Bovespa cai mais de 10% e fecha no menor nível em 2 anos

Incertezas no cenário externo sobre risco de recessão global derrubaram preço das commodities

Da Redação,

22 de outubro de 2008 | 18h44

A sensação cada vez mais forte de que o mundo está entrando numa recessão prolongada ditou outro dia de perdas profundas nos mercados internacionais, movimento que contaminou a Bolsa de Valores de São Paulo. O Ibovespa fechou em queda de 10,18%, aos 35.069 pontos, no menor nível desde setembro de 2006. Na última hora do pregão, os negócios chegaram a ser suspensos pelo circuit breaker, depois de o índice ter ultrapassado 10% de baixa. O giro financeiro da sessão foi de R$ 4,2 bilhões. Veja também:Dólar salta mais de 6% com pessimismo de mercados globaisGoverno autoriza estatização de instituições privadas no PaísÍntegra da MP no Diário Oficial  Pacote para construção civil envolverá BNDES e CaixaConheça outro caso de intervenção do governo em construtorasConsultor responde a dúvidas sobre crise  Como o mundo reage à crise  A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise   Em Wall Street, as bolsas de valores despencaram para os menores níveis em cinco anos com investidores lutando contra as crescentes perspectivas pavorosas para a economia global seguindo uma série de resultados e previsões desapontadores das principais companhias norte-americanas. O índice Dow Jones teve forte queda de 5,69%, a 8.519 pontos. O Standard & Poor's 500 despencou 6,10%, a 896 pontos. O Nasdaq caiu 4,77%, a 1.615 pontos.  A queda da Bolsa de São Paulo foi puxada pelas ações ligadas às commodities e bancos. Quando os negócios foram suspensos, as ações ordinárias da Petrobras (ON, com direito a voto) caíam 9,59%. Já os papéis da Vale despencaram 7,80%. O risco de recessão global faz com que o preço das commodities caia. A Bovespa é formada em grande parte por empresas ligadas ao setor de commodities. Por isso, a Bolsa brasileira é fortemente afetada por este cenário. Para as ações de bancos, além da piora do ambiente externo, pesou também a redução do crédito e a divulgação da MP 443, que autoriza o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem participações e até o controle de instituições financeiras públicas ou privadas, sem processo de licitação. As ações do Unibanco apresentavam queda, de 6,61%; Banco do Brasil ON caía 9,82%; Bradesco ON despencava 8,45% e Itaú PN desabava 10,78%.  Analistas ressaltam, porém, que não vêem muita relação dessa queda expressiva das ações do setor bancário com a divulgação da MP 443. "É mais uma medida preventiva, que mostra que o BC está em estado de alerta", disse uma fonte. De acordo com a medida, os dois bancos federais poderão comprar participações em instituições financeiras, públicas ou privadas, sediadas no Brasil, incluindo empresas dos ramos securitário, previdenciário e de capitalização, entre outras. Além disso, o negócio poderá ser realizado sem qualquer licitação para isso. A MP 443 autoriza ainda a criação da empresa Caixa - Banco de Investimentos S.A., sociedade por ações, subsidiária integral da Caixa Econômica Federal, com a finalidade de explorar atividades de banco de investimento. Além disso, o BC poderá realizar operações de swap (contratos que trocam os rendimentos em juros pela oscilação da moeda estrangeira) de moedas com bancos centrais de outros países. Desconfiança De qualquer maneira, ficou a dúvida se essa MP é para atender a alguma demanda específica. "Será que ela veio para estatizar algum banco pequeno com problemas de liquidez"? - perguntava-se um operador. "Essa é uma medida radical em cima de outra de duas semanas atrás, sobre compra de carteiras de instituições financeiras", observou a mesma fonte. O presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que não há demanda pelo redesconto. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu que não tem banco quebrando no Brasil e que o sistema financeiro brasileiro é sólido por ser menos alavancado, mais prudente e mais capitalizado do que em outros países. "Mas isso não o isenta de ter problemas de liquidez, por isso o Banco Central está devolvendo os depósitos compulsórios, criando mais alternativas para criar liquidez", disse. O mercado de câmbio também sentiu o aumento das incertezas. Apesar de todas as medidas do Banco Central, a moeda norte-americana subiu 6,44% e fechou cotado a R$ 2,38. Neste patamar, a alta da moeda norte-americana chega a 25,13% no mês.  Europa As principais bolsas européias terminaram em baixa, pressionadas pela declaração feita na terça-feira pelo presidente do Banco da Inglaterra (BoE), Mervyn King, de que o Reino Unido poderia estar entrando em um período de recessão. King, do BoE, disse: "Parece que agora é provável que a economia do Reino Unido entre em uma recessão". Como resultado, a libra despencou ante o dólar e o receio sobre a diminuição do crescimento mundial se tornou exacerbado.  Kenneth Broux, economista do Lloyds TSB, disse que o discurso de King foi "psicologicamente muito importante", confirmando o que a maioria das pessoas já esperava. Broux estima que o banco central britânico deve realizar um novo corte de 50 pontos-base na taxa básica de juros em novembro e acrescentou que "com a tração para baixo das taxas de empréstimo interbancário em Londres (Libor), podemos ver os bancos emprestarem novamente".  O índice FTSE 100, da Bolsa de Londres, caiu 188,84 pontos, ou 4,46%, para 4.040,89 pontos. "A ameaça de recessão e o prognóstico fraco para os lucros parecem estar dominando o momento", disse Jimmy Yates, da CMC Markets. As empresas petrolíferas e as mineradoras tiveram algumas das perdas mais acentuadas no dia, pressionadas pela valorização do dólar e pelos preços mais baixos dos metais e do petróleo. Kazakhmys recuou 15,49% e a Vedanta 13,11%. Em Frankfurt, o índice DAX registrou declínio de 213,34 pontos, ou 4,46%, para 4.571,07 pontos. A Hypo Real Estate liderou as perdas, encerrando com queda de 10,29%. As seguradoras Munich Re e Allianz caíram 6,66% e 6,26%, respectivamente, sentindo os efeitos do alerta de lucro da Hannover RE, que recuou 0,47%. O índice CAC-40, da Bolsa de Paris, fechou em baixa de 177,22 pontos, ou 5,10%, a 3.298,18 pontos. A Total caiu 6,16% e a Vallourec 9,81%, em meio ao declínio nos preços do petróleo. A ArcelorMittal perdeu 10,06%, atingida por temores sobre o setor siderúrgico. O Groupe Danone recuou 6,68% em Paris, mesmo após anunciar um aumento de 31% nas vendas do terceiro trimestre. A empresa confirmou as previsões de resultados para este ano. Em Madri, o índice IBEX-35 terminou em queda de 799,70 pontos, ou 8,16%, para 8.995,30 pontos. A Gamesa registrou o declínio mais acentuado da sessão, recuando 22% após a companhia divulgar que estava diminuindo a produção.

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