca de 1,5 milhão de toneladas de minério de ferro por ano. Um dos proprietários da empresa, Paulo Toledo, explica que a nova unidade planeja produzir mais 600 mil toneladas de minério de ferro de alto teor por ano, destinados aos produtores nacionais de aço e para exportação.

“Nos últimos dois anos, tivemos incremento de aproximadamente 140% em nossos investimentos. Também aumentamos em cerca de 15% nossa mão de obra direta e em 10%, a indireta”, diz ele. “O grande peso do momento favorável ao setor reside na demanda robusta de minério de ferro na China. Aliado a isso, as dificuldades operacionais dos grandes players mundiais fazem com que a oferta dos produtos oscilem com mais volatilidade, mantendo os patamares de preços elevados. Permanecendo esse cenário, creio que as empresas continuarão com essa espiral de desenvolvimento.”

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